Cultura

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Os novos patrimônios vivos de Pernambuco, eleitos em julho deste ano, foram diplomados em uma cerimônia no Teatro Santa Isabel, na região central do Recife, nesta quinta-feira (17), também Dia Nacional do Patrimônio Histórico. Com os seis novos eleitos, o estado passa a somar 51 titulados.  

A Praça da República, diante do teatro, virou palco para a apresentação dos bacamarteiros do Cabo de Santo Agostinho, que acordaram o bairro, com música, cultura e tiros. A sociedade é uma das seis homenageadas com o título.

“É uma alegria muito grande receber essa homenagem. Isso faz com que se evidencie essa prática pernambucana, que é da nossa cultura como o frevo e o maracatu”, aponta o capitão do grupo, Ivan Marinho.  

Os diplomas foram entregues pelo governador Paulo Câmara. Os demais eleitos foram a parteira tradicional Maria dos Prazeres; o Mestre Chocho, representante do choro em Pernambuco; o fundador do Balé Popular do Recife, André Madureira; o ator José Pimentel e a manifestação cultural Reisado Inhanhum.

Primeira presidente da Associação das Parteiras Tradicionais e Hospitalares de Jaboatão dos Guararapes, fundada em 1994, Maria dos Prazeres de Souza é responsável pela realização de mais de cinco mil partos. "Eu tenho 60 anos de trabalho com as comunidades, trabalhando em vários hospitais. A maior recompensa que eu tive foi atender todo esse pessoal e dizer para a comunidade que tive óbito zero", afirma.

Com 90 anos de idade e 70 de carreira, Otaviano do Monte, conhecido como Mestre Chocho, se emocionou com a homenagem. "O recado que eu deixo para os seguidores da minha arte é que a música faz bem. Quem tiver admiração pela música, deve se apegar a ela com a alma", define o músico.

Fundador, diretor e coreógrafo do Balé Popular do Recife, grupo que originou o segmento de dança popular cênica no estado, André Madureira acredita que ser homenageado na própria terra é especial. "Eu me sinto muito feliz com o reconhecimento da minha própria terra, em que tanto trabalho", aponta. 

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A Prefeitura Municipal de Serrita, a Associação Luiz Gonzaga dos Forrozeiros do Brasil, a Empresa Pernambucana de Turismo (Empetur), a Polícia Militar e o Corpo de Bombeiros Militar firmaram Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) perante o Ministério Público de Pernambuco (MPPE) para planejar e ordenar Missa do Vaqueiro 2017.

A Missa do Vaqueiro, que ocorre anualmente na cidade de Serrita, está na sua 47ª edição, com um calendário de atividades desde a última quinta-feira até o próximo domingo, dia 23. A festividade traz benefícios econômicos ao município, haja vista que nesse período um grande número de pessoas visita a cidade em busca de atrações turísticas e culturais. Com isso, surge uma preocupação com o reforço na segurança pública, além da proteção de crianças e adolescentes e a coibição de excessos relacionados ao consumo de bebidas alcoólicas e atos de violência envolvendo os menores de 18 anos.

Segundo a promotora de Justiça Danielle Belgo de Freitas, observando os fatos apurados em edições anteriores do evento, o MPPE elaborou TAC com o objetivo de obter o compromisso das autoridades públicas com o cumprimento da legislação, em especial a Lei de Grandes Eventos (Lei Estadual nº14.133/2010).

Dessa maneira, a Prefeitura de Serrita e a Associação Luiz Gonzaga se comprometeram a assegurar a atuação de fiscais municipais nos dias de shows; orientar os vendedores ambulantes a realizar o comércio de alimentos apenas nos locais já designados para essa finalidade; equipar os banheiros públicos do Parque Estadual João Câncio e realizar a sua limpeza e desinfecção; fiscalizar os vendedores de bebidas para garantir que não haja comercialização em vasilhames de vidro; providenciar a limpeza e desinfecção dos cestos de lixo; garantir a presença de ambulância e profissionais de saúde qualificados para prestar atendimento de primeiros socorros e deslocamento de pessoas para o hospital municipal; garantir iluminação eficiente dos locais de evento; e disponibilizar toda a estrutura operacional necessária para que o Conselho Tutelar atenda crianças e adolescentes que se encontrem em situação de risco.

