Cada um dá o que tem

Por Danizete Siqueira de Lima  

Por conta do Covid-19, que vem assolando o nosso planeta, evitaremos falar na pandemia propriamente dita mas, pela seriedade que o assunto requer, pegamos uma carona na matéria a seguir, mais que lúcida, escrita por Charles Alcântara, presidente da FENAFISCO e auditor fiscal de receitas do estado do Pará.

Esse texto surgiu em boa hora e retrata um desabafo contra os poderosos desse país que pouco ou nada se preocupam com as misérias alheias. É como se esses ricaços, que nadam em mordomias, não fizessem parte do planeta Terra. A eles o que mais importa é a indiferença. Se estão bem, o restante da raça humana pode explodir.

Eis a proposta do autor:

O Brasil possui 206 bilionários que, juntos, acumulam uma fortuna de mais de R$ 1,2 trilhões de reais e pagam proporcionalmente menos impostos que a classe média e os pobres. Se o País criasse um imposto de apenas 3% ao ano sobre essa fortuna, seria possível arrecadar R$ 36 bilhões de reais, a cada exercício findo. Note-se que esse valor é superior a um ano de todo o programa do Bolsa Família.

A soma de toda riqueza das famílias brasileiras é de cerca de R$ 16 trilhões de reais, estando a quase metade de toda essa riqueza, ou seja, R$ 8 trilhões de reais nas mãos de apenas 1% das famílias. Se o País taxasse o patrimônio trilionário dessas famílias em apenas 1% seria possível arrecadar R$ 80 bilhões de reais, o equivalente ao valor de toda a receita estimada em 2020 para o estado de Minas Gerais, o segundo mais populoso do Brasil, com mais de 20 milhões de habitantes.

Fazendo as contas chegaremos a seguinte conclusão: R$ 36 bilhões cobrados sobre a renda dos 206 bilionários + R$ 80 bilhões referentes ao 1% cobrados sobre o patrimônio das famílias mais ricas, teríamos um total de R$ 116 bilhões de reais. Esses 116 bilhões a mais nos cofres públicos, equivalente a todo o orçamento federal destinado a saúde pública do país, sequer representariam sacrifício para esse punhado de bilionários.

Se chamados a contribuir um pouquinho mais com o País, com certeza, nenhum desses bilionários deixaria de frequentar os melhores restaurantes do mundo, satisfazer todos os seus desejos mais extravagantes ou deslocar-se nos seus jatinhos executivos de última geração.

Os donos do jornal O Globo fazem parte dos 206 bilionários e também se enquadram nas famílias brasileiras que detém um patrimônio de R$ 8 trilhões de reais. Em editorial publicado no jornal de sua propriedade, na última sexta-feira (20/03), a bilionária família Marinho defendeu a redução dos salários dos servidores públicos como forma de colaborar coma crise gerada pela pandemia do Covid-19.

A família Marinho não se dispõe a abrir mão de uma parcela insignificante da sua fortuna para ajudar o país, mas se acha no direito de propor que os servidores públicos sejam confiscados em seus salários. A contribuição em termos monetários que O Globo se dispôs a oferecer ao país num momento tão dramático foi um editorial indigno, desonesto e covarde.

Mas é como diz o velho ditado, sempre atualizado: “Cada um dá o que tem”. Não é mesmo?