Por Matheus Leitão/VEJA

O senador Flávio Bolsonaro foi traído pelo impulso de defender o ex-assessor Fabrício Queiroz e acabou dando munição para os investigadores do esquema de rachadinha, supostamente liderado por este que era seu chefe de gabinete no mandato na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro.

A investigação rastreia um caminho nebuloso nas entranhas da família Bolsonaro, e que tem levado o filho “Zero Um” do presidente da República a uma estratégia de silêncio. Flávio tem estado na defensiva, inclusive com postura apagada no Senado.

Ao ser alvo de operação da Polícia Federal nesta semana, o governador Wilson Witzel acusou haver digital do adversário Jair Bolsonaro na ação e disse que há provas suficientes para que Flávio seja preso. O senador escorregou ao responder. Apresentou uma nova versão que o expõe de maneira mais próxima a relação com o seu então chefe de gabinete em quase toda campanha eleitoral de 2018.

“Você ficava ligando para o Queiroz para correr atrás de mim na campanha. Sabia que o Queiroz estava do meu lado. Um cara correto, trabalhador, dando sangue por aquilo que acredita. Como eu me arrependo de ter, eu, te elegido governador. Você não me deu um voto”, disse o senador contra Witzel.

Antes desse elogio público, a estratégia linear do senador era tentar se desvincular do policial militar aposentado desde que este foi alvo de relatórios do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) sobre movimentação financeira suspeita. Mas os fatos o atropelaram e podem ter fugido de seu controle.

O empresário Paulo Marinho, suplente de Flávio no Senado, rompeu com o clã e, em entrevista à jornalista Mônica Bergamo, apontou que teria havido vazamento de informações sigilosas sobre a Operação Furna da Onça entre o primeiro e o segundo turno das eleições de 2018. Segundo Marinho, o vazamento teria sido feito por um delegado da Polícia Federal que alertou Flávio Bolsonaro sobre a chance de seu gabinete ser atingido.

A questão é a seguinte: sendo Queiroz um funcionário exemplar que se doava com louvor à causa de Flávio Bolsonaro, por que o então deputado estadual o demitiu do gabinete de forma súbita em 15 de outubro de 2018, no meio da campanha de segundo turno e dias antes de a Furna da Onça ir para a rua?

Há ainda uma coincidência que passa longe de olhares ingênuos e chama atenção dos investigadores: demissão no mesmo dia em que o então deputado federal e presidenciável Jair Bolsonaro demitiu a filha de Queiroz do seu gabinete. A suspeita de vazamento, apontada por Paulo Marinho, cresce nessa circunstância.

Agora advogando publicamente em favor das qualidades de Queiroz e demonizando um ex-aliado em rito de autofagia típico de grupos políticos cindidos, Flávio pode cair em contradição ao demonstrar que Queiroz era, sim, seu braço direito. E isso diz muito aos investigadores, experientes em reconhecer quem morde iscas.