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Experimente fazer uma cotação de preços a partir do Recife em uma das três companhias aéreas que operam na cidade para qualquer destino direto nacional no prazo de até dois meses. Em média, os bilhetes encontrados saem em torno de R$ 1.000, com alguns trechos, como Recife/São Paulo, batendo em inacreditáveis R$ 1.600. Até dentro de Pernambuco está difícil voar. Passagens da capital para Petrolina, no Sertão, custam até R$ 1.200. Que o diga o publicitário e empresário Orlando Mindêlo, 65 anos. Dono de um restaurante em Petrolina, ele costuma cruzar o Estado ao menos duas vezes por mês. “Até o início do ano, o bilhete de ida e volta saía, no máximo, por R$ 500. Hoje em dia, além de caro, ainda é difícil achar assento”, conta Mindêlo, que decidiu trocar os céus pelas rodovias. Pelo menos por enquanto. “A passagem de ônibus custa R$ 397 e o conforto da poltrona é até melhor que a do avião. A dificuldade ainda é o tempo: uma hora de voo, contra oito sobre rodas”, atesta.

A disparada do valor dos bilhetes aéreos desde o início da crise da Avianca (30,89% entre março e abril de 2019) tem levado muitos outros viajantes de volta à estrada nestas férias. Caso do empresário Gustavo Lins, 34, que mudou o destino do passeio e o tipo de transporte para se acomodar à nova realidade de preços. “Pretendia ir ao Rio na última semana deste mês. Queria conhecer Petrópolis, mas o valor está absurdo, R$ 1.350, quase o de uma passagem internacional. Daí, resolvi ficar no Nordeste mesmo e ir para Fortaleza de ônibus. Vou à noite e já acordo lá”, conta. 

Os efeitos dessa demanda já são comemorados pelas empresas do setor. De janeiro a junho de 2019, o modal rodoviário registra alta média de 12% no volume de clientes embarcados, segundo a Associação Brasileira das Empresas de Transporte Terrestre de Passageiros (Abrati). Para julho, é esperado um acréscimo de 5%. A conselheira da entidade, Letícia Pineschi, atribui o aumento na demanda por viagens rodoviárias em todo o País não só à suspensão das operações da Avianca, em 21 de junho, como também às cobranças adicionais para o despacho de bagagens e a marcação de assentos na aviação. Em Pernambuco, diz, houve incremento nas rotas que saem do Recife principalmente para Salvador, Fortaleza, Belém e São Luís. 

A aposta da Abrati agora, segundo a conselheira, é na fidelização dessa nova clientela. “Passageiros que não estavam habituados com o ônibus estão se surpreendendo com a qualidade dos serviços e a facilidade de compra, inclusive com desconto, em várias plataformas e via aplicativos”, detalha.

E é bom mesmo se acostumar. Isso porque as projeções mais otimistas apontam, pelo menos, mais quatro meses para o cenário da aviação civil do País se normalizar. “Há um aumento constatado de preços nos trechos onde a Avianca deixou de operar. É uma questão de mercado. Quando uma companhia que representava (em maio) 12,77% da oferta deixa de existir, não é rápida a reposição dessas vagas”, afirma Airton Pereira, diretor de Relações Institucionais da Abear, associação que representa as aéreas no País, exceto a Azul. A retomada das mesmas condições de oferta anteriores à crise da Avianca, diz, não significa voltar ao mesmo patamar de tarifas. “De 2012 a 2017, tivemos um aumento brutal de custos, com alta de 37% do combustível de aviação e mais de 70% do dólar”, aponta, antecipando um possível repasse ao consumidor quando os indicadores macroeconômicos forem mais favoráveis.

