![]()
Por Vera Magalhães/O Globo
Num de seus poemas mais citados, “Confidência do Itabirano”, Carlos Drummond de Andrade se lamenta:
— Itabira é apenas uma fotografia na parede. Mas como dói!
Quando se consumar o primeiro julgamento de Jair Bolsonaro pelas diatribes cometidas por ele na Presidência da República, o capitão começará a ser apenas um retrato na parede da direita brasileira, mas, diferentemente do poeta, poucos sentirão dor genuína por isso.
A despeito de declarações protocolares em redes sociais, poucos dos nomeados ou eleitos graças a Bolsonaro lamentarão sua retirada da cena política.
Muitos mandatários (parlamentares e governadores), juízes, ex-ministros, procuradores da República, militares, policiais e servidores tirados do ostracismo por cair nas graças de Bolsonaro admite, em privado, que a iminente decisão do Tribunal Superior Eleitoral os coloca diante de uma situação confortável: a possibilidade de se dissociar da herança tóxica de Bolsonaro sem romper com ele e experimentar o mesmo destino dos que o fizeram e nunca mais se elegeram.
Os que genuinamente se sentirão órfãos sem a possibilidade de Bolsonaro figurar na urna eletrônica que tanto atacou são justamente os radicais de extrema-direita, difusores de fake news e negacionismo e praticantes de uma política ditada pelo sectarismo, que temem ter o mesmo destino do líder e que o confronto seguido que ele terá com a Justiça, aliado ao surgimento de outras lideranças de direita menos estridentes, façam com que esses atributos percam apelo eleitoral no futuro próximo.
Pesquisa Quaest divulgada nesta quinta-feira dá concretude a esse momento “Succession” aberto com o julgamento de Bolsonaro, ao mostrar que o ex-presidente ainda é capaz de mobilizar quase a metade do eleitorado (43% consideram sua iminente inelegibilidade injusta), mas que a maioria desse contingente já trabalha com a máxima de “rei morto, rei posto”, ao apontar tranquilamente seus sucessores no campo da direita.
Nesse rol, despontam os governadores Tarcísio de Freitas e Romeu Zema e a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro. Desses, apenas ela terá seus passos políticos ditados por Bolsonaro. Os demais tratarão de cada vez mais dissociar sua imagem da do ex-presidente, sem, no entanto, negá-lo em público, o que é mortal eleitoralmente.
Erram, a meu ver, as análises segundo as quais Bolsonaro será um padrinho importante até 2026 (a própria pesquisa Quaest diz que sim, mas é um daqueles cacifes que se gastam com rapidez). O simples fato de que seu “sucessor”, quando definido, se apresente como conservador ou de direita já será suficiente para que o eleitor ex-bolsonarista se volte para ele. Não nos esqueçamos de que Fernando Haddad foi ao segundo turno mesmo em 2018 com Lula preso e sem poder fazer campanha por ele.
Perde bastante, além dos extremistas bolsonaristas, o PL, que viu seus cofres encherem de recursos do fundo partidário graças a uma bancada inflada única e exclusivamente porque Bolsonaro escolheu o partido. Não parece que Michelle tenha o potencial de provocar a repetição de uma bancada de quase 100 deputados, para que o lucro financeiro seja mantido.



