Bateau Mouche sendo içado: 142 passageiros estavam a bordo Foto: Manoel Soares / Agência O GLOBO

Quando faltarem 15 minutos para 2019, terão passados 30 anos do naufrágio do Bateau Mouche IV, que zarpou da Praia de Botafogo na noite de 31 de dezembro de 1988 para celebrar a chegada do Ano Novo no mar de Copacabana. O iate, que ninguém sabia que era cheio de remendos, afundou no meio do caminho, perto do Morro do Leme, matando 55 pessoas.

Famoso na época, o passeio atraiu 142 passageiros, entre eles, a atriz Iara Amaral, uma das vítimas.

O caso Bateau Mouche trouxe à tona irregularidades que cercaram o licenciamento do barco, denúncias de corrupção envolvendo autoridades e um Judiciário moroso, que, em vez de punir os responsáveis pelas mortes, condenou suas famílias à eternidade da espera. Até hoje, às vésperas da virada para 2019, dezenas de parentes de vítimas ainda lutam para receber a indenização devida.

A perícia criminal revelou que a embarcação passou por profundas modificações, que condenaram sua estabilidade. Entre as mudanças feitas por um mecânico, numa oficina improvisada em Botafogo, às duas caixas d’água que ficavam no interior da embarcação foram realocadas para o teto. O piso de madeira original do convés superior foi substituído por outro, de 16 toneladas de concreto. As trocas deslocaram o centro de gravidade da embarcação, provocando seu adernamento. Mesmo com as irregularidades, 13 dias antes da tragédia, a Capitania dos Portos renovou a autorização do barco. Na época, a procuradora denunciou 11 pessoas, sendo nove empresários, por homicídio com dolo eventual, que prevê 12 anos de prisão.

— Eles sabiam que o barco estava cheio de defeitos, mas pagaram propina para que a fiscalização liberasse o passeio e não deixaram nenhum passageiro desembarcar. Assumiram o risco que levou à morte dezenas de pessoas.

Apesar das provas técnicas, os réus foram absolvidos em primeira instância na Justiça estadual. Na segunda instância, apenas dois deles, os sócios-gerentes Álvaro Pereira da Costa e Faustino Puertas Vidal, foram condenados a quatro anos em regime semiaberto, mas fugiram poucos meses depois, e suas penas acabaram prescritas.

Um dos primeiros sobreviventes a entrar com ação na Justiça Federal, em 1989, o empresário e tributarista Boris Lerner aguarda há 20 anos a execução provisória da sentença que lhe deu direito a uma indenização por danos morais e materiais. Ele perdeu a mulher Irene, o filho Eduardo, de 6 anos.

— Nós embarcamos em uma máquina de matar, afirma o empresário.

Em outra a ação penal, na Justiça Federal, dez empresários foram condenados a penas de até 18 anos de cadeia em 2002, mas recursos e prescrições livraram todos os réus. Para a autora da denúncia, a procuradora Silvana Batini, o Bateau Mouche tornou-se o mais emblemático símbolo de impunidade.

Irmão de Neuza Maria Guimarães de Oliveira que morreu no naufrágio, Jorge Guimarães herdou a luta da mãe, Carmelita, que morreu sem ver o caso solucionado:

— Nosso processo foi anulado por duas vezes. Estamos na estaca zero. Trinta anos depois, nosso caso está apenas começando. Com informações de O Globo.