Já a Polícia Militar assumiu o compromisso de providenciar toda a estrutura necessária para manter a segurança do evento, além de fiscalizar, através do Batalhão de Polícia Rodoviária, as vias que dão acesso às localidades da festa, com ações como orientação do tráfego, controle de velocidade e realização de blitzes da Operação Lei Seca. Ao Corpo de Bombeiros, cabe fiscalizar preventivamente qualquer estrutura que for montada para a realização de shows, exigindo o cumprimento das normas técnicas para a emissão dos atestados de regularidade.

Por fim, o TAC proíbe a utilização da Missa do Vaqueiro com fins eleitoreiros, devendo todos os órgãos públicos envolvidos denunciarem ao MPPE qualquer manifestação política mediante o uso de faixas, cartazes, camisas ou outro tipo de materiais promocionais que façam alusão a candidatos.

O não cumprimento das obrigações do termo acarretará em multa de R$ 50.000,00 (cinquenta mil reais), que serão revertidos ao Fundo criado pela Lei n° 7.347/85. O Termo de Ajustamento de Conduta foi publicado no Diário Oficial desta quinta-feira (20).

Por Magno Martins

O Sertão do Pajeú está fazendo a sua parte para manter viva a tradição cultural do seu povo. Um belo exemplo disso se deu com a realização do XXIII Festival da Sanfona, o Fersan, iniciativa do grupo Jovem de Afogados da Ingazeira, realizado no último fim de semana em praça pública naquela cidade, a 386 km do Recife. Durante três dias, subiram ao palco uma dezena de jovens tocadores do instrumento, o mais original e famoso da musicalidade sertaneja, que Luiz Gonzaga exibia com tanto orgulho em seus shows e tocava com tamanho brilho.

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Ao longo dos últimos 22 anos do festival, criado para dar oportunidade aos talentosos sanfoneiros que vivem no anonimato, muitos músicos já ganharam o mundo e a fama, o que serve de estímulo aos organizadores do evento – Augusto e Socorro Martins, Suely Brasil, Risolene Bezerra, Aline Michelle, Madalena Brito, Elias Mendes, Cláudio Stende e Lúcio Luiz. “Ficamos felizes em abrir as cortinas do palco para jovens que fazem um espetáculo de encher os olhos aprumando as sanfonas, mas que vivem num escuro de divulgação”, diz Augusto Martins, vereador e coordenador do grupo.

Segundo ele, o festival começou de forma tímida, mas com o passar dos anos se firmou e hoje já conta com o apoio das prefeituras da região e do Governo do Estado, além da iniciativa privada. “O prefeito de Serra Talhada, Luciano Duque (PT), por exemplo, patrocinou o show de Assisão, artista de renome na região e que fez uma apresentação que agradou em cheio o nosso público”, afirmou.

O prefeito de Afogados da Ingazeira, José Patriota (PSB), contribuiu com a infraestrutura e prêmios do certame. “Desde o seu primeiro ano de mandato, Patriota não tem nos faltado. Ele sabe da importância de se manter acesa uma tradição tão forte no Sertão”, disse Augusto. Além de Assisão, outros artistas da região se apresentaram no palanque do Fersan, que distribuiu, ao final, prêmios para os classificados do primeiro ao terceiro lugar.

A cada ano, um artista é homenageado. O múltiplo Francisco Chagas (fotos), que toca piano, flauta, violão, sanfona e outros instrumentos, foi o escolhido pela coordenação do evento. Chagas, como é conhecido em Afogados da Ingazeira, é um patrimônio vivo da região. Em suas mãos, os instrumentos parecem mágicos, fazendo chegar aos ouvidos da plateia uma sonoridade suave e encantadora, um deleite à alma, que renova corações e mentes.

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Um encontro com o sagrado para pedir e agradecer, mesmo sob chuva. É revestido desse significado que se comemora mais um dia de Nossa Senhora do Carmo, padroeira do Recife. A devoção de milhares de católicos fez a Praça do Carmo, no bairro de São José, lotar com fieis que participaram das missas realizadas ao longo da semana em homenagem a ela. A procissão que encerra as comemorações pela data da santa segue neste momento pelas ruas do centro da capital pernambucana, seguida por devotos de guarda-chuva em punho, muitos vestidos de branco e amarelo, cores relacionadas a ela. O cortejo passa pela Avenida Martins de Barros, Rua do Sol, Avenida Guararapes e depois retorna para a Avenida Dantas Barreto.

Ao todo, 20 mil pessoas assistiram às celebrações realizadas neste sábado e domingo. Durante a semana, 5 mil pessoas participaram das missas todos os dias. Este ano, o tema é "Viva a Mãe de Deus e Nossa – o Camelo rejubila no tricentenário do teu encontro no solo brasileiro". Além da festa sagrada, a tradicional festa profana, com parque de diversões e shows, também está instalada no Pátio do Carmo.

