{"id":201625,"date":"2025-11-07T15:00:53","date_gmt":"2025-11-07T18:00:53","guid":{"rendered":"https:\/\/penoticias.com.br\/blog\/?p=201625"},"modified":"2025-11-07T07:30:52","modified_gmt":"2025-11-07T10:30:52","slug":"a-rotina-de-medo-dos-285-milhoes-de-brasileiros-refens-do-crime-organizado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/penoticias.com.br\/blog\/a-rotina-de-medo-dos-285-milhoes-de-brasileiros-refens-do-crime-organizado\/","title":{"rendered":"A rotina de medo dos 28,5 milh\u00f5es de brasileiros ref\u00e9ns do crime organizado"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"moz-reader-block-img\" src=\"https:\/\/veja.abril.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/000_UQ7X4.jpg.jpg?quality=70&amp;strip=info&amp;w=1280&amp;h=720&amp;crop=1\" alt=\"UM BASTA -\u2002Moradores clamam por paz em favela carioca: o s\u00edmbolo do Comando Vermelho ao fundo mostra quem manda\" width=\"675\" height=\"380\" \/><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 8pt;\"><em>VEJA<\/em><\/span><\/p>\n<p>Carros queimados, estacas de ferro, trilhos de trem, cancelas, eis uma lista das barreiras que precisam ser cotidianamente vencidas por um naco expressivo da popula\u00e7\u00e3o do Rio de Janeiro para t\u00e3o simplesmente chegar em casa. S\u00e3o obst\u00e1culos carregados do mais delet\u00e9rio dos simbolismos: fincados nas entradas de populosas favelas, eles t\u00eam o prop\u00f3sito de frear a pol\u00edcia e demarcar onde termina o poder do Estado, com tudo o que embute, e come\u00e7a o dom\u00ednio do crime, que vem se apossando ao longo de d\u00e9cadas de vastos territ\u00f3rios \u00e0 base da intimida\u00e7\u00e3o e do medo, medo n\u00e3o, pavor. Quem leva o dia a dia na mira dos fuzis sabe bem que a vida sob as regras das quadrilhas, seja do tr\u00e1fico, seja da mil\u00edcia, depende da r\u00e9gia obedi\u00eancia a uma cartilha que todo mundo conhece de cor. \u201cCarro de aplicativo n\u00e3o sobe aqui, esquece. Somos obrigados a usar o sistema de motot\u00e1xis dos bandidos e, se recebo algu\u00e9m, preciso ir buscar fora da comunidade, para n\u00e3o correr riscos\u201d, diz uma residente de Itabora\u00ed, na regi\u00e3o metropolitana, que, como outras pessoas ouvidas pela reportagem de VEJA, n\u00e3o revela o nome e prefere nem dar as iniciais.<\/p>\n<p>O avan\u00e7o territorial dos criminosos n\u00e3o apenas no Rio, mas por todo o Brasil, espanta pela velocidade e a dimens\u00e3o que tomou. Entre os especialistas, n\u00e3o h\u00e1 d\u00favida de que as barreiras dos marginais devem ser derrubadas e o terreno que eles mant\u00eam \u00e0 sombra da viol\u00eancia, retomados, medida essencial do ponto de vista dos que sofrem com os desmandos da bandidagem e sob o \u00e2ngulo do funcionamento da sociedade de forma mais ampla. \u00c9 tarefa de elevada complexidade, como se viu na Opera\u00e7\u00e3o Conten\u00e7\u00e3o, no \u00faltimo dia 28, quando o governo Cl\u00e1udio Castro despachou 2\u2009500 agentes para os complexos da Penha e do Alem\u00e3o, na Zona Norte carioca, onde est\u00e1 instalado o QG do Comando Vermelho, a maior fac\u00e7\u00e3o do Rio. Os policiais foram recebidos com saraivadas de tiros de fuzis e at\u00e9 drones lan\u00e7a-granadas. No confronto, quatro policiais morreram. Do outro lado, as baixas foram muito maiores: 117 mortos (dos quais, 95% tinham v\u00ednculo comprovado como o CV, segundo o governo fluminense) e 99 pris\u00f5es. Ap\u00f3s essa a\u00e7\u00e3o que bateu recorde hist\u00f3rico de letalidade, uma quest\u00e3o essencial, que, ali\u00e1s, mobiliza a classe pol\u00edtica, de olho no impacto eleitoral do emergencial tema da seguran\u00e7a, segue candente: como extirpar de vez esse mal do castigado tecido social? N\u00e3o h\u00e1 resposta \u00fanica nem simples.