O ministro da Casa Civil, Walter Braga Netto, ao lado do presidente Jair Bolsonaro
Foto: Marcos Corrêa/PR

O Globo

Agarrado à faixa presidencial, em 1º de janeiro de 2019, Jair Bolsonaro repetiu em seu discurso de posse, no parlatório do Palácio do Planalto, que a bandeira do Brasil “jamais será vermelha”, em referência à cor do PT, que governou de 2003 a 2016. Após um ano e meio de mandato, as declarações do presidente têm se transformado em ações para tentar apagar parte do passado, rebatizando programas criados nas gestões petistas.

Assim, sai o Minha Casa Minha Vida, entra o Casa Verde e Amarela. No lugar do Bolsa Família, será o Renda Brasil. E para abranger as obras, nasce o Pró-Brasil, uma espécie de ampliação do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento), que fracassou nos governos anteriores.

Sem um marqueteiro forte para criar novas marcas, ministérios se dedicam a rebatizar programas antigos com nomes escolhidos pelos próprios titulares das pastas. Em meados de 2019, a gestão estava prestes há completar seis meses quando o então ministro da Cidadania, Osmar Terra, encomendou uma pesquisa a uma das agências de publicidade que atendem o governo para estudar os impactos da mudança do nome do Bolsa Família.

Houve preocupação nos bastidores do governo de que a reformulação do programa popular criado em 2004 pelo então presidente Luiz Inácio Lula da Silva fosse explorada pela oposição como uma tentativa de acabar com o benefício, que atende 41 milhões de pessoas, a maioria no Nordeste. Na gestão anterior, de Fernando Henrique Cardoso (PSDB), iniciativas semelhantes haviam sido batizadas de Bolsa Escola, Bolsa Alimentação e Auxílio Gás.

Com os dados em mãos, Osmar Terra, o ministro da Economia, Paulo Guedes, e o então chefe da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, deram início a uma série de reuniões para discutir a nova nomenclatura. À época homem forte do governo, Onyx defendia Renda Cidadã.

Considerado difícil, o nome não avançou. Guedes e Terra defenderam o Renda Brasil. A nova identidade foi levada para análise da Secretaria de Comunicação (Secom) da Presidência. Traçou-se então uma estratégia, com calendário definido para que se faça a alteração.

Remodelagens em programas sociais abrangentes trazem gastos ao governo, que precisa investir em campanhas informativas, reformulação de logomarcas e, inclusive, na troca de cartões dos beneficiários. Para dar uma identidade bolsonarista ao Renda Brasil, o governo prevê alterar inclusive o valor do benefício. A expectativa é que o novo auxílio tenha valor médio de R$ 232, ou seja, R$ 42 a mais que os atuais R$ 190. O novo formato prevê ainda aumentar o universo de beneficiários. A meta é passar para 57,3 milhões de pessoas, 16 milhões a mais que o atual.

As reformulações alcançaram também o Minha Casa Minha Vida, lançado por Lula em 2009 e utilizado como base para uma iniciativa de Michel Temer (MDB) no âmbito da política habitacional, o chamado Cartão Reforma. O modelo petista foi um dos cases de sucesso do marqueteiro João Santana. Mais importante que muitos ministros, Santana era instado a opinar sobre marcas, programas, ações da gestão e até pronunciamentos dos presidentes.

Sem figura com este perfil, no governo atual coube ao hoje ministro do Desenvolvimento Regional, Rogério Marinho, sugerir o novo nome, Casa Verde-Amarela. A ideia foi dada quando ele ainda era um dos secretários de Guedes e visava a fazer uma alusão à Carteira Verde-Amarela, medida provisória do governo que previa a redução de encargos trabalhistas para fomentar contratações de jovens.

O fracasso da proposta da carteira, que não foi aprovada pelo Congresso, levou a Secom a propor outro nome: Casa Brasileira. Mas prevaleceu a escolha inicial. Segundo integrantes do Planalto, todas as decisões de remodelagens passam pela chancela direta do presidente.

Braga Netto x Guedes

Foi assim quando o então titular da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, escolheu o nome Médicos pelo Brasil para reformular o Mais Médicos, criado em 2013, na gestão Dilma. O conceito do programa era parecido com o anterior: ampliar a oferta de médicos em locais de difícil provimento ou de alta vulnerabilidade, além de formar médicos.

Nem todas as reformulações ocorreram de forma tranquila. A divulgação do vídeo da reunião ministerial de 22 de abril expôs uma briga que vinha sendo travada nos bastidores pela escolha do nome Pró-Brasil, que nasceu para abranger as obras e entregas de todos os ministérios. Ao iniciar aquele encontro, o ministro da Casa Civil, Walter Braga Netto, referiu-se ao programa como um “Plano Marshall brasileiro”, o que irritou o ministro da Economia, Paulo Guedes.

— Não chamem de Plano Marshall porque revela um despreparo enorme, afirmou Guedes.

O Pró-Brasil foi criado inicialmente pelo ministro da Infraestrutura, Tarcísio de Freitas, para batizar as entregas de sua gestão. O governo refuta a comparação com o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), lançado por Lula para dar vitrine a Dilma, sob o argumento que o atual é mais amplo.