o ministro Carlos Alberto dos Santos Cruz, chefe da Secretaria de Governo, pasta a qual está subordinada a Secretaria de Comunicação (Secom) 08/05/2019 Foto: ADRIANO MACHADO / REUTERS

A disputa entre as alas ideológica e militar do governo Jair Bolsonaro tem como pano de fundo o controle do discurso e da estratégia de comunicação do Palácio do Planalto . Auxiliares do presidente ligados ao ideólogo Olavo de Carvalho afirmam que militares são um entrave para posições mais “conservadoras e de direita” do Executivo e promovem uma ofensiva para desgastar o grupo de generais. Os militares, por sua vez, prometem resistir e não ceder a qualquer radicalismo.

O último alvo dos olavistas foi o ministro Carlos Alberto dos Santos Cruz, chefe da Secretaria de Governo, pasta a qual está subordinada a Secretaria de Comunicação (Secom), chefiada por Fábio Wajngarten. O próximo adversário já foi escolhido: o porta-voz da Presidência, Otávio do Rêgo Barros.

Nos bastidores, integrantes do grupo comemoraram o fato de Rêgo Barros, que também é general do Exército, ter ficado de fora da viagem de Bolsonaro aos EUA. No lugar, embarcou Wajngarten, que disputa o controle do relacionamento com a imprensa com o porta-voz e é desafeto de Santos Cruz.

Os militares, em outra frente, defendem a moderação ao afirmar que têm no “centro” a sua virtude e não cederão à pressão para tomar posturas consideradas por eles radicais. Segundo fontes ligadas às Forças Armadas, uma mudança de conduta só será avaliada diante de uma determinação expressa do presidente, que até o momento não tomou partido publicamente na briga.

Conversa no WhatsApp

Internamente, no entanto, Bolsonaro estaria emitindo sinais de “irritação” com a reação em grupo dos militares às críticas de Olavo de Carvalho, que comandou os disparos contra Santos Cruz e o vice-presidente Hamilton Mourão. De acordo com auxiliares do presidente, Bolsonaro teria aumentado seu descontentamento ao ver a imagem de uma conversa por WhatsApp, supostamente escrita por Santos Cruz, na qual o ministro o chamaria de “imbecil” e sinalizaria aprovar a “solução Mourão”.

O ministro negou ser autor das mensagens. Ainda assim, segundo um interlocutor de Bolsonaro, o presidente estaria incomodado com o auxiliar. Dois motivos, no entanto, protegem Santos Cruz. O primeiro deles é que o ministro do Gabinete de Segurança Institucional, Augusto Heleno, entrou em cena e está tentando achar uma saída para o impasse. Heleno é, hoje, o único militar do alto escalão que Bolsonaro escuta e em quem confia plenamente.

O outro motivo é de natureza política. Bolsonaro não quer melindrar ainda mais parte do PSL simpática a Santos Cruz, num momento de fragilidade do governo no Congresso. Bolsonaro sabe que uma eventual demissão de Santos Cruz é explosiva e poderia tornar ainda mais explícitos os entraves nas relações cada vez mais tensas que mantém com boa parte do núcleo militar do governo.

Ontem, Santos Cruz se fortaleceu. Um decreto de Bolsonaro conferiu à Secretaria de Governo, chefiada pelo militar, a atribuição de avaliar indicações para postos de segundo e terceiro escalão, reitores de instituições federais de ensino e para funções no exterior. O decreto entra em vigor em 25 de junho.

Um dia antes, na terça-feira, Bolsonaro se reuniu na com Santos Cruz e Heleno. Na conversa, segundo um auxiliar do presidente, ele pediu para os ministros “aprenderem a engolir sapo, serem mais políticos e menos militares e entenderem que o governo é de direita e que ele pretende levar adiante todas as pautas que o elegeram”. Heleno conseguiu depois que Santos Cruz integrasse a comitiva presidencial na viagem a Dallas.