<\/p>\n<p>Na \u00faltima segunda-feira, na Penha, o cen\u00e1rio era de aparente normalidade, ao menos para os padr\u00f5es de uma comunidade tutelada pelo crime. Uma funcion\u00e1ria de uma loja de celular, vizinha \u00e0 pra\u00e7a onde corpos ficaram estirados no dia seguinte \u00e0 opera\u00e7\u00e3o, disse \u00e0 reportagem, resumindo o tom geral de resili\u00eancia: \u201cA vida tem que continuar\u201d. E, apesar do baque sofrido pelo Comando Vermelho (CV), ela continuava sob a vig\u00edlia de olheiros monitorando o movimento e mototaxistas circulando sem capacete para facilitar a identifica\u00e7\u00e3o pelos soldados do crime. \u201cS\u00f3 hoje consegui dormir\u201d, contava uma mulher a uma amiga que, mesmo calejada, constatou: \u201cNunca vi tanto fuzil\u201d. Ningu\u00e9m ousa pronunciar palavras comprometedoras nem l\u00e1 nem em outras bandas onde as gangues sofisticam seus neg\u00f3cios, assim como seus m\u00e9todos de coa\u00e7\u00e3o. \u201cO segredo para sobreviver \u00e9 cabe\u00e7a baixa e boca fechada\u201d, resume a empregada dom\u00e9stica V.D., 58 anos, residente de uma \u00e1rea de mil\u00edcia na Baixada Fluminense, que comprou a duras penas seu apartamento e agora paga \u00e1gio de 50% no condom\u00ednio por incluir uma certa \u201ctaxa da portaria\u201d, montante que, sabidamente, vai parar no bolso dos grupos armados. \u201cNossa seguran\u00e7a \u00e9 garantida por eles\u201d, justifica a s\u00edndica, que n\u00e3o ousa dar nome aos bois.<!--more--><\/p>\n<p>O dom\u00ednio de imensas \u00e1reas pelo crime tem suas ra\u00edzes plantadas no Rio de Janeiro dos anos 1980, quando o CV, nascido dentro de um pres\u00eddio, tal como outras fac\u00e7\u00f5es, alastrou suas atividades: dos roubos armados saltou para o tr\u00e1fico de drogas, percebendo no aumento do fluxo de mercadoria vinda de pa\u00edses produtores uma oportunidade. \u201cComo o tr\u00e1fico exige o controle dos pontos de venda da droga, se fez necess\u00e1rio ter poder sobre os territ\u00f3rios\u201d, afirma o soci\u00f3logo Daniel Hirata, coordenador do Grupo de Estudos de Novos Ilegalismos da UFF. Dissid\u00eancias internas dariam mais tarde origem a gangues como o Terceiro Comando Puro (TCP) e Amigo dos Amigos (ADA), o que fez ingressar no gloss\u00e1rio da viol\u00eancia as \u201cguerras por territ\u00f3rio\u201d, n\u00e3o raro sangrentas. Na d\u00e9cada de 1990, as mil\u00edcias, compostas de policiais e ex-policiais vistos no princ\u00edpio com equivocada benevol\u00eancia, escalaram um degrau ao tomar posse de bairros inteiros e monopolizar o fornecimento de servi\u00e7os b\u00e1sicos como g\u00e1s, transporte, moradia, internet e at\u00e9 \u00e1gua, pr\u00e1tica que os traficantes depois assimilaram. \u201c\u00c9 consenso que, com \u00e0 propor\u00e7\u00e3o que ganharam, os variados neg\u00f3cios do crime somados j\u00e1 d\u00e3o mais lucro do que o com\u00e9rcio de drogas\u201d, pontua Hirata.