Sessão do Congresso Nacional Foto: Luis Macedo / Agência O Globo

O Globo

Líderes de partidos no Congresso veem com cautela a predominância de militares no primeiro escalão do governo, especialmente em postos-chave no Palácio do Planalto. A nomeação do general de Exército Braga Netto nesta semana, que assume a Casa Civil, foi último aceno do presidente Jair Bolsonaro à categoria. Agora, todos os ministros que despacham no local são militares.

Líder do DEM, Efraim Filho (PB) avalia que a saída de Onyx Lorenzoni da pasta enfraquece a relação do Executivo com o Congresso. Para ele, há possibilidade de deterioração no diálogo entre parlamentares e o governo, apesar de a falta de interlocução ser criticada desde que Bolsonaro assumiu a Presidência. 

— Com essa decisão, o governo assume sua identidade próximo daquilo que sempre defendeu. Gera um núcleo militar e tende a se afastar do núcleo político e do parlamento, diz o deputado.

Já o líder do PSD, Diego Andrade (MG), diz que só será possível ter uma avaliação “mais clara” da militarização no Planalto no decorrer do tempo. Ele elogia o diálogo com o ministro da Secretaria de Governo, Luiz Eduardo Ramos, general do Exército. Mas critica, entretanto, o atendimento recebido pelo almirante Bento Albuquerque, ministro de Minas e Energia.

Segundo o parlamentar, Albuquerque não deu explicações razoáveis para o baixo nível do Lago de Furnas, em Minas Gerais, estado castigado pelas chuvas este ano.

— Eu não vejo nenhum problema na escolha de civis ou militares, desde que que tratem com sabedoria e respeito as instituições. Como líder do meu partido, tenho bons e maus exemplos. Com o general Ramos, por exemplo, eu tenho um bom diálogo. Já no Ministério de Minas e Energia, eu levei problemas em relação ao operador elétrico. Em Minas está chovendo e o lago (de Furnas) não enche, não sabemos por quê. No meu entendimento, um problema de gestão. E eu não tive uma resposta concreta do ministro. Então, vai de cada um, diz o líder do PSD.

Para o líder do bloco formado pelo MDB, PP e Republicanos no Senado, Esperidião Amin (PP-SC), a interlocução do governo com o Congresso não sofrerá mudanças com a “militarização” do núcleo político do Planalto.

— Imediatamente, não há mudança nenhuma. O diálogo com o Congresso, até onde conheço, já vinha sendo feita pelo Ramos. A Casa Civil, no formato que tem hoje, é um órgão de assessoramento do presidente. Então, não haverá mudança, diz.

Amin diz que, por ter comandado a intervenção na segurança do Rio, classificada pelo senador como “a maior arapuca armada para o Exército”, Braga Netto tem “total capacidade de lidar com as raposas de diferentes matizes do Congresso”.

Líder do PSD no Senado, Otto Alencar (BA) diz que sua impressão é que Bolsonaro “passa a desconfiar da lealdade dos ministros” depois das nomeações. Para ele, o investimento do presidente nos militares é justamente por considerá-los mais fiéis. Para ele, em relação ao Congresso, não há consequências na opção por militares.

— Espero que os militares possam corresponder à tarefa. Se der resultado, não interessa se está com farda, comenta.