Leia a 2ª parte da entrevista do ex-senador Luiz Estevão a revista Época.

Em setembro de 2014, Luiz Estevão chegou ao local na condição de detento e bancou pessoalmente os itens para equipar o bloco 5 do CDP, onde fica a ala dos vulneráveis. “Quando eu cheguei aqui, não tinha nada. Então eu tive de montar a cantina. Eu forneci a geladeira, micro-ondas, fogão, utensílios de cozinha, tudo, inclusive uma cafeteira. Eu não como açúcar, também não sabia fazer café. Na época, eu pedi, em vez de uma cafeteira, uma máquina de expresso, que qualquer um sabe fazer.” Cerca de dois meses depois, começaram a chegar os primeiros presos do mensalão: Cristiano Paz e Ramon Hollerbach, que eram sócios do publicitário Marcos Valério, operador do mensalão. Ambos dividiram cela com Luiz Estevão. “Quando eu voltei em 2016, tudo que eu deixei aí tinha continuado: a televisão, meu aparelho de tocar CDs, uma coleção grande de CDs de música”.

O empresário contou que todos esses itens, como as máquinas de café expresso, eram autorizados pela direção do presídio. “Como a cantina não tinha condições de fazer café sem açúcar para mim (…), eu pedi na época à chefia de pátio: ‘Olha, tenho uma cafeteira aqui, eu não quero tomar café com açúcar, a cantina não tem condições de fazer café sem açúcar para mim, porque nem dá tempo também para o cantineiro fazer, e, se ele fizesse no início do dia, não teria onde guardar’. Aí foi autorizado que eu trouxesse toda semana 48 cápsulas de café e que eu utilizasse essa cafeteira. Então essa cafeteira nunca foi segredo para ninguém, nada disso. Pelo contrário, as cápsulas de café eram entregues aqui na chefia de pátio, e a chefia de pátio repassava”, afirmou. Os CDs de música, compostos principalmente de discos de jazz e música clássica, o aparelho de som e outros itens inusitados foram sendo retirados após sucessivas inspeções na ala dos vulneráveis. “Naquela época, eu trazia CDs pelo menos todo mês. A chefia de pátio escutava, via se não tinha nenhuma irregularidade e me repassava os CDs normalmente. Quando houve aquela inspeção do dia 26 de janeiro de 2017, ninguém questionou sobre o tocador de CD. Mas uma semana depois houve uma vistoria nas celas e tudo aquilo que pudesse ser interpretado por alguém como uma coisa ilegal, tudo aquilo foi retirado, inclusive o tocador de CD.”

Segundo Luiz Estevão, o deputado afastado Paulo Maluf (PP-SP), com quem ele desenvolveu uma relação próxima durante a passagem do parlamentar pela Papuda, foi um detento “admirável”. “Ele teve um comportamento muito bom com todos. Foi muito gentil, muito educado com os presos, tanto que se tornou uma pessoa muito estimada por todos. Todos os dias ele ia conversar comigo. Depois do almoço, era obrigatório. Ele dormia um pouco, acordava e ia imediatamente sentar comigo na biblioteca e ia conversar comigo”, contou. Apesar de seu estado delicado de saúde, com câncer e dificuldade de locomoção, o que motivou sua mudança para prisão domiciliar, Maluf, segundo Estevão, reagia com bom humor às brincadeiras. “Eu brincava muito com ele: ‘Olha, Maluf, não se preocupe não que cadeia faz bem para a saúde’. Aí ele ria para mim. Primeira coisa, todo mundo emagrece. Eu, por exemplo, aqui há 861 dias. Se você fizer uma continha rápida, eu já almocei ou jantei 1.722 vezes. Todas às vezes, frango com arroz e cenoura. A comida é ruim? Não, a comida é decente, sadia, mas comer 1.722 vezes seguidas arroz, feijão, frango e cenoura evidentemente que é coisa que não agrada ao paladar de ninguém pela repetição.”

Ao ex-ministro da Casa Civil José Dirceu, que ficou na Papuda durante um mês entre maio e junho e dividiu cela com Estevão, o empresário disse ter dado conselhos sobre como receber visitas da filha menor, de 7 anos de idade — a legislação prevê uma visita especial separada dos demais detentos. Segundo Estevão, seus colegas de prisão não queriam visitas das filhas pelo fato de a ala dos vulneráveis ser ocupada por criminosos sexuais. “Nós somos 70 aqui no bloco. Quando eu cheguei, eram 19. Desses 70, acredito que uns 40 estejam presos em função de crimes sexuais contra menores, o que é uma situação muito desagradável. É um cenário muito duro para a gente ter consciência de que essas pessoas cometeram esse tipo de crime. O restante dos presos está aqui por estelionato, por falsificação, por assassinato, por homicídio, parricídio, fratricídio. Tem de tudo que você pode imaginar”, contou.

