O presidente da Comissão de Ética da CBF, Carlos Renato de Azevedo Ferreira Foto: Divulgação/CBF

Um torcedor indignado resolveu denunciar: jogadores não estavam respeitando o Hino Nacional antes das partidas do Brasileiro. Outro, revoltado com a eliminação na Copa-2018, tratou de protestar por causa do resultado, pedindo até ressarcimento financeiro pela decepção no mundial. Um palmeirense, por sua vez, contrariado por entender que o time fora prejudicado pela arbitragem em um duelo pela Libertadores, também enviou a manifestação contrária. Em comum nesses casos citados está o destino da reclamação: a Comissão de Ética do futebol brasileiro.

Estabelecido pela CBF em abril de 2017, o órgão tem por objetivo receber denúncias e julgar casos de desrespeito ao Código de Ética. No entanto, a caixa de entrada do canal também cumpre o papel — não planejado — de receber desabafos de torcedores, por regra, insatisfeitos. Obviamente, não há como agir nesses casos.

— É um canal aberto. A pessoa não tem um filtro se a infração lesa à ética ou é de natureza desportiva. Ele remete ao primeiro canal que ele tem. Isso é normal. Às vezes, o sujeito, depois que acabou o jogo, fica bravo e ele manda. Seria até um desabafo. Isso não gera processo ético, mas tratamos com respeito, disse o presidente da comissão de ética, Carlos Renato de Azevedo Ferreira.

Balanço das ações

Essas reclamações inusitadas já citadas fazem parte do universo de 167 denúncias recebidas, segundo levantamento dos casos listados até o início de novembro. As categorias são variadas e vão desde a uma série de textos mal redigidos, nos quais não é possível identificar uma denúncia fundada, a situações mais sérias, como manipulação de resultados e pedofilia.

No quesito “diversas”, são 77. Entre as que estão devidamente categorizadas, a maioria das denúncias diz respeito a supostos comportamentos inadequados em intermediação de jogadores.

Há uma estrutura para analisar cada mensagem que chega. Esse modus operandi implica em averiguar até que ponto há fundamento na denúncia, gerar diligências para apurar as informações e, diante de um cenário coerente, abre-se o processo na corte. Até o momento, a opção é manter decisões sob sigilo.

— Depois de transitado em julgado, vamos divulgar todas. Está previsto isso para o ano que vem. Enquanto o processo está em tramitação, não posso quebrar o sigilo, disse o presidente.

Mas há casos que vieram à tona. A comissão de ética, por exemplo, agiu determinando a suspensão do presidente da Federação Paraibana de Futebol, Amadeu Rodrigues, pelo envolvimento em um caso de manipulação de resultados no Estadual. Árbitros estavam envolvidos no esquema. O Superior Tribunal de Justiça Desportiva, posteriormente, baniu o dirigente do esporte.

Em 2017, os flamenguistas Felipe Vizeu e Rhodolfo viraram réus. O motivo foi a briga entre os dois na vitória sobre o Corinthians. Na ocasião, o atacante fez um gesto obsceno para o defensor na comemoração do gol. A comissão de ética advertiu os dois. Esse foi um dos 87 casos já julgados ou arquivados pela comissão.

Mas além de punir, a comissão de ética tem função “tira-dúvidas”. É comum, segundo Carlos Renato, que entidades enviem questionamentos para verificar se determinado procedimento transgride ou não a legislação vigente.

— Todo mundo pensa em denúncia. Mas isso é a terceira missão que o código deu à comissão. A primeira é orientação. A segunda é responder consultas. Só a terceira é receber, processar e julgar eventuais violações de natureza ética, explicou.

A comissão conduz os trabalhos desfalcada. Luis Flaviano Furtado, membro originário da câmara de investigação, foi afastado porque chegou a ser preso preventivamente em suposto envolvimento com um grupo investigado por operar jogos de azar. Ele é coronel da Polícia Militar de São Paulo.