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 um \u00fanico estado brasileiro sem a presen\u00e7a de uma fac\u00e7\u00e3o dando as cartas, quase sempre em \u00e1reas de maior concentra\u00e7\u00e3o de pobreza e menor atua\u00e7\u00e3o do poder p\u00fablico. Sob seu jugo vivem atualmente 28,5 milh\u00f5es de brasileiros, 19% da popula\u00e7\u00e3o. Nessas \u00e1reas, \u00e9 dura a vida de quem quer empreender. Um morador de Rio das Pedras, sede de uma mil\u00edcia na Zona Oeste, inaugurou um pequeno mercado por ali que ia muito bem, mas tantas eram as extors\u00f5es, na linha de \u201cse n\u00e3o pagar, leva bala\u201d, que encerrou o neg\u00f3cio em quest\u00e3o de meses. \u201cMe sinto ref\u00e9m em minha pr\u00f3pria casa\u201d, desabafa G.H., 32 anos. Segundo o Atlas da Viol\u00eancia, as perdas anuais decorrentes dessas ilegalidades chegam a 5,9% do PIB do pa\u00eds, o que abrange desvaloriza\u00e7\u00e3o de im\u00f3veis, impactos no turismo e concorr\u00eancia desleal na explora\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os.<\/p>\n<p>S\u00e3o, infelizmente, fartos os exemplos de como a bandidagem atrapalha diferentes mercados, como ocorre com as operadoras de celular, que acabam n\u00e3o conseguindo alcan\u00e7ar os 270.000 domic\u00edlios da regi\u00e3o metropolitana do Rio. De um lado, esbarram com os fuzis. Do outro, t\u00eam como competidores os marginais, n\u00e3o por acaso donos de clientela cativa nesse setor em que tamb\u00e9m atuam. \u201cA competi\u00e7\u00e3o \u00e9 feita na bala, e n\u00e3o pelas regras de mercado, o que mina a produtividade e alimenta o crime\u201d, aponta o economista Daniel Cerqueira, \u00e0 frente do Atlas da Viol\u00eancia. \u201cOu voc\u00ea vai na empresa dos bandidos, um lugar a portas fechadas, ou fica sem internet em casa\u201d, resigna-se outra moradora da Baixada Fluminense. No caso da Light, a concession\u00e1ria de energia, quase um quarto dos clientes cadastrados n\u00e3o paga a conta, porque os t\u00e9cnicos n\u00e3o conseguem furar as trincheiras nas favelas para p\u00f4r fim aos \u201cgatos\u201d. O avan\u00e7o dos criminosos no ramo imobili\u00e1rio \u00e9 mais um n\u00f3 dif\u00edcil de desatar, eles grilam a terra, sobem o pr\u00e9dio e, quando j\u00e1 est\u00e1 de p\u00e9, v\u00e3o atr\u00e1s da legaliza\u00e7\u00e3o. Muitas vezes, d\u00e1 certo: vendem o im\u00f3vel mesmo sem alvar\u00e1. \u201cAs fac\u00e7\u00f5es entenderam que poderiam ganhar em cima do d\u00e9ficit habitacional do pa\u00eds\u201d, observa Rodrigo Pimentel, ex-integrante do Bope, a tropa de elite do Rio.<\/p>\n<p>Os efeitos da viol\u00eancia di\u00e1ria com a qual tanta gente precisa lidar s\u00e3o sentidos desde cedo. O ano letivo dos 217.000 alunos da rede municipal que estudam em zonas conflagradas \u00e9 marcado por constantes interrup\u00e7\u00f5es em raz\u00e3o de tiroteios que obrigam a crian\u00e7ada a se jogar no ch\u00e3o para se proteger de balas perdidas. \u201cSe n\u00f3s que somos adultos temos medo, imagina quem ainda n\u00e3o amadureceu suas emo\u00e7\u00f5es\u201d, pondera Y.A., uma educadora de localidade dominada pelo CV em Br\u00e1s de Pina, na Zona Norte. Os atendimentos na \u00e1rea da sa\u00fade mental nessas comunidades s\u00e3o frequentes e crescem \u2014 25% na rede municipal