02 – SEXTOU POÉTICO – CENÁRIOS DO PAJEÚ – 09.01.26

Por Ademar Rafael Ferreira (Papa).

Ade Maleu Lapa-el – Vamos Começar esta série com o poema “CENÁRIOS DO PAJEÚ”, de Sebastião Dias.

Papa: Neste poema o poeta do Ouro Branco (RN), acolhido em Tabira (PE), como filho, expressa uma visão plena do lendário “Rio Pajeú”. Nela de forma esplêndida fala de lendas, cultura, povo, fauna e flora que imperam no Vale do Pajeú.

Originário das lendas

O rio rasga o Sertão

Abrindo lagos e fendas

No corpo bruto do chão

Com águas turvas e claras

Sombreadas por taquaras

Jaramataia e bambu

E as panorâmicas paisagens

Ondulam de verde as margens

Do Vale do Pajeú.

Quantos corpos flutuantes

Descem no dorso lendário

Entre espumas borbulhantes

O real e o imaginário

Se confundem nos