Crise hídrica foi registrada em São Paulo após o fenômeno Foto: Marcos Alves / Agência O Globo

Um fenômeno climático que ocorreu bem longe do Brasil teve efeitos severos no país, como a seca que ocorreu no Sudeste no verão de 2013/2014 e gerou uma crise hídrica em São Paulo. A constatação faz parte de um estudo sobre como uma perturbação atmosférica no Oceano Índico causou, além das secas na América do Sul, ondas de calor marinhas no Atlântico Sul. O trabalho foi publicado na revista científica “Nature Geoscience” e liderado pela professora da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) Regina Rodrigues.

A pesquisa traçou o motivo da estabilidade da alta de temperatura no Sudeste e Sul do Brasil naquele verão. De acordo com o trabalho, o início se deu com uma perturbação atmosférica no Oceano Índico. O fenômeno gerou uma onda planetária que atravessou o Pacífico Sul e chegou ao Atlântico Sul.

— Identificamos que convecção (chuvas tropicais intensas) no Índico deflagra perturbações na atmosfera que se propagam e mudam a circulação atmosférica sobre o Sudeste do Brasil. A circulação se torna anti-horário e não permite a formação de nuvens. Com isso, não há chuva durante o verão. Quanto mais persistente for essa circulação, mais prolongada será o período seco. Como no verão, tem muita insolação, sem as nuvens, o calor aumenta, gerando ondas de calor na terra e no mar, explica Rodrigues.

Em 2013/2014, o bloqueio foi tão persistente que quase não choveu durante todo o verão no Sudeste e Sul do país. As chuvas dessa região vêm da zona de convergência do Atlântico Sul. No verão de 2013/14, houve uma massa de alta pressão que não deveria estar lá e não permitiu que a zona de convergência se formasse. Isso gerou longos períodos de seca, como um de 15 dias e outro de 30. As temperaturas também subiram, aumentaram 5° Celsius acima da média.

A pesquisa sugere que não é a primeira vez que o Oceano Índico levou a eventos extremos no Brasil e que fenômenos semelhantes podem ocorrer com maior frequência e intensidade.

Para Rodrigues, um dos grandes ganhos do estudo é a chance de entender e prever próximos fenômenos climáticos. E, assim, se preparar para enfrentá-los:

—Agora que identificamos um processo físico, o mecanismo, que ocorre lá no Índico e gera essas ondas de calor, podemos monitorá-lo. Nem sempre tem como evitar que ocorra, mas pode se preparar na parte terrestre, como sobre uma seca ou onda de calor, observa.

Sobre esse último fenômeno, que traz sérias complicações de saúde e até mortes — como ocorreu na Europa, neste ano —, a pesquisadora explica que elas ocorrem todo ano. A diferença é a sua intensidade e permanência, o que vem se agravando com o aquecimento global. Há estudos que preveem, inclusive, um aumento na extensão do fenômeno nos próximos verões.

Outro destaque importante do estudo, segundo Rodrigues, é o efeito de aquecimento no oceano, que forma ondas de calor marinhas, gerando uma série de impactos nesses ecossistemas. Naquele verão de 2013/ 2014, por exemplo, o aumento de temperatura no oceano foi de 3°C. Segundo estudos em outros locais do mundo, já se percebeu que possíveis impactos disso são embraquecimento de coral e efeitos nocivos na pesca. E estudos globais de ondas de calor marinhas mostram que a tendência é de que esses eventos sejam mais frequentes no futuro.