Otávio Rêgo Barros, porta-voz da Presidência da República Foto: Carlona Antunes/PR / -

“Para que o porta-voz tenha credibilidade, as pessoas precisam estar certas de que ele diz o que o presidente pensa, senão não é porta-voz. Nunca desci para dar um briefing sem antes conversar com o presidente” (Sérgio Amaral, porta-voz do presidente Fernando Henrique Cardoso)

A declaração acima consta do livro  No Planalto com a imprensa — entrevistas de secretários de imprensa e porta-vozes de JK a Lula , de 2010, em que estão compiladas entrevistas com 24 porta-vozes e secretários de imprensa da presidência da República desde Juscelino, passando pela ditadura. A organização é capitaneada por André Singer, que foi porta-voz do ex-presidente Lula. Em encontro com o general Otávio Rêgo Barros, em Washington, o embaixador Sergio Amaral comentou com o porta-voz de Jair Bolsonaro sobre a existência da obra — e o militar tem dedicado algumas horas de seu pouco tempo livre a lê-la. São dois volumes, num total de quase 1.000 páginas.

Rêgo Barros goza de imensa credibilidade nas Forças Armadas. Como chefe da comunicação do Exército, entre outro feitos, ajudou a sedimentar a imagem de seu então superior, o comandante-geral Eduardo Villas Boas, como uma das maiores lideranças que já passaram pela corporação.

Esse patrimônio, contudo, passeia sobre terreno arenoso na gestão Bolsonaro. Em briefing convocado na última terça-feira (09), um dia após o fuzilamento de um músico por dez militares, no Rio de Janeiro, o porta-voz afirmou que o presidente não havia feito qualquer menção ao ocorrido e que ele “confia na Justiça Militar, nos esclarecimentos que o Exército dará por meio do inquérito e espera que eventos de igual similitude não venham a ocorrer”.

Nas entrelinhas, a mensagem era clara: o presidente não estava disposto a se envolver em qualquer episódio que pudesse causar indisposição com o Exército. Mesmo que seu silêncio suscitasse críticas da opinião pública e de seu próprio eleitorado. Por isso, iria se abster de comentar.

Quando Jair Bolsonaro finalmente se posicionou sobre o assunto, os decibéis vieram muito acima do tom verbalizado pelo porta-voz. O presidente, com um poder de julgamento que, até onde se sabe, não lhe havia sido conferido, eximiu o Exército de qualquer culpa. “O Exército não matou ninguém, não. O Exército é do povo e não pode acusar o povo de ser assassino, não. Houve um incidente, uma morte”.

Sete dias depois do ocorrido, nenhuma palavra de apoio aos familiares da vítima e o único afago presidencial foi em direção ao próprio Exército.

O atual porta-voz, conhecido pela temperança e pelo rico vocabulário de ávido leitor, cumpre seu papel ao moderar a imprudência presidencial. Mas a moderação não deve extrapolar a verdade que jaz no terceiro andar do Palácio do Planalto — por mais amarga que ela possa ser.