s\u00f3 neste ano. \u201cSurge muita s\u00edndrome do p\u00e2nico, depress\u00e3o e ansiedade\u201d, diz a psic\u00f3loga Lurdes Oberg. Os profissionais na linha de frente garantem que os n\u00fameros, j\u00e1 altos, s\u00e3o subestimados. \u201cVizinhos passam mal cada vez que os marginais aparecem para cobrar a taxa de seguran\u00e7a. Idosos lhes entregam todo o benef\u00edcio que recebem do governo para comprar rem\u00e9dios e n\u00e3o falam nada por medo\u201d, lamenta um residente da Muzema. A taxa, criada pela mil\u00edcia, hoje \u00e9 operada pelo tr\u00e1fico, que recentemente dominou a regi\u00e3o. Quem precisa de socorro muitas vezes vive uma epopeia para ser atendido, como se v\u00ea em Costa Barros, tamb\u00e9m na Zona Norte. \u201cDuas barricadas ali impedem a passagem da ambul\u00e2ncia, a\u00ed o paciente precisa ser conduzido de cadeira de rodas por duas quadras at\u00e9 chegar a ela\u201d, conta Daniel Soranz, secret\u00e1rio municipal de Sa\u00fade.<\/p>\n<p>O que se observa com cores gritantes no Rio est\u00e1 longe de ser um problema local. Ao contr\u00e1rio: ele ganha a cada dia escopo nacional. Foi a disputa por rotas do tr\u00e1fico que fez as fac\u00e7\u00f5es se ramificarem pelo Brasil, cada qual do seu jeito. Enquanto o carioca CV opera em sistema descentralizado, como esp\u00e9cie de franquias, o paulista PCC se estrutura em hierarquia r\u00edgida, mais parecido com as m\u00e1fias. A contenda entre eles come\u00e7ou nos pres\u00eddios, ap\u00f3s a transfer\u00eancia de chefes de ambos os grupos sobretudo para as regi\u00f5es Norte, pr\u00f3xima de pa\u00edses produtores de drogas, e Nordeste, bem abastecida de portos prontos para escoar a mercadoria para a Europa e os Estados Unidos. A expans\u00e3o ganhou g\u00e1s em rinc\u00f5es mais pobres, embalada pela promessa de abertura de mercados, sem ser contida pelas despreparadas for\u00e7as de seguran\u00e7a. \u201cAs fac\u00e7\u00f5es se organizam onde o Estado abandonou as pessoas e depois as tiranizam\u201d, sintetiza Ricardo Balestreri, ex-secret\u00e1rio nacional de Seguran\u00e7a P\u00fablica e coordenador do N\u00facleo de Urbanismo Social e Seguran\u00e7a P\u00fablica do Insper.<\/p>\n<p>Nos \u00faltimos anos, estados como Cear\u00e1, Bahia, Pernambuco e Amazonas registraram uma disparada in\u00e9dita na viol\u00eancia provocada por quadrilhas. Em um distrito do munic\u00edpio cearense de Morada Nova, a 200 quil\u00f4metros de Fortaleza, pelo menos 2.000 moradores deixaram suas casas a toque de caixa depois de receberem amea\u00e7as da bandidagem em disputa por territ\u00f3rio. Em julho, invas\u00f5es de im\u00f3veis, picha\u00e7\u00f5es em muros e mensagens disseminadas nas redes tanto pela fac\u00e7\u00e3o local, a Guardi\u00f5es do Estado, como pelo Terceiro Comando Puro do Rio espalharam o medo, e o antes animado povoado virou cidade fantasma, com ruas desertas. A prefeitura baixou um decreto reconhecendo a \u201csitua\u00e7\u00e3o anormal e emergencial\u201d e at\u00e9 disponibilizou um caminh\u00e3o para quem quisesse ir embora, a evid\u00eancia mais eloquente da rendi\u00e7\u00e3o de uma autoridade no pa\u00eds para os bandidos. Passados quatro meses, escolas, igreja e posto de sa\u00fade seguem fechados. O governo estadual intensificou as patrulhas e prendeu suspeitos, mas a popula\u00e7\u00e3o n\u00e3o se sente segura para regressar.