O arcebispo de Olinda e Recife, dom Fernando Saburido, reforçou a importância da data para os devotos. "Mais uma vez, essa data reforça a importância de Maria para o mundo. Ela foi a escolhida para gerar o Salvador e teve a missão de levar a palavra de Deus, mesmo com tanta adversidade. Ela cumpriu e cumpre essa missão de forma corajosa, mas com doçura e serenidade. Ela era presente, desde os 15 anos, quando foi eleita para receber Jesus em seu ventre e testemunhou a crucificação e o momento da ressureição. Foi também aquela que fortaleceu a mensagem do renascimento, quando os apóstolos não acreditavam. Ela é a força que se precisa para fazer a vontade de Deus".

A população também se emociona ao chegar perto da imagem e aproveita o momento para reforçar sua fé. A aposentada Maria de Lurdes Souza, de 68 anos, comparece à comemoração de Nossa Senhora do Carmo há 30 anos. "Venho sempre agradecer. Já passei da idade de pedir. Venho e trago comigo uma pessoa para ouvir essa mensagem e me energizar", conta.

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Uma eleição realizada esta quinta-feira (13), na sede do Conselho Estadual de Preservação do Patrimônio Cultural (CEPPC), elegeu seis novos Patrimônios Vivos, totalizando 51 no Estado. Maria dos Prazeres (parteira tradicional/Jaboatão dos Guararapes), Mestre Chocho (música, choro/Jaboatão dos Guararapes), André Madureira (dança, teatro, música/Recife), José Pimentel (artes cênicas/Recife), Reisado Inhanhum (reisado/Santa Maria da Boa Vista) e Sociedade dos Bacamarteiros do Cabo (bacamarte, cultura popular/Cabo de Santo Agostinho) são os novos nomes.

O prêmio é vitalício e corresponde a R$ 1,6 mil, para artista individual, e R$ 3,2 mil, para grupos. Criador do espetáculo da Paixão de Cristo do Recife, José Pimentel comemora a homenagem.

"Estou feliz e agradecido por terem me escolhido e pelas felicitações que venho recebendo. A partir de agora, pretendo conhecer à fundo o que significa ser reconhecido como um patrimônio vivo e o que isso representar para a sociedade", afirma.

A presidente do CEPPC, Márcia Souto, explicou como chegaram ao resultado final. "Concluímos, hoje, o processo de eleição dos novos Patrimônios, que foi fruto de várias audiências públicas realizadas desde o começo do mês de julho. Uma experiência muito rica, participativa e democrática, na qual nós, membros do Conselho, pudemos conhecer de perto os candidatos que se inscreveram nessa edição. Esse resultado reflete a diversidade da cultura pernambucana, que é múltipla e pujante", disse.

A titulação será entregue no próximo dia 17 de agosto, quando é celebrado o Dia Nacional do Patrimônio Histórico. A cerimônia será no Teatro de Santa Isabel, no bairro de Santo Antônio, na área central do Recife, e marcará também a entrega do 2º Prêmio Ayrton de Almeida Carvalho.

Confira um breve histórico dos eleitos:

Maria dos Prazeres

Responsável por mais de cinco mil partos, Dona Prazeres, como costuma ser chamada, foi a primeira presidente da Associação das Parteiras Tradicionais e Hospitalares de Jaboatão dos Guararapes, no Grande Recife. A entidade foi fundada em 1994. Seu trabalho à frente da organização ajudou a formar um inventário das práticas tradicionais de obstetrícia e seu reconhecimento oficial.

Mestre Chocho

Com mais de 70 anos de carreira e 93 anos de idade, Otaviano do Monte ou Mestre Chocho é um dos maiores representantes do choro em Pernambuco. Violão, cavaquinho e bandolim, toca tudo com maestria e desenvoltura, além de ser um exímio compositor.

André Madureira

Fundador, diretor e coreógrafo do Balé Popular do Recife, grupo que dá origem ao segmento de dança popular cênica em Pernambuco. A iniciativa de André em criar um método de dança, chamado “brasílica”, e um banco de passos permite a grande divulgação dos folguedos nordestinos na sociedade, quebrando preconceitos, e dando surgimento a diferentes escolas e grupos de dança popular. Com uma trajetória de mais de 25 anos, sob a direção de André Madureira, o Balé Popular do Recife é responsável por consolidar um cenário de atuação profissional para a dança no Estado.

