
A ida de Lula a Belém, na quarta-feira (19), com o objetivo de “destravar negociações”, acabou tendo o efeito contrário do pretendido, segundo observadores e negociadores. “Foi pior que o incêndio na Blue Zone”, diz um deles.
A impressão baseia-se no fato de que a chegada do presidente brasileiro mudou a dinâmica das conversas. Os trabalhos nas plenárias estavam adiantados, com uma boa interação entre os negociadores.
A presença de Lula, no entanto, esvaziou a plenária, na medida em que tirou vários ministros de outras nações das mesas, e causou mal-estar, já que um chefe de Estado estava abrindo interlocução com subordinados do poder executivo de outras nações, contrariando a elementar regra do manual diplomático de manter conversas apenas com seus homólogos.
Nos bastidores do evento, Lula se encontrou com representantes da China, Índia, Indonésia, da União Europeia e de países árabes, latino-americanos, pequenos países insulares e africanos. Em todas as ocasiões, martelou a tecla da necessidade do texto final da Conferência do Clima conter um “mapa do caminho” para afastamento dos combustíveis fósseis, responsáveis por 80% das emissões de gases que fazem a Terra aquecer.
A estratégia até faz sentido do ponto de vista ambiental, mas não havia qualquer possibilidade de sucesso, mesmo com Lula gastando toda sua lábia para tentar convencer as outras nações a seguirem o Brasil.
Lula foi alertado por técnicos do Itamaraty de que conseguiria apoio de, no máximo, 80 países, o que acabou se confirmando. Mesmo assim, o presidente encampou a proposta defendida pela ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, e pela CEO da COP30, Ana Toni.
No final do dia, sem ter o que comemorar, Lula fez um discurso, sem permitir perguntas, para enaltecer o Pará e a escolha de Belém como sede. No dia seguinte, a Blue Zone, área destinada às autoridades, ardeu em chamas, em um incêndio que interrompeu os trabalhos.



