
Por Naldinho Rodrigues*
É praticamente impossível ser brasileiro e não conhecer ou ouvir falar em Luiz Gonzaga. O sanfoneiro, cantor e compositor começou tocando nos bares do Rio de Janeiro em busca de trocados e acabou escrevendo uma das músicas brasileiras de maior sucesso “Asa Branca”.
Luiz Lua Gonzaga nasceu em Exu, Sertão de Pernambuco em 1912, mas só aos 27 anos de idade começou a trabalhar como músico. De início, o artista tocava pelos bares e tentava a sorte em programas de calouros, onde não conseguia mais do que nota 3. Na época, o repertório era composto por todo tipo de ritmo, de tangos a foxtrot, até que em 1940, um grupo de estudantes cearenses que estava no Rio de Janeiro o aconselhou a tocar as músicas dos sanfoneiros do Sertão nordestino. Foi aí que o sucesso de Gonzaga na música engatou de fato.
A cultura nordestina é extremamente rica e, musicalmente falando, essa riqueza fica bastante visível quando observamos artistas como Luiz Gonzaga. O cantor fez sucesso por todo o Brasil e popularizou a música nordestina no país. Baião se trata de um gênero de música e dança popular do Nordeste que utiliza principalmente viola caipira, triângulo, flauta doce e acordeão. E foi por popularizar esse ritmo que Luiz Gonzaga ficou conhecido como o “Rei do Baião”.
O hino sertanejo “Asa Branca” foi escrita em 3 de março de 1947 por Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira. A música tem uma letra incrível e um significado interessante, então não é à toa que logo estourou no Brasil. O nome “Asa Branca” vem de uma ave que possuiu natureza migratória e consegue voar a longas distâncias e altitudes. Asa Branca fala com muita sutileza de um problema muito sério: A Seca do Sertão. A forma como descreve as paisagens, a sazonalidade e os animais rendeu a Luiz Gonzaga o título de Doutor Honoris Causa pela Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE).
A canção está relacionada à época de seca, e reforça a da tonalidade da região. Luiz Gonzaga era um profundo observador da natureza e do clima do Sertão, e por isso foi indicado para receber o título. Para Carlinhos Brown, a antológica canção do Rei Baião exprime a força da cultura nordestina, potencializa essa força e toda a brasilidade. Certas canções são mais do que mero versos e melodias. São como um monumento que serve de referência para as gerações, um hino que atravessa décadas e sintetiza a história de um povo, como um patrimônio imaterial de uma nação.
Se há uma obra do cancioneiro brasileiro que merece tais predicados, esta canção e “asa branca”, clássico de maior grandeza de nossa música popular e mais importante canção nordestina de todos os tempos. Antes de se tornar a terceira música brasileira mais gravada de todos os tempos, atrás apenas de “Garota de Ipanema” e “Aquarela Brasileira”, Asa Branca enfrentou desconfiança até dos músicos que participaram da primeira gravação da faixa.
Um dos integrantes do Grupo Regional do Canhoto, que acompanhava Gonzaga, considerava a música lamurienta demais e dizia que ela foi feita para se tocar enquanto se pede esmolas. A desconfiança era tamanha que a faixa foi lançada apenas como lado B do Compacto que promovia “Vou pra Roça”, hoje uma obra de menor expressão no catálogo do Rei do Baião. A letra de Humberto Teixeira narra a realidade dos retirantes que levavam consigo saudade e tristeza em seus êxodos para outras cidades, mas que também carregavam a esperança de que um dia voltariam para a terra que tanto amam.
“Hoje longe muitas léguas/numa triste solidão/espero a chuva cair de novo/pra mim vortar pro meu Sertão”. Diz a canção ASA BRANCA. (Uma homenagem aos 35 anos da morte do Rei do Baião Luiz Gonzaga).
*Naldinho Rodrigues é locutor de Rádio. Apresenta o programa Tocando o Passado, pela Rádio Afogados FM, sempre aos domingos, das 5 às 8 da manhã; e escreve semanalmente suas crônicas culturais para o Blog PE Notícias.



