Uma realidade infeliz do setor de notícias hoje é que parece criar ex-jornalistas mais rápido do que cria jornalistas. Os relatórios sempre tiveram uma taxa de rotatividade saudável; os idealistas que vivem no centro da cidade se transformam em suburbanos proprietários de hipotecas e crianças, o que torna o salário de uma agência de comunicação ou de relações públicas mais atraente.

Mas o espaço para uma saída, intencional ou não, aumenta à medida que as lutas da indústria se arrastam. Há menos dinheiro para os editores dos jornais contrariarem uma oferta salarial concorrente. O trabalho na redação pode parecer menos gratificante. E as habilidades dos jornalistas ainda estão em demanda.

Esse é o pano de fundo que trouxe à leitura deste artigo de Murillo Camarotto, repórter do Valor Econômico do Brasil e ex-bolsista do Instituto Reuters de Oxford para o Estudo do Jornalismo.

Ele trata especificamente sobre um lugar do Brasil –Pernambuco, um Estado relativamente pobre no Nordeste– e sobre o que aconteceu quando as organizações de notícias da região enfrentaram o mesmo declínio estrutural que seus pares em outros países. O que aconteceu foi um número notável de repórteres deixando notícias para trabalhar para os governos que costumavam cobrir.

Primeiro, um rápido aparte: vale a pena observar algumas diferenças importantes entre esses jornais e o que você pode esperar, dada a indústria americana. Primeiro, os 3 jornais que Camarotto observa são bastante pequenos, mesmo em comparação com o triste estado atual da circulação americana.

O Jornal do Commercio tem uma circulação diária de 15.000. O Diário de Pernambuco caiu para 10.000 quando parou de relatar números de circulação há dois anos. A Folha de Pernambuco parou de reportá-los em 2007. Tudo isso em um Estado de cerca de 9,2 milhões –maior que Nova Jersey ou Virgínia.

Segundo, as normas de propriedade são diferentes: “No Nordeste brasileiro, a maioria das publicações é tradicionalmente propriedade de políticos ou empresários locais e não dos grandes grupos da mídia nacional”.

Terceiro, os modelos de negócios dependem muito mais dos gastos do governo. Enquanto os jornais dos EUA estão felizes em publicar anúncios legais e outros anúncios enviados pelo governo, no Brasil, “é comum ver o governo federal, bem como as administrações estaduais e das grandes cidades, assinando grandes contratos anuais com meios de comunicação com tiragem de milhares de cópias por dia. Essas assinaturas são valiosas e os jornalistas estão profundamente conscientes de sua importância”.

E há publicidade comprada pelo Estado, há muito tempo uma alavanca de influência estatal nos jornais latino-americanos. (Recapitulação deste post de 10 anos do Nieman Lab sobre o assunto.) No Diário de Pernambuco, os pagamentos dos governos representaram 54,8% da receita total em 2017. Informações retiradas do Portal Poder360.

De volta ao estudo. Camarotto identificou 202 jornalistas que haviam deixado 2 dos 3 jornais (o Jornal do Commercio se recusou a cooperar) por 1 período de 10 anos e analisou os empregos para os quais haviam ido. A maior parcela -75 pessoas, ou 38% da amostra- saiu para trabalhar na política ou no governo.

Isso é mais do que o restante para outras mídias (27%), relações públicas do setor privado (14%), freelancers (9%) ou acadêmicos (5%). Camarotto diz que a participação no governo provavelmente seria maior se incluísse o 3º jornal, que “ainda é a opção mais desejável em termos de trabalho jornalístico em Pernambuco”.

Novamente, os repórteres que saem de suas redações não são novos, e os repórteres que se tornam porta-vozes do prefeito ou distrito escolar local não são inéditos.