José Pimentel

Diretor, ator e autor. Como encenador e autor, notabiliza-se pelos grandes espetáculos históricos que monta ao ar livre. Como ator, ganha notoriedade por viver o papel de Jesus, por mais de três décadas, em encenações da Paixão de Cristo, em Nova Jerusalém, no Agreste de Pernambuco, que ele próprio dirige.

Reisado Inhanhum

Tradição do Sertão do São Francisco, as primeiras atividades do Reisado do Inhanhum estão associadas às festas de Santos Reis que acontecem desde o século 18 na comunidade Quilombola de Inhanhum, no município sertanejo de Santa Maria da Boa Vista. As pessoas que atualmente fazem parte do Reisado do Inhanhum procuram manter viva esta tradição secular que foi transmitida por diversas gerações. Nos últimos dez anos, participa ativamente de festivais de cultura, promoveu festas de Santos Reis entre 2011 e 2013, contribuindo para valorização e divulgação do Reisado.

Sociedade dos Bacamarteiros do Cabo

Com mais de 50 anos de existência, ela faz parte da Federação dos Bacamarteiros de Pernambuco. É um Ponto de Cultura conveniado à Fundarpe, que realiza oficinas de inclusão digital, canto coral e aulas de pífanos. A Sociedade dos Bacamarteiros também gere o Museu Olimpio Bonald de Bacamarte, no Cabo de Santo Agostinho, organiza a Missa dos bacamarteiros e, em 2017, organizou V Encontro de Bacamarteiros Zé da Banha.

Exposição na Oca reúne fotos de Luiz Gonzaga e obras de arte inspiradas no Rei do Baião (Foto: divulgação)

O saudoso Luiz Gonzaga morreu no dia 2 de agosto de 1989 e, para relembrar a memória e a obra de um dos artistas mais importantes do país, ele terá seu primeiro videoclipe produzido. A música escolhida pela cervejaria Schin, que está por trás da iniciativa, é “Asa branca”, uma das canções mais emblemáticas do Rei do Baião.

As tomadas foram realizadas em Exu, interior de Pernambuco, cidade que fica cerca de 600 quilômetros do Recife, terra de Luiz Gonzaga. Mais de 12 horas foram necessárias para a produção do videoclipe, que traz cenas de lugares por onde viveu o músico. As imagens do artista pernambucano, detalhe, são do acervo da TV Cultura.

“Quando nos debruçamos sobre a obra do grande Gonzagão e nos deparamos com as mais de 600 músicas e 200 discos gravados, sentimos falta de um projeto audiovisual que evidenciasse toda a beleza do sertão nordestino e sua riqueza musical. Com os novos recursos tecnológicos, pudemos resgatar e ampliar a força do vinil e a voz deste pernambucano que tantas emoções nos traz com esta grande composição, considerada o Hino do Nordeste”, diz Bruno Piccirello, gerente de marketing da cervejaria.

Crédito: Gleyson Ramos/Divulgação

Poucos eventos de cinema já tiveram uma edição tão complicada quanto à do 21º Cine PE – Festival do Audiovisual. Minado por uma crise político-econômica sem precedentes – sem dúvida, um retrato do Brasil -, o festival tem início hoje (27), às 19h30, no Cinema São Luiz, com o carimbo de um fracasso anunciado. Com dois adiamentos em maio – o segundo motivado por razões ideológicas, que levou à debandada de oito cineastas e sete filmes – e uma curadoria que deixou de observar o caráter de novidade inerente à programação, o Cine PE tem tudo para não interessar ao público. Afinal, nunca se viu um festival em que metade dos longas-metragens que concorrem em sua principal categoria já foi exibida no cinema.

Lançado no dia 25 de maio – 15 dias depois do protesto dos cineastas, que o acusaram de ser uma propaganda política pró-Temer, a mesma acusação do documentário O Jardim das Aflições, do pernambucano Josias Teófilo -, o filme vendeu pouco mais de 46 mil ingressos. A comédia romântica Amor. Com, com Isis Valverde, lançada 15 dias depois, já foi vista pelo dobro dos espectadores de Real.

Em todo caso, o clima de festa que ronda a abertura de um festival de cinema, aliado ao conhecido público do Cine PE – mais voltado para o glamour dos atores da TV Globo -, pode ser que redima a sessão do filme. Mas por Real, em si, certamente que não. Afinal, sua falta de ineditismo já é um ponto negativo. Mas isso, no final das contas, não diz nada a seu respeito enquanto obra cinematográfica.