Enquanto a situação não se regulariza, até destinos turísticos consolidados, como Porto de Galinhas, sofrem os efeitos da carestia dos bilhetes aéreos. O presidente do Convention Bureau do balneário, Eduardo Tiburtius, conta que houve queda de 5% na ocupação motivada pelo cancelamento de hóspedes pegos de surpresa pela disparada de preços. “Esse recuo só não foi o dobro porque passamos a receber mais clientes do Nordeste, que também não puderam viajar para outras regiões”, observa, confirmando a contribuição do transporte rodoviário para o turismo, em tempos de crise.

Aventura no rio

Uma forma divertida de viajar na imaginação sem sair do Recife neste mês de julho é embarcar nas aventuras náuticas oferecidas pela Catamarã Tours. Nos sábados, às 20h, parte às escuras pelas águas do Rio Capibaribe o Catamarã Assombrado. O roteiro do tour é inspirado no livro Assombrações do Recife Velho, de Gilberto Freyre, e conta com atores da Cia. Pernambucana de Arteatro, que se revezam para personificar alguns dos protagonistas das mais famosas lendas urbanas de Pernambuco, como a do Papa-figo e do Encanta-moça. Aos domingos, a partir das 16h, é a vez dos Piratas do Capibaribe, comandados pelo Capitão Jack Espirro, entrarem em ação, com direito a batalha, sequestro, mapas e perseguições. Custa R$ 65 (adultos) e R$ 30 (crianças). Mais: 3424-2845.

Verão no inverno

Mar, sol, calor, passeio de barco e muitos frutos do mar no cardápio. O inverno para quem escolheu Porto de Galinhas nestas férias é assim: com cara de verão. Além de lagartear na areia e praticar um bom e justo dolce far niente, vale também aproveitar o tempo livre para um contato mais próximo com a natureza e ainda para aprender um bocado sobre a origem da praia queridinha do Brasil. É o que oferece a Trilha dos Escravos, uma experiência no mangue e na mata atlântica, em meio ao Rio Maracaípe. Com 6,5 km de trajeto, o caminho foi aberto em 1610, quando missionários franciscanos chegaram à região para catequizar os donos daquelas terras. Também era uma das rotas por onde se traficavam escravos no século 17. O valor do passeio, realizado pela Gaitero Eco Tour, é de R$ 50. Mais: lika.souza@gaiteroecotour.com.

Às margens do São Francisco, a beleza de Piranhas 

Se é para pegar a estrada nestas férias, que seja por uma razão do tamanho, da força e da beleza do Rio São Francisco. No Sertão alagoano, Piranhas vale cada um dos 425 quilômetros rodados do Recife até lá. Pelo caminho mais rápido – BR-232 e BR-423, via Garanhuns –, o trajeto dura cerca de seis horas, com direito a parada para café da manhã à beira da rodovia e para clicar as turbinas eólicas que dão um tom futurista à paisagem agreste, na altura de Caetés (PE). 

Já no pórtico da entrada de Piranhas a sensação é de viagem ao passado. A cidadezinha, de 25 mil habitantes, parece congelada no tempo, tão bem preservado está o seu casario histórico. No período colonial, fez parte da Rota do Imperador, célebre viagem de Dom Pedro II por essa parte do Brasil profundo. 

Décadas depois, Piranhas tornou-se palco de embates com o bando de Lampião, que acabou emboscado na Grota de Angicos, em Canindé, na margem sergipana do São Francisco. Toda essa história é contada em passeios no meio da caatinga, que invariavelmente terminam em banho de rio mais cerveja mais peixe frito mais cochilo na rede dentro d’água. Os bares ribeirinhos têm boa estrutura, inclusive com prainha cercada, livre da força da correnteza. 

Pode ficar melhor? Pode. Rio adentro, em voadeiras ou catamarãs, é possível seguir rumo aos cânions de Xingó, para deslumbrar-se com os paredões alaranjados de mais de 30 metros de altura, volta e meia pontuados de macacos-prego ou jaguatiricas. Fique para o pôr do sol em cima das rochas para nunca mais esquecer a luz do Sertão.