<\/p>\n<p>A inaceit\u00e1vel situa\u00e7\u00e3o que faz lembrar o canga\u00e7o, aquele tipo de banditismo que teve o Nordeste como palco entre o fim do s\u00e9culo XIX e o in\u00edcio do XX, vem perigosamente ganhando impulso no Cear\u00e1. Em setembro, trinta fam\u00edlias tamb\u00e9m deixaram suas resid\u00eancias para tr\u00e1s no vilarejo de Pacatuba, perto da capital, outra vez em raz\u00e3o de embates entre quadrilhas. Amea\u00e7as s\u00e3o constantes. \u201cDisseram que jogariam granadas, incendiariam os im\u00f3veis e encheriam a nossa cara de bala\u201d, relata um morador de uma fatia de terra dominada pelos Guardi\u00f5es do Estado. At\u00e9 julgamentos tiveram de ser transferidos de comarca porque os j\u00faris eram compostos de gente suspeita de envolvimento com fac\u00e7\u00f5es. \u201cTratando-se de crime grave, com v\u00edtima inclusive decapitada, v\u00ea-se que pode ser comprometida a imparcialidade dos jurados, pois \u00e9 plenamente poss\u00edvel que a organiza\u00e7\u00e3o criminosa exer\u00e7a influ\u00eancia sobre eles\u201d, decidiu um juiz, que mudou um caso de Monsenhor Tabosa para Sobral.<\/p>\n<p>O embate por territ\u00f3rio entre quadrilhas rivais tem feito os \u00edndices de homic\u00eddio alcan\u00e7ar novos patamares no Nordeste. Em Pernambuco, o confronto entre PCC e CV incendiou os morros da regi\u00e3o metropolitana de Recife. Em uma comunidade, a Alto Jos\u00e9 do Pinho, o aviso de um toque de recolher di\u00e1rio, a partir das 22h, veio por WhatsApp: \u201cA partir de hoje haver\u00e1 guerra de tr\u00e1fico e muita bala. Orem e se protejam\u201d. N\u00e3o era brincadeira. \u201cA popula\u00e7\u00e3o s\u00f3 acreditou quando um garoto autista de 4 anos foi baleado na perna e outro, de 9, morreu com um tiro nas costas ao voltar da igreja com a m\u00e3e depois do hor\u00e1rio permitido\u201d, relatou um morador. Tamb\u00e9m a Amaz\u00f4nia ati\u00e7a cada vez mais a ambi\u00e7\u00e3o das fac\u00e7\u00f5es. Os labir\u00ednticos rios da floresta v\u00eam sendo amplamente utilizados para o transporte de entorpecentes vindos de pa\u00edses como Col\u00f4mbia e Bol\u00edvia. O prec\u00e1rio policiamento das fronteiras favorece as quadrilhas, que acabam ocupando bairros nas periferias das grandes cidades e lucrando alto com extra\u00e7\u00e3o de madeira, ca\u00e7a, pesca e garimpo ilegais.<\/p>\n<p>Algumas bem-sucedidas iniciativas para recuperar o territ\u00f3rio sequestrado pelo crime ajudam a iluminar um passo a passo que n\u00e3o cont\u00e9m grandes inova\u00e7\u00f5es, mas, sim, ideias que, aplicadas com disciplina, colhem bons resultados. Inspirado no sempre lembrado exemplo da cidade colombiana de Medell\u00edn, no passado dominada pelo temido cartel de Pablo Escobar, o programa Usinas da Paz, do Par\u00e1, preenche a vida de crian\u00e7as e adultos de favelas com dezenas de iniciativas, de pr\u00e1tica esportiva \u00e0 capacita\u00e7\u00e3o profissional, um caminho para o Estado se fazer presente e um desest\u00edmulo \u00e0 entrada de jovens na criminalidade. Neste ano, os crimes letais ca\u00edram 75% no estado. \u201cEstamos longe de vencer essa guerra, mas a resposta tem funcionado melhor do que a simples repress\u00e3o\u201d, diz Roberto Magno Netto, da Universidade Federal do Par\u00e1. Em outra frente, os especialistas repisam a tecla de que as diversas esferas de governo precisam se integrar, inclusive com combate \u00e0 corrup\u00e7\u00e3o policial e planejamento.