Oficina onde a polícia encontrou carros falsificados das marcas Ferrari e Lamborghini em Itajaí, Santa Catarina. Foto: Victor Hugo / Agência O Globo

ÉPOCA

O jornalista Boris Casoy, de 78 anos, é apaixonado por carros de luxo. Na garagem de sua casa, em Alphaville, bairro de alto padrão em Santana de Parnaíba, na Grande São Paulo, estão cinco deles. O carro do dia a dia é um Land Rover do tipo Discovery, com o qual costuma se deslocar até o trabalho, nos estúdios da RedeTV!, em Osasco, município vizinho. Mas há também dois Mercedes-Benz, um Jaguar e um Mustang. Um sexto automóvel fica na casa de um amigo, um carro que costuma ser o sonho de consumo da maioria dos amantes de veículos esportivos. Aqui vão algumas pistas. Ele é vermelho, conta com design da tradicional empresa italiana Pininfarina e tem como símbolo o “Cavalinho Rampante”. Sim, sim, há cerca de quatro anos, Casoy realizou o sonho de ter uma versão de uma Ferrari. Só que, em vez de obter um exemplar fabricado na sede global da empresa, em Maranello, Itália, ele optou por uma versão falsificada montada em um lugar bem menos glamoroso, Itajaí, cidade portuária de 215 mil habitantes no litoral de Santa Catarina. Ali funciona a Autosfibra, empresa aberta em 1999 para “produzir réplicas de carros de alto desempenho a partir de moldes de argila”, de acordo com o site da companhia, hoje fora do ar. Casoy queria economizar e, de fato, a escolha pesou bem menos no bolso. O jornalista não lembra o modelo do carro. Ao que tudo indica, é uma cópia do F430, pela qual pagou R$ 150 mil. Um original usado (o modelo saiu de linha em 2009) não sai por menos de R$ 570 mil. Casoy é um cliente arrependido. Depois de rodar 500 metros, o motor pifou, os faróis já não ligavam mais e houve uma pane elétrica. “É um lixo, um ferro-velho. Eu me senti enganado!”, disse o jornalista, em entrevista pelo telefone, com a voz indignada similar à  do bordão “Isto é uma vergonha!”, que o fez famoso na TV.

O jornalista Boris Casoy (de camisa estampada) com o suspeito de falsificação Nilton Góes (de óculos), de quem comprou uma “Ferrari”. Segundo o apresentador da Rede TV!, o veículo é um “lixo”. Foto: Reprodução

Para a polícia de Santa Catarina e os advogados da Ferrari no Brasil, os veículos da Autosfibra são um problemão. Na manhã da segunda-feira 15 de julho, uma das sedes da Autosfibra foi alvo de uma operação de busca e apreensão de veículos que ferem a propriedade intelectual da marca italiana. Numa oficina mecânica típica de fundo de quintal, escondida por um muro alto ao fim de uma rua sem calçamento, a 10 quilômetros do centro de Itajaí, a polícia encontrou oito carros falsos: sete Lamborghinis e uma Ferrari similar à de Casoy. Foi a maior apreensão de veículos de luxo falsificados no país. Em questão de horas, a operação já havia virado notícia pelo mundo. A revista americana Time , o jornal inglês The Guardian e o canal de notícias CNN repercutiram a história das “fake Ferraris from Brazil”. Por trás dos carrões apreendidos está o projetista Nilton Góes, de 52 anos, fundador da Autosfibra. Ele é conhecido em Itajaí por supostamente ter amizade com empresários como Luciano Hang, dono da loja de departamentos Havan, do município vizinho de Brusque, e o carioca Eike Batista. Procurado por ÉPOCA, Hang, por meio da assessoria jurídica da Havan, disse que “é uma figura pública” e, como tal, “já fez retratos com dezenas de milhares de pessoas”. Ele negou qualquer ligação com Góes. A assessoria de Batista não respondeu até o fechamento desta edição.

