Ela acorda às quatro da manhã todos os dias. Do quarto onde os certificados e medalhas estão pendurados nas paredes, escuta o canto dos galos. Nas terras do Sítio Macambira, no distrito de Riacho do Meio, em São José do Egito, Sertão pernambucano, eles são muitos. E antes mesmo do Sol aparecer, Judite Ferreira da Silva, 37 anos, começa a se arrumar para ir à faculdade. Quando o relógio marca 5h, o mototaxista chega à casa da universitária para levá-la ao Centro de São José do Egito. São 12 quilômetros de trajeto na garupa da moto até o ponto de partida do ônibus que a levará para a cidade de Patos, na Paraíba.

A segunda parte da viagem começa às 5h30 e dura cerca de uma hora e meia. São pouco mais de 63 km até que Judite chegue à sala de aula. Apaixonada por cálculos e portadora de uma síndrome rara (Larsen), a sertaneja enfrenta o desafio com disposição. Nesta quarta-feira (28) fez dois anos que Judite, aluna do 4º período do curso de matemática da Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), deu uma lição de coragem e determinação a muita gente que a conhece. “Eu me dedico a cada dia, como uma missão, a defender a importância da matemática. Apesar das dificuldades, sigo lutando”, conta.

Somadas, a ida e a volta de Judite de casa à faculdade chegam ao resultado de aproximadamente 150 quilômetros de deslocamento em quase quatro horas. “Na volta, eu dependo de três transportes: o ônibus, que sai de meio-dia de Patos, um carro alternativo que não tem hora certa para sair do Centro de São José do Egito e seguir até a entrada do meu sítio e depois espero alguém da minha família vir me buscar de moto, num percurso de estrada de terra. Às vezes, chego em casa de 14h30”, calcula a universitária.

Antes de começar a estudar na Paraíba, Judite havia iniciado o curso em uma faculdade de Afogados da Ingazeira (PE), mas precisou trancar a matrícula e acabou perdendo a vaga. “Depois de dois anos afastada da faculdade, resolvi voltar a estudar. Sonho em ter um lugar para ensinar matemática do meu jeito. Pode ser até aqui no sítio”, revela.

Décima primeira filha de 12 irmãos, Judite diz que quando nasceu os familiares não acreditavam que ela fosse sobreviver. Os pais eram primos legítimos. O segundo filho de Sebastião e Josefa (já falecida) também nasceu com deficiência física e morreu antes de fazer um mês. Judite lutou pela vida, sobreviveu e surpreendeu. Depois que começou a estudar, apaixonou-se pela matemática. Entre os irmãos, foi a primeira a entrar numa universidade. Também é ela quem socorre os irmãos quando estão com algum problema em telefones celulares e outros aparelhos eletrônicos.

Além dos números, a universitária gosta de alimentar os pintos e as galinhas criados no sítio. As aves são vendidas para o sustento dos familiares. Outra coisa que Judite faz com gosto são as capas para os sofás de casa. Herdou da mãe a habilidade para a costura e exibi com orgulho as peças que cobrem os assentos do lugar onde mora com o pai e das casas dos irmãos. “Em tudo na vida a gente precisa da matemática. Até para calcular quanto de ração a gente vai gastar com a alimentação dos pintos é preciso usar a matemática”, destaca.

Uma medalha de bronze já na primeira olimpíada

Movida a desafios, Judite decidiu que participaria da Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas (Obmep). Em sua primeira tentativa, ganhou uma medalha de bronze na competição. Até hoje ela recorda do momento que recebeu o certificado das mãos do escritor Ariano Suassuna. “Foi muito emocionante”, lembra. Além da medalha, a sertaneja recebeu duas menções honrosas e mais três certificados de participação em outras edições da Obmep. Judite tem recebido vários convites para realizar palestras em escolas e eventos para falar sobre sua história de vida. Apesar de tímida, ela encara os desafios.

Somente aos 28 anos, Judite conheceu o Recife. A primeira viagem à capital de Pernambuco teve como objetivo buscar uma solução médica para seu caso. Após passar por uma avaliação, a universitária ouviu que não poderia ser operada sob o risco de ficar sem andar. Judite usa um pedaço de madeira como apoio para se locomover. O par de muletas que ganhou de presente não teve uso. “Era como se eu estivesse presa com as muletas”, diz.