NA RUA  Como a maioria dos trans, Patrícia sofreu agressões em casa e na escola ao assumir a identidade transexual aos 16 anos (Foto: José Eduardo Cunha)

IstoÉ

Patrícia, de 18 anos, chega ao apartamento que divide com duas amigas travestis por volta das 5 ou 6 da manhã e vai dormir. O sono é longo e se estende até às 5 da tarde. “A rua cansa muito”, afirma ela, que assumiu sua identidade transexual aos 16 anos. “A gente nunca sabe se vai voltar viva.”

A frase não é uma impressão, é um fato. Não apenas para Patrícia, que vive no centro de São Paulo, mas para todo o grupo de travestis e mulheres transexuais brasileiras. No ano passado, o país bateu um novo recorde, com aumento de 24% no número de assassinatos transfóbicos. Foram 179 mortes, 35 a mais do que em 2016, conforme a associação nacional de travestis e transexuais. Minas Gerais, Bahia e São Paulo lideram a lista de ocorrências.

O Brasil foi responsável por 40% dos 2.600 assassinatos em todo o mundo nos últimos dez anos, de acordo com levantamento da associação europeia TransRespect em 72 países. O México, segundo colocado, teve 275 transgêneros assassinados no mesmo período. Os Estados Unidos contabilizaram pouco mais de 200 homicídios. Dois terços das pessoas transgêneros assassinadas eram profissionais do sexo.

A média de vida dessa população no Brasil é de 35 anos – menos da metade da média nacional (75 anos). “A expectativa de vida é baixa pela violência, mas não apenas. É muito comum você encontrar pessoas de 30, 40 anos que nunca passaram pelo posto de saúde da região. Elas morrem por não se tratarem”, afirma o psiquiatra Daniel Mori, que trabalha no núcleo de atendimento à população transgênero no Hospital das Clínicas de São Paulo.

Nesses números, no entanto, o Brasil não está sozinho. A Argentina, país-modelo nos direitos dos transgêneros, possui a mesma expectativa de vida. Nos Estados Unidos estima-se que a expectativa de vida seja ainda menor, de 32 anos.

Sentada no degrau da esquina de uma pizzaria fechada, no cruzamento da rua Bento Freitas com a Major Sertório, Patrícia conta que nasceu em um “bairro simples” de Natal (RN). Não sabe precisar se o pai – morto “quando tinha um ou dois anos” – vivia com a família. A mãe era “mulher da vida” que se cansou desse trabalho e se casou novamente – com um pedreiro. Para não voltar à prostituição, trabalhava como empregada doméstica e aceitava os maus-tratos do segundo marido, que a colocava contra a filha mais velha.

Sua história é a de muitos. Ainda menino, “mas bem feminina”, era agredida pela mãe – segundo diz, instigada pelo padrasto. Obrigada a trabalhar como servente de pedreiro, Patrícia teve de deixar a escola, onde sofria bullying e foi agredida por um garoto. “Por motivos de ele não gostar de gay.”

Aos 16 anos, passou a adotar visual e identidade femininos e a se prostituir, tornando-se parte dos 95% de transgêneros que vendem o corpo na rua.

Embora o acesso à saúde ainda seja desigual entre a população trans, o SUS, desde 2008, oferece cirurgias de redesignação sexual para transgêneros, com acompanhamento psicológico. Até o ano passado, haviam sido realizados 400 procedimentos cirúrgicos, incluindo operações de mudança de sexo. Em 2013, tornou-se possível ser atendido pelo SUS com o nome social (e não o  de registro). Neste ano, uma portaria do Ministério da Educação autorizou os transgêneros a utilizar o nome social nos registros escolares da educação básica. Empresas como a Dow Brasil, de produtos químicos e tecnologia, e a rede de hipermercados Carrefour adotaram políticas para aumentar o número de funcionários transgêneros.

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