Os salários dos derrotados vão de R$ 1.200,00 a R$ 16.500,00. São candidatos que tentaram se eleger por vários partidos e apoiaram os prefeitos do ABC. Como prêmio de consolação acabaram acomodados em várias funções que deveriam ser ocupadas por técnicos. Informalmente são chamados de ‘vasos’, porque são ignorados pelos outros funcionários.

  • Entre os candidatos a vereador derrotados em 2016, Alex Camburão, Rubinho, Cleitão, Vivi Fisioterapeuta, Wilson do Bar e Dudu do Ferra viraram assistentes técnicos.
  • Professor Cecílio e Negão da Barraca viraram assistentes administrativos.
  • Baiano virou coordenador de apoio ao paciente.
  • Vando da Ambulância e Silvana Cabelereira, auxiliares de serviços gerais.
  • Marcio Curumin virou encarregado de manutenção.
  • Margarete da Saúde e ‘Cruz + Você’ viraram auxiliares de escritório.
  • Edna do Sítio, arquivista.

Os 46 candidatos a vereador derrotados ganharam também um apelido interno na Fundação: ‘vasos’.

Duas pessoas que participaram da operação desse sistema ilegal revelaram à CBN que a alcunha se deve ao fato de essas pessoas serem quase como um enfeite na Organização Social. A ordem era ignorá-los, como vasos mesmo.

Para organizar quem ganha quanto, o resultado eleitoral é referência. Quanto mais votos, maior o salário.

Por exemplo, em São Bernardo do Campo, dois derrotados ganham R$ 10.423,64. São eles, André Luís Kohatsu Vial que tentou se eleger pelo PHS e Renata Cristina Rocha, derrotada pelo PSDB. Ele teve 1323 votos. Ela, 1732.

No fim da lista estão Evonaldo Pinto do Carmo, do Cidadania e Edna Rita Cardoso Barbosa, do PHS. Ele teve apenas 88 votos. Ela, só 82. Ambos ganham menos de R$ 1.500,00.

Em Santo André, o salário mais polpudo foi para Anderson Tezoni Alves, do PV. Derrotado com 1043 votos ganha R$ 6.136,29. A tucana Silvania Tereza Siqueira fez apenas 161 votos e recebe R$ 1.735,81. Muitas vezes, em vez de ir pra Fundação, o candidato derrotado indica um parente.

Janaína Cavalcanti foi oficial administrativo na UBS do bairro Jardim Orquídeas, em São Bernardo. Ela conta que foi demitida pra colocarem no lugar, ganhando o dobro, uma pessoa sem preparo para o cargo.

Ela se refere à Suzana Kelly Cipriano de Almeida, mulher do tucano Eder Gomes, que tentou ser vereador mas não conseguiu. Empregada pela Fundação, Suzana passou a ganhar R$ 4.432,72.

“E aí ela mesma foi falando que o marido dela saiu candidato a vereador, e ele conseguiu 1200 votos e passou pra legenda e em troca o prefeito prometeu um cargo pra eles. E ela é formada em letras, ela queria na área da educação, e o que os assessores do prefeito passaram pra ela é que na área da educação estava difícil liberar essa vaga, que na saúde seria mais fácil”, conta.

A situação não se limita ao ABC. Uma funcionária da Fundação ABC que trabalha em uma unidade de saúde controlada pela OS, em São Mateus, Zona Leste de São Paulo, conta que aqui, o problema se repete.

“Todo mundo indicado. Uns são amigos de deputados, outros de prefeitos, outros do motorista, do secretário… Entendeu? É tudo assim, não tem uma pessoa lá que fez a prova, que fez a dinâmica, que passou. A gente fez sim a prova, mas entramos com ‘dedos políticos’. Tanto que a minha ex-chefe foi também indicação, entrou uma nova que é da prefeitura, mas os dois filhos dela entraram lá dentro, então é tudo politicagem”, revela a pessoa que não quis se identificar.

Em nota, a Fundação ABC disse que a lista de indicados políticos apresentada pela CBN representa apenas 0,65% dos 23 mil funcionários sendo que 90% deles são técnicos da área da saúde e eles desconhecem práticas de apadrinhamento político. Alegam ainda que abriram uma sindicância interna pra investigar as denúncias da reportagem. O PSDB disse que cada citado tem que responder por conta própria.

O PHS disse que eventuais atos ilícitos praticados por filiados serão avaliados pelos conselhos de ética e que a executiva estadual do partido apoia apurações que tragam transparência à gestão pública. O PV e o Cidadania não responderam à CBN. Os partidos não informaram o contato dos candidatos derrotados que foram acomodados ou seus representantes. Com informações da Rádio CBN/São Paulo.