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A notícia de que, com as últimas chuvas, o reservatório de Sobradinho, o maior do Nordeste, chegou a 21,33% de sua capacidade de armazenamento neste final do mês de fevereiro foi recebida com alívio pelos agricultores do Sertão do São Francisco e também pela Companhia Hidrelétrica do São Francisco (Chesf). O anúncio foi feito pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS).

O volume parece pequeno, para aquele que é considerado um dos maiores lagos artificiais do mundo, com capacidade para 34 bilhões de metros cúbicos. Mas considerando que Sobradinho quase entra em colapso no final do ano passado, quando registrou um volume abaixo dos 3%, a notícia foi mais do que bem-vinda.

As boas novas continuam chegando junto com as chuvas que, nos últimos meses, caíram nas cabeceiras do Rio São Francisco. O atual volume de 21,33% tende a continuar aumentando com as águas que vêm de Minas Gerais, onde o rio São Francisco nasce. Até o fim do período chuvoso, que acontece no mês de abril, Sobradinho deverá acumular 33% de sua capacidade. Segundo projeções do Centro Nacional de Monitoramento e Alerta de Desastres Naturais (Cemaden), fevereiro teve chuvas acima da média na região, com 206 milímetros de precipitação, quando a média histórica para a bacia é de 175 mm.

A quantidade de água que entra na barragem atualmente é de 1.800 metros cúbicos por segundo e estão saindo 630. Cenário bem diferente do final do ano passado, quando a Agência Nacional de Águas (ANA) autorizou a Chesf a manter a vazão em 550 metros cúbicos por segundo, a mais baixa em 38 anos de existência da barragem.

O fornecimento da energia na região só não chegou a ser ameaçado porque o Nordeste conta hoje com outras fontes de energia, como as usinas eólicas e térmicas, além da ligação com redes de transmissão de energia de outras regiões do País. Atualmente, a usina hidrelétrica de Sobradinho opera com duas, das seis turbinas, que geram 140 MW. Em condições normais de operação, com o reservatório cheio, a usina de Sobradinho poderia gerar 1.050 Megawatts com todas as unidades geradoras em operação, segundo a Chesf. Procurada pela reportagem, a Chesf informou que a vazão da barragem de Sobradinho é determinada pela Agência Nacional de Águas (ANA) e o Ibama e que, por enquanto, não há previsão de aumento ou redução na vazão.

AGRICULTURA

O lago da barragem de Sobradinho, com seus 350 km de extensão, é “a caixa d’água” do Submédio e Baixo São Francisco, diz o professor Julianeli Lima, da Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf) e integrante do Conselho da Bacia Hidrográfica do São Francisco. O reservatório abastece os municípios baianos de Remanso, Casa Nova, Sento Sé, Pilão Arcado e Sobradinho, além de ser fonte de captação de água para o polo de fruticultura irrigada de Petrolina (PE) e Juazeiro (BA), principal exportador de uva e manga do Brasil. O professor Julianeli diz que o aumento no nível do reservatório foi significativo, mas ainda não é relevante diante das necessidades dos projetos de irrigação e do consumo humano. “Não se deve deixar de economizar água de todas as formas”, diz Julianeli. Ele lembrou que ano passado a Agência Nacional de Águas instituiu o Dia do Rio, que acontece todas as quartas-feiras.

Assim, uma vez por semana fica proibida a captação de água em toda a bacia do Rio São Francisco. “A medida é necessária para que a população e também as empresas continuem poupando o rio e ajudando a manter o nível das águas”, diz Julianeli. O Dia do Rio está mantido através da Resolução 1.043, da ANA, até 30 de abril deste ano, podendo ser prorrogado.

Para José Gualberto, presidente da Associação dos Produtores do Vale do São Francisco (Valexport), mudou a expectativa dos produtores de uva e manga em relação à segurança hídrica. “Faz dois anos que trabalhamos com o risco de faltar água para irrigação. Hoje sabemos que, pelo menos em 2018, não haverá essa preocupação”, acredita o empresário. Gualberto diz ainda que o momento não é de expandir áreas de cultivo ou mesmo pensar em aumento de produção, mesmo porque o racionamento deve continuar. “O Dia do Rio representa uma queda de 14% na nossa produção, já que significa um dia sem irrigação, mas pelo menos sabemos que este ano não vai piorar”.

A Valexport ainda não tem números das perdas na produção de frutas no ano passado. Gualberto afirma que ter um volume de água maior em Sobradinho é importante para a região, porque vai beneficiar sobretudo as culturas de ciclo curto, como cebola, milho, melancia e feijão e porque haverá água para o consumo humano e animal. 

No Perímetro Irrigado Nilo Coelho, que envolve uma área de 23,5 mil hectares, entre o Norte da Bahia e Sudoeste de Pernambuco, 2.326 produtores rurais dependem das águas do reservatório da barragem de Sobradinho. Cerca de dois mil lotes dentro do perímetro são de pequenos agricultores e 97% do plantio são de frutas, na sua maior parte manga, uva e banana. 

Paulo Sales, gerente executivo do Distrito de Irrigação Nilo Coelho, diz que a batalha contra a crise hídrica ainda não foi vencida, mas, sem dúvida, ver o nível de água subindo no reservatório renova o ânimo.

Sales revela que o ONS forneceu um relatório que mostra as projeções até o final deste ano, baseado na média de chuvas dos últimos cinco anos. “No cenário mais crítico, Sobradinho chegará em dezembro com 13% de capacidade. E, na projeção positiva, 24%. Ou seja, terminaremos 2018 bem melhor do que no ano passado”, pontua Sales. E, mesmo sabendo que o que interessa para os agricultores dos lotes irrigados é a chuva que cai na cabeceira do rio, o gerente não deixa de comentar: “Agora, está chovendo quase todas as noites em Petrolina”.

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