­ Foto: Victor Hugo / Agência O Globo

Um sujeito capaz de dar longas explicações sem alterar o tom de voz — normalmente baixo —, Góes disse que o negócio da Autosfibra é transformar veículos que saíram de linha em “réplicas”. No rol dos modelos “imitados” estão clássicos como o Porsche 356, dos anos 50, ou o Corvette C1, de 1960, até tipos mais recentes. Góes se considera um autodidata. A técnica de moldagem das carrocerias, feitas à mão por ele e pelo filho Alan, de 29 anos, foi desenvolvida há pelo menos 30 anos, quando Góes trabalhava com maquetes de projetos de arquitetura num escritório em Taboão da Serra, na Grande São Paulo. “Comecei fazendo réplicas de carros antigos em casa e mostrando os trabalhos na internet”, disse ele. “Os projetos foram ganhando fama, e a clientela apareceu.” Hoje em dia, a divulgação é feita por vídeos no YouTube, onde 8.770 pessoas seguem o perfil da Autosfibra, ou no Instagram, em que 9.500 usuários acompanham a empresa. Apesar da legião de seguidores, Góes disse levar uma vida simples. A Autosfibra fatura, segundo ele, cerca de R$ 80 mil anuais, a maior parte dos recursos vinda de consertos de carros originais e barcos. “Mal dá para pagar as contas”, afirmou Góes, dono de um New Beetle, da Volkswagen — que, pela avaliação da reportagem, não parecia ser uma “réplica” feita por ele.

Góes se defende dizendo que os clientes é que compravam as peças e ele só as montava, versão que a polícia contesta. Foto: Victor Hugo / Agência O Globo

A alegada penúria contrasta com a badalação ao redor de Góes, que volta e meia aparece exibindo seus projetos em colunas sociais de Itajaí e da cidade vizinha, Balneário Camboriú, que parece tentar, sem sucesso, ser uma versão catarinense de Dubai. A orla é salpicada de arranha-céus batizados com anglicismos como “Vision Tower”, “Ocean Palace” e “Marina Beach”. No verão, algumas Ferraris e Lamborghinis circulam a beira-mar. (Muitos moradores agora brincam que todos são falsos.) Góes não esconde seu método de trabalho. A primeira etapa é desmontar carros desvalorizados no mercado. Entre os prediletos está o Alfa Romeo 164, aposentado em 1997 e à venda em classificados on-line a partir de R$ 12.500. Então, uma carroceria de fibra de carbono é acoplada ao chassi. Motores, sistemas elétricos e acabamentos vêm na sequência. Os interessados compram as peças em sites de compra e venda de produtos, como Mercado Livre e eBay, e a Autosfibra, jurou Góes, encarrega-se apenas de juntar tudo. Por isso, ele se disse surpreso com a operação policial em sua oficina.

O delegado Angelo Fragelli, da 1ª Delegacia de Polícia Civil de Itajaí, responsável pela apreensão dos carros falsificados, discorda da versão apresentada. Em sua sala, um espaço acanhado no segundo andar da delegacia, no centro da cidade, Fragelli disse que a suspeita é que Góes comprasse as peças, entregando a réplica pronta ao cliente, com os emblemas das marcas italianas e tudo, sem dar baixa nos registros dos veículos originais, o que é proibido por lei. “Para além do crime contra a propriedade intelectual, há indícios fortes de falsidade na documentação”, disse Fragelli.

A investigação não chegou ainda ao número exato de carros falsificados por Góes. Ele responde em liberdade pelo crime de uso indevido de propriedade intelectual, pelo qual pode ter de cumprir até quatro anos de prisão — tipo de pena que não raro é convertido em multas. No vácuo deixado pela legislação, muitas marcas de luxo têm chamado para si a responsabilidade de combater a pirataria. No caso da Autosfibra, a polícia chegou a Góes por uma denúncia do advogado paulista Maurício Ariboni, contratado pela Lamborghini há três anos para ir atrás de carrões de luxo fake.