O vice-presidente, Hamilton Mourão, é um dos alvos prediletos do núcleo ideológico do governo Foto: Jorge William / Agência O Globo

ÉPOCA

A investida contra a ala militar feita morosamente pelo núcleo duro do presidente Jair Bolsonaro já ecoa na Câmara dos Deputados. O núcleo, composto dos três filhos do presidente e assessores ligados a Olavo de Carvalho, tem, de forma sistemática, lançado dúvidas sobre o trabalho da ala militar e o excessivo protagonismo do vice-presidente, Hamilton Mourão. Na Câmara, um parlamentar do PSL definiu a estratégia da seguinte forma: “É como gosto de barata. Eles estão colocando gosto de barata na relação. Não mata, mas também não fica igual. Fica aquele amargor”.  

As demissões no MEC deram mais combustível ao desconforto. Marcus Vinícius Rodrigues, diretor do INEP exonerado pelo ministro Vélez-Rodriguez, foi indicado para o cargo pelo grupo de transição comandado pelo general Augusto Heleno — uma das raras indicações do general que haviam sobrevivido à ascensão de Vélez na pasta. Quando Bolsonaro pediu que fosse formulada uma lista de possíveis nomes para substituir Vélez, cinco foram apresentados pela ala militar. Um deles era o de Marcus Vinícius. Sua demissão levanta duas hipóteses: o prestígio da filhocracia ou a situação de cativeiro na qual o presidente se encontra, sem saber como lidar com a fúria da militância virtual de Olavo de Carvalho.  

Seja qual for a hipótese predominante, trata-se de um desgaste de péssimo timing não só para o caminhar do governo, mas também para as próprias expectativas pessoais de Jair Bolsonaro. O presidente conseguiu trazer para sua gestão parte da turma de cadetes com os quais se graduou em 1977, na Academia dos Agulhas Negras (Aman), e que chegaram ao topo da carreira. Há um sentimento de irmandade existente desde então e que se fortaleceu no período da campanha. No grupo de WhatsApp “Aman 77”, combinavam hipotéticos encontros no Palácio do Alvorada, que ainda não chegaram a acontecer. 

Ao entrarem em rota de colisão com militares, os filhos do presidente e sua turma de olavetes minam não só as estruturas do Palácio do Planalto, mas também algumas das poucas paredes emocionais do pai, que, a cada crise que passa, demonstra crescente isolamento.