É proibido conversar com os outros presos sobre os crimes que cometeram? “É um assunto que eu evito”, disse Estevão. “Logo que eu cheguei, comecei a ser muito procurado pelas pessoas para conversar sobre seus crimes e principalmente para pedir ajuda porque quase todos eles são defendidos pela Defensoria Pública, e a Defensoria presta um trabalho extremamente deficiente. Na prática, grande parte dos internos não tem nenhuma assistência jurídica. Ou se tem é totalmente fora dos prazos da razoabilidade. Como eu comecei a ver que teria problemas, porque eu fui advertido de que qualquer serviço que eu prestasse aos demais detentos poderia caracterizar exercício de liderança, o que é malvisto pelas autoridades, evito conversar sobre os processos dos outros para não ter de me envolver. Pelo fato de eu ter recurso, de eu ter uma estrutura, eles esperam que eu possa disponibilizá-la para servir a eles”. Ainda assim, Estevão admite ter colocado seus advogados à disposição de alguns detentos, como Funaro.

Estevão continua alegando inocência em relação aos crimes pelos quais foi condenado. Diz que não participou das obras do Fórum Trabalhista e que nem conhecia o juiz Nicolau dos Santos — o Ministério Público Federal apresentou extratos de transferências de uma conta no exterior atribuída a Estevão para uma conta atribuída ao juiz Nicolau, consideradas pagamento de propina pelas irregularidades na obra. Estevão nega que tenha feito às transferências e diz que apenas se beneficiou vendendo terrenos para Fábio Monteiro de Barros, dono da Incal, construtora que tocou as obras do TRT de São Paulo. O empresário diz que Barros lhe pagou com dinheiro desviado das obras do TRT-SP, mas afirma nunca ter tomado conhecimento das irregularidades na obra, das quais diz não ter participado. Nas investigações, o Ministério Público apreendeu um contrato de gaveta entre Estevão e a Incal que, de acordo com a denúncia, comprova que Estevão era o verdadeiro responsável pelas obras. “Existe uma diferença aí, uma coisa é ser autor, outra coisa é ser beneficiário. Se você me perguntar se eu sou autor de alguma das irregularidades ou alguma das ilegalidades apontadas no processo do TRT, minha resposta é não. Não tenho nada a ver com aquilo, não conheço o juiz Nicolau, nunca estive na obra do TRT, nunca tive envolvimento com a condução daquilo ali. Se eu tivesse tido envolvimento, não tinha dado no que deu, eu teria terminado a obra corretamente”, defendeu-se.

Até o fim deste ano, Estevão prevê cumprir os requisitos para progredir para o regime semiaberto, quando poderá trabalhar fora do presídio durante o dia, ficando obrigado a voltar à noite e nos fins de semana. “A primeira missão que você tem quando sai daqui é voltar a se adaptar ao mundo lá fora. Da mesma maneira como ingressar aqui envolve um processo de adaptação: quanto mais rápido você conseguir fazer essa transição, menos você vai sofrer aqui dentro. Da mesma forma, sair daqui também representa (um processo de adaptação), principalmente num mundo tão acelerado como o de hoje. Então eu acho que o desafio depois que sair daqui é passar um processo de adaptação e conseguir conviver bem com o mundo lá de fora”, concluiu Estevão, proferindo a última frase da entrevista.

O empresário não sabia naquele momento que precisaria passar por um novo processo de adaptação dentro da Papuda. Por ordem da juíza Leila Cury, da VEP, no último dia 19, Estevão foi transferido para uma cela de isolamento no Pavilhão de Segurança Máxima. Nas palavras da juíza, Estevão “já foi flagrado, pelo menos duas vezes, na posse de objetos proibidos, tudo estando a indicar que, se não for imediatamente realocado em outro local, além de dificultar a efetiva apuração dos fatos, pode vir a conseguir novamente outros privilégios”. Em sua decisão, a juíza afirmou também que Estevão é suspeito de ter doado um imóvel a um agente penitenciário em troca de facilidades. A defesa de Estevão nega a suspeita e diz que prestará esclarecimentos sobre a acusação. Em nota, o advogado de Estevão, Marcelo Bessa, declarou que a cela para onde ele foi transferido não atende aos requisitos básicos de salubridade, está em condições “degradantes” e o deixa vulnerável a outros presos por estar na unidade “mais violenta e exposta do presídio”. A realidade do novo espaço de Estevão é bem mais dura: lá, os presos só recebem visitas de familiares a cada 15 dias, não têm acesso à biblioteca e o banho de sol dura apenas duas horas, entre outras restrições.