<\/p>\n<p>Em 2008, o Rio parecia inaugurar um novo cap\u00edtulo na batalha contra as fac\u00e7\u00f5es criminosas encasteladas em morros cujos becos e vielas elas conhecem como ningu\u00e9m. Foi a\u00ed que o governo estadual, ainda na era de S\u00e9rgio Cabral, implantou as Unidades de Pol\u00edcia Pacificadora, as UPPs, trazendo uma novidade \u00e0 paisagem ao erguer bases policiais permanentes que praticariam um patrulhamento comunit\u00e1rio. Em ato simb\u00f3lico, a bandeira brasileira foi hasteada no topo do mesmo Complexo do Alem\u00e3o, dando aos mais c\u00e9ticos alguma esperan\u00e7a de que a lei do estado de direito era a que valeria dali para a frente. Foi em v\u00e3o, n\u00e3o deu em nada. Acabou n\u00e3o vingando diante do af\u00e3 expansionista do programa, insuflado por interesses pol\u00edticos, e da coopta\u00e7\u00e3o de uma banda dos policiais pelo crime.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s a opera\u00e7\u00e3o da semana passada, o governo disse planejar reaver \u00e1reas de forma mais permanente, come\u00e7ando pela regi\u00e3o Sudoeste, onde fica a Barra da Tijuca, conforme acertado na reuni\u00e3o do rec\u00e9m-criado Escrit\u00f3rio Emergencial de Combate ao Crime Organizado, que re\u00fane o Minist\u00e9rio da Justi\u00e7a e a secretaria estadual de Seguran\u00e7a. \u201cAt\u00e9 o final do ano, vamos apresentar um plano de retomada de territ\u00f3rios com foco nos neg\u00f3cios das fac\u00e7\u00f5es e participa\u00e7\u00e3o de todos os entes governamentais\u201d, disse o secret\u00e1rio Victor Santos. Que saia mesmo do papel e dure. Os moradores que passam pelo mart\u00edrio di\u00e1rio de viver sob a mira do fuzil merecem a paz.<\/p>\n<p>Publicado em VEJA de 7 de novembro de 2025, <a href=\"https:\/\/veja.abril.com.br\/edicoes-veja\/2969\/\"><span style=\"color: #ff0000;\">edi\u00e7\u00e3o n\u00ba 2969<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>VEJA Carros queimados, estacas de ferro, trilhos de trem, cancelas, eis uma lista das barreiras que precisam ser cotidianamente vencidas por um naco expressivo da popula\u00e7\u00e3o do Rio de Janeiro para t\u00e3o simplesmente chegar em casa. S\u00e3o obst\u00e1culos carregados do mais delet\u00e9rio dos simbolismos: fincados nas entradas de populosas favelas, eles t\u00eam o prop\u00f3sito de &#8230; <a title=\"A rotina de medo dos 28,5 milh\u00f5es de brasileiros ref\u00e9ns do crime organizado\" class=\"read-more\" href=\"https:\/\/penoticias.com.br\/blog\/a-rotina-de-medo-dos-285-milhoes-de-brasileiros-refens-do-crime-organizado\/\" aria-label=\"Read more about A rotina de medo dos 28,5 milh\u00f5es de brasileiros ref\u00e9ns do crime organizado\">Ler mais<\/a><\/p>\n<div class='heateorSssClear'><\/div><div  class='heateor_sss_sharing_container heateor_sss_horizontal_sharing' data-heateor-sss-href='https:\/\/penoticias.com.br\/blog\/a-rotina-de-medo-dos-285-milhoes-de-brasileiros-refens-do-crime-organizado\/'><div class='heateor_sss_sharing_title' style=\"font-weight:bold\" ><\/div><div class=\"heateor_sss_sharing_ul\"><a aria-label=\"Facebook\" class=\"heateor_sss_facebook\" 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