Produzido no eco do impeachment da presidente Dilma Roussef, Real – O Plano Por Trás da História não conta, como o título leva a crer, apenas os fatos ligados ao plano econômico implantado no Brasil em 1993, durante o curto governo do presidente Itamar Franco. A surpresa do filme – talvez a única – é que estamos diante de uma quase biografia: toda a narrativa é focada sobre um único homem, o economista carioca Gustavo Franco, um dos pensadores do Plano Real, que esteve à frente do Banco Central e ditou a política econômica neoliberal do presidente Fernando Henrique Cardoso (Norival Rizzo) por mais de quatro anos.

CINEMA É POP

Cineasta que acredita que o "cinema é pop", Rodrigo Bittencourt, cujo único crédito anterior era comédia Totalmente Inocentes, coloca todo o filme nas costas de Gustavo Franco (por sinal, defendido com garra por Emílio Orciollo Neto), em sua cruzada para tirar o País da hiperinflação. O perfil dele, criado quase com um anti-herói, é multifacetado, embora o filme reze numa cartilha um tanto esquizofrênica, com tiradas pontuais que acenam ora à direita, ora à esquerda.

O filme é propositadamente formatado como um produto industrial, com todos os cacoetes visuais do cinema de ação – há uma cena que apresenta a equipe econômica como os gângsteres de Cães de Aluguel, de Quentin Tarantino. Muitas vezes, Real vira uma comédia involuntária, principalmente quando entram em cena alguns personagens verídicos bastante caricatos (o mais desastrado é o Itamar Franco de Benvindo Sequeira, que parece estar atuando num esquete do Zorra Total).

Apesar de todos os atropelos, não resta dúvida que há um filme que tenta sair do amontoado de clichês e do jargão econômico dos personagens. Em algum momento, antes que os produtores decidissem que o filme deveria ficar totalmente centrado em Gustavo Franco, muita coisa acabou se perdendo pelo caminho.

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Hoje é dia de celebrar o aniversário de nascimento do filho de Isabel e Zacarias, na mais brasileira das festas. Capriche na mesa de bolos de milho e massa de mandioca, arraste o pé no salão, decore a casa com bandeirolas, solte fogos e não se esqueça de acender a fogueira. Só tome cuidado para não se queimar. São João Batista merece uma festa bonita.

A noite de São João será celebrada no Recife, Região Metropolitana e interior de Pernambuco com apresentações de quadrilhas juninas e de artistas locais. Primo de Jesus, João veio ao mundo em 24 de junho e seu nascimento foi anunciado com uma grande fogueira, de acordo com as tradições da Igreja Católica. É o único santo festejado no dia do aniversário de nascimento.

"A história da fogueira é um mito que virou cultura", observa o historiador Severino Vicente da Silva, professor do Departamento de História da Universidade Federal de Pernambuco. "É um santo importante, o nascimento de João anuncia a chegada de Cristo", diz ele, acrescentando que os portugueses trouxeram para o Brasil a festa de São João.

Brincadeira popular no Nordeste brasileiro, a noite de São João tem origem nas festas medievais em torno de fogueiras, realizadas nas florestas, afirma Severino Vicente. Com o passar do tempo, os padres católicos convenceram a população a acender as fogueiras nas vilas e cidades, na frente das casas, transformando o ritual pagão num ritual católico.

"Acender uma fogueira, hoje algo incorreto para os que perderam o gosto de festejar, é repetir um gesto que vem dos primeiros momentos da vida social, estar em volta de uma fogueira é celebrar o primeiro domínio sobre o fogo", escreve Severino Vicente num texto publicado em seu blog.

Mas hoje quem vai pegar fogo mesmo é o Sítio Trindade, em Casa Amarela, bairro da Zona Norte do Recife, com apresentações de Caju e Castanha, Climério de Oliveira, Maciel Salu, Azulão e Silvério Pessoa, a partir das 18h. Os cantores Alceu Valença, André Lins, Ed Carlos e Nando Manzany fazem a festa em Jaboatão dos Guararapes, a partir das 20h, na Praça Nossa Senhora do Rosário.

Em Caruaru, no Agreste do Estado, a festa em homenagem a São João começa às 10h, no Polo Mestre Vitalino (Alto do Moura), com o Trio Santa Rosa. E em Sairé, na mesma região, a diversão fica por conta da 8ª edição do Circuito do Jegue, que acontece no Sítio Cruzeiro do Oeste a partir das 11h de amanhã. O evento terá corrida de jumentos com premiações em dinheiro para os três primeiros colocados e forró ao som do cantor local Marcos Montez. 

Artistas se apresentam em São Paulo

A Avenida Paulista receberá um gostinho do Nordeste no dia 25 de junho, um domingo. Cinquenta artistas de  Caruaru, Capital do Forró, fará parte de uma tarde junina no coração da cidade de São Paulo. Entre eles estão bacamarteiros, trios de forró pé de serra, quadrilha junina e atores. No local, haverá uma procissão em homenagem a São João.

A concentração será na frente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), às 12h, e o evento contará com barracas com comidas típicas juninas e de artesanato. Lá, será possível comprar pamonha, canjica, milho cozido e artesanato de barro, palha, couro, tecidos e bordados.

Entre os artistas que estarão presentes constam integrantes do Batalhão do Bacamateiro, os trios pé de serra Fole de Ouro e Capital do Forró, membros da Quadrilha Junina Molecodrilha e um grupo de atores caruaruenses que encenarão a procissão com direito a apresentações de cartomante, rezadeira, fofoqueiras e um padre.

Por Magno Martins

O poeta, compositor e cantor Maciel Melo, de quem sou fã e conterrâneo das margens do inspirador e poético Rio Pajeú, o Pajeú das flores, que nos dá razão de cantar, saiu em defesa, ontem, num artigo neste blog, do autêntico e verdadeiro forró pé-de-serra, que vem perdendo, a cada ano, nos palanques juninos, seu histórico e garantido espaço para os chamados hits sertanejos.

O alerta de Maciel não é o primeiro nem tampouco soa solitário, nem chega a ser pregado no deserto. Tem eco e substância. Antes dele, Elba Ramalho e Alcymar Monteiro, cada um ao seu modo, já tinham protestado nas redes sociais contra esta grande e perniciosa invasão no São João de uma derivada musical de duvidoso gosto. Podem me chamar de cafona, como diz uma canção de Maciel, mas como ele e todo bom matuto de ouvido viciado em Gonzagão, também adoro forró.

Até porque, como disse Rogaciano Leite na poesia “Os críticos”, sou do Pajeú das flores/Sou da terra onde as almas/São todas de cantadores”. Lá, aprendi também que o canto da roça e da choupana vale mais que mil prantos das sofrência que apareceram por aí. Que me desculpem os que batem palmas para Marília Mendonça e coisas tais, mas trata-se de um modismo sem apelo cultural, sem poesia, sem alma e sem encanto.

Eu gosto de quem canta o Sertão, que é meu. Gosto de verso que tem cheiro de marmeleiro, aroma de bode e flor de mandacaru, como os de Maciel, Petrúcio Amorim, Flávio Leandro, Maria Dapaz, Jorge de Altinho, Flávio José, Santana, Alcymar Monteiro, Nena Queiroga, Josildo Sá e meu amigo Ivan Ferraz. Gosto de quem canta o som que brota mansinho de uma grota quando a chuva cai por lá.

Gosto do amanhecer catingueiro, no bico do Sabiá. Gosto da casca do umbu-cajá, gosto de verso e aboio matutos. Gosto de rapadura, o nosso manjar. Gosto do mel da for de catingueira, mais doce que o mel que os reis da sofrência curam a sua rouquidão nos palanques em que antes apreciávamos Luiz Gonzaga agarrado à sua sanfona tocando e cantando xote, baião e xaxado.

A rigor, os festejos juninos têm raiz nos brejos do Sertão. Caruaru e Campina Grande, que hoje rivalizam, pegaram carona na tradição sertaneja e mutilaram o pé-de-serra. Vivi quando adolescente um São João em que se dançava na beira da fogueira vendo o milho ser assado, tirando o gosto do seu sal com o doce da pamonha.

Por isso, assino embaixo em tudo que Maciel trovejou na sua dura pena em defesa do forró. E louvo aos que concordam com ele e comigo revivendo Euclides da Cunha: “Não desejo Europa, o Boulevard, os brilhos de uma posição. Desejo o Sertão, a picada malgradada e a vida afanosa e triste do sertanejo”.

Aos que possam me jogar pedras por esta defesa tão enfática que faço em favor do nosso forró pé-de-serra ainda recorro a Luiz Gonzaga com esta frase fantástica, cheia de amor pelo Sertão: “Quero ser lembrado como o sanfoneiro que amou e cantou muito seu povo, o Sertão, que cantou as aves, os animais, os padres, os cangaceiros, os retirantes, os valentes, os covardes, o amor”.