Cortando na própria carne

Por Danizete Siqueira de Lima

Nos dias atuais, por força de uma crise sem precedente, o tema mais recorrente que vemos refere-se aos salários dos nossos políticos. Muito se discute sobre qual seria o salário ideal para um vereador, um deputado estadual ou federal, um senador e assim por diante. A grande verdade é que ficamos de mãos atadas diante de tantos absurdos já que a famosa “legislação em causa própria” é quem dá as ordens. Destarte, o que mais poderíamos esperar de uma classe que dita os seus próprios rendimentos?

O que nos fez despertar para o tema da semana foram uns leves reajustes que a Câmara de vereadores do Recife aprovou, para vigorarem a partir de janeiro de 2021. Apesar desses reajustes ainda dependerem de sanção do atual prefeito, Geraldo Júlio, não acreditamos nem de longe na possibilidade de um veto, mesmo porque a alegação usada é de que esses salários estão sem reajuste há pelo menos 8 anos.

E foi com base nesse forte argumento que a Câmara reajustou os salários do prefeito (70,8%), vice-prefeito (58,3%) e secretários (39,5%).

Alguém poderá questionar: só isso? A resposta é: somente isso, pois o município passa por sérias dificuldades e não tem como oferecer mais, nem insistam. Então, vamos à segunda questão: esses reajustes são para os que não trabalham e para os que trabalham na segurança, saúde, educação, etc. que reajuste foi dado nesse mesmo período?

Curiosamente, vendo outras matérias referentes às casas legislativas, uma nos chamou à atenção e nos deu munição para a crítica que ora fazemos.

Dizia a mesma: Vereadores da cidade mineira de Arcos tomaram uma iniciativa inusitada no Brasil. Decidiram cortar na própria carne para aliviar os cofres do município, que possui 40 mil habitantes e está situado no oeste do estado, e aprovaram um projeto de lei que reduz em 80% os seus salários entre 2021 e 2024. Caso a medida não seja vetada pelo atual prefeito Denilson Teixeira (MDB), os vencimentos de cada parlamentar cairão dos atuais R$ 6.149 para R$ 1.229.

O prefeito e os secretários municipais também terão corte de 50% e 20%, respectivamente, conforme outra proposta recém-aprovada. No caso do prefeito, o salário baixará dos atuais R$ 24 mil para R$ 12 mil e os secretários passarão a receber R$ 6.300, ante os R$ 7.900 que ganham hoje. Já o vice-prefeito terá sua remuneração reduzida dos atuais R$ 6.400 para R$ 5.100. Com os cortes aprovados sem restrições, a Câmara de Vereadores de Arcos, estima uma economia aos cofres públicos de R$ 4 milhões por cada legislatura.

Esse exemplo bem que poderia ser copiado por outros edis com mandatos nos demais municípios existentes nesse brasilzão enorme. Para sermos mais claros temos, além do Distrito Federal, mais 26 estados de pequeno, médio e grande porte, que abrigam 5.570 municípios.

Pernambuco, por exemplo, é um dos 9 estados pobres que fica localizado na Região Nordeste do Brasil, possui 185 municípios. Imaginem estados como Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais, Mato Grosso, dentre outros?

E o pior é que os abusos não se restringem somente a parte financeira. Recentemente, tivemos notícia de que a Câmara de Vereadores de Arcoverde teve uma de suas sessões suspensas, simplesmente porque a vereadora e presidente da Câmara, Célia Almeida, viajou para São Paulo a fim de fazer compras para a sua loja e entendeu que por está viajando a Câmara não poderia funcionar. E olhem que a Câmara faz uma sessão por semana. Seria o mesmo que um trabalhador brasileiro faltar ao serviço por 8 dias o que levaria o empregador e descontar ¼ do seu salário sem qualquer compaixão.

É ou não é uma gozação com os eleitores? E nós o que fazemos? Esperamos pelo término do mandato e, mais uma vez, por burrice ou ingenuidade, votamos nos mesmos personagens que irão continuar infernizando as nossas vidas.