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Em um cenário onde é preciso atrair viajantes, o turismo rural é a bola da vez. As viagens com distâncias curtas e médias e que podem ser feitas de carro estão conquistando a preferência de quem viaja a lazer. Não à toa, o Dia Mundial do Turismo, celebrado neste domingo (27), traz o tema “Turismo e Desenvolvimento Rural”, escolhido pela Organização Mundial do Turismo. Desde o surgimento da pandemia do coronavírus, a cadeia econômica do turismo é um das que sofreu as maiores consequências.

Segundo o estudo da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) o setor acumulou perda de 153,8 bilhões de março a julho deste ano. Em Pernambuco, a queda foi de R$ 4,4 bilhões no período.

Para Marcos Teixeira, vice-presidente local da Associação Brasileira de Agentes de Viagem (Abav-PE), o turismo interno já está tendo um papel fundamental na retomada, agora é preciso incluir as viagens para o interior como destino dos viajantes. “De cada 100 turistas que nós recebemos do Sul e Sudeste, os 100 ou vão para Porto de Galinhas ou ficam no Recife. O turismo rural ainda é uma coisa muito local, ou no máximo regional, agora, há espaço sim nas prateleiras das agências para o produto interior, até porque nós temos hotelaria forte em Caruaru, Gravatá, Petrolina e em outras cidades fora desse eixo, como Carpina e Triunfo”, disse Marcos Teixeira afirmando ainda que não faltam atrativos como a Rota dos Engenhos ou o turismo de aventura, a exemplo dos mergulhos que vêm sendo procurados na barragem de Itaparica, na cidade sertaneja de Petrolândia.

TENDÊNCIA

O vice-presidente da Abav-PE acredita ainda que o turismo rural será uma tendência daqui por diante e pode se tornar um excelente produto a ser oferecido aos estrangeiros quando as rotas aéreas internacionais forem retomadas. “É normal que as pessoas comecem a procurar destinos menos concorridos, como o litoral, até por conta da necessidade de manter o distanciamento. Então a gente precisa vender não só praia, mas também as riquezas do interior” reconhece o presidente da Abav-PE.

A presidente da Associação Pernambucana de Turismo Rural (Apeturr), Fátima Magalhães, afirma que o movimento voltou. Como empresária, Fátima comanda a pousada Refúgio do Rio Bonito, na cidade de Bonito, agreste pernambucano, a 140 km do Recife e conhecida por suas cachoeiras. Fátima se diz satisfeita com a movimentação de turistas, depois de cinco meses de portas fechadas por conta da pandemia. “Foi quase como inaugurar de novo. A gente ficava com receio se as pessoas viriam ou não, mas elas estão vindo. Desde o primeiro final de semana não tivemos dificuldades para fechar reservas”, diz Fátima Magalhães.

Ela observou ainda uma mudança no perfil dos visitantes. “Nós continuamos recebendo muitos turistas locais, a maioria vindas do Recife, mas notamos que muitos são pessoas de poder aquisitivo mais elevado, provavelmente gente que costumava viajar para destinos mais distantes e agora estão se voltando para o interior”, acredita Fátima. A Apeturr tem 14 equipamentos turísticos associados, entre hotéis, pousadas e estruturas para day-use.

Fátima Magalhães acredita que para esse crescimento de movimentação se manter é preciso que os governos façam sua parte. “O poder público federal e estadual poderiam cuidar melhor das estradas e da sinalização. Já as prefeituras poderiam oferecer limpeza e segurança nas cidades sedes. O público quer viajar, o empresário quer receber, mas precisamos ter apoio para nossas atividades”, disse a presidente da Apeturr.

TRABALHO E RENDA

A vontade de trabalhar com turismo rural levou a microempresária Patrícia Magalhães a abrir sua própria agência de viagens no final do ano passado, a Avant Turismo. A ideia era levar grupos em pequenas excursões para o interior do estado. Mas a pandemia atrapalhou os planos da empresária. “Ficamos parados de abril a junho. O faturamento foi a zero mas, vimos que se ficássemos parados seria pior, a gente acabaria sendo esquecido”. Patrícia então intensificou o trabalho de divulgação nas redes sociais e começou a fazer contatos com equipamentos de hospedagem pelo interior. Trabalhando incialmente em Lagoa do Carro, Taquaritinga do Norte de Santa Cruz de Capibaribe ela conta que, para evitar aglomerações, dispensou o uso de vans e ônibus, as viagens são feitas em carros de passeio. Os grupos são pequenos, de 8 a 20 pessoas.
“O resultado tem sido muito bom. A gente recebe o retorno tanto de clientes, que antes só conheciam o litoral, quanto da população local, artesãos, comerciantes, donos de restaurantes. Muita gente que nunca havia trabalhado com turismo e ficou feliz vendo o interesse das pessoas por sua cidade”, diz Patrícia Magalhães.

A empresária Angelina Bandeira mantém uma estrutura de piscinas e passeios a cavalo nas terras do Engenho São Bernardo, em Paudalho, Zona da Mata Norte de Pernambuco, a 40 km do Recife. Ela recebe grupos para um dia de lazer com preços que variam de R$ 65 a R$ 115 por pessoa. Angelina, que também é dona do restaurante Sabor do Sertão, está se preparando para voltar a receber o público e garante que já começou a atender muitas ligações de grupos interessados. Ela conta que vai limitar a lotação do local entre 60 e 100 pessoas. “Poderia receber até mais, por conta da demanda, mas vou neste momento manter assim”, disse a empresária.

Angelina lembra que o turismo rural ajuda a impulsionar a geração de trabalho e renda local, que, no caso de Paudalho, é muito ligada à sazonalidade da lavoura da cana-de-açúcar. “Toda a minha mão de obra é daqui da cidade. Entre trabalhadores fixos e temporários chego a contratar 20 pessoas”, revelou Angelina. Para ela, se houvesse mais divulgação os roteiros do turismo rural seriam mais visitados. “Tiro por mim. Sempre que é feita uma reportagem no engenho São Bernardo a procura aumenta muito”, alegou.

DIVULGAÇÃO

O secretário de turismo e lazer de Pernambuco, Rodrigo Novaes, disse através de nota que a escolha da OMT pelo turismo rural como foco para 2020 coincide com o programa de interiorização promovido pela secretaria, o Bora Pernambucar. Lançado no ano passado, o programa tem o objetivo de fazer o mapeamento de atrativos locais, além da integração, capacitação e divulgação de destinos.

Pelo menos dez novos roteiros estão em fase de finalização pelos técnicos da Empetur. Quatro deles já estão disponíveis no site do Bora Pernambucar. O que contempla a Zona da Mata Norte, por exemplo, divulga a trilha até a Cachoeira do Roncador, em Lagoa do Carro, visita ao atelier de mestres mamulengueiros em Carpina, de artesãos de barro em Tracunhaém, e ainda a sede do Maracatu Cambinda Brasileira, em Nazaré. Já em Vicência é possível visitar as sedes de antigos engenhos, como o Jundiá e o Poço Comprido.
“A formatação dos roteiros integrados busca, além de incentivar o visitante a descobrir novos lugares, despertar nas agências e operadoras de turismo o interesse por comercializar destinos menos usuais que os já conhecidos. É a possibilidade de oferecer experiências únicas em Pernambuco, além do turismo de sol e mar”, afirmou Rodrigo Novaes.

Segundo o IBGE, Pernambuco foi o 11º estado mais visitado do Brasil em 2019, com 652 mil viagens nacionais tendo a localidade como destino, recebendo, assim, 3,2% do total dos deslocamentos dentro do Brasil. Em relação ao turismo local, de acordo com o levantamento, dos cerca de 3,2 milhões de domicílios pernambucanos, em 497 mil deles (15,3% do total) foi registrada ao menos uma viagem.

FEDERAL

O Ministério do Turismo foi contactado pela reportagem e, através de nota, divulgou ações realizadas para promover o turismo interno, como a liberação de R$ 5 bilhões em crédito para a cadeia turística e o lançamento do selo “Turismo Responsável” . Em quase três meses, diz o Ministério, cerca de 20 mil empreendimentos turísticos já solicitaram o selo que assegura aos turistas visibilidade frequentar locais que cumprem protocolos específicos para a prevenção da covid-19. O Brasil ficou entre os 10 primeiros países do mundo a adotarem medidas como essa, segundo o governo. A pasta ainda divulgou a destinação de R$ 13,5 milhões para que estados e municípios possam promover seus atrativos e a elaboração de um projeto nacional de turismo rodoviário, “que já está sendo trabalhado”. O ministério não citou data para lançamento dessa ação. 

O ministro do Turismo, Marcelo Álvaro Antônio afirmou também através de nota que o turismo rural “representa uma alternativa de renda para a população que mora no campo, ajuda a estabilizar a economia local e cria negócios e empregos diretos e indiretos. Outro benefício é para o meio ambiente, já que a modalidade permite estimular o manejo, conservação e recuperação da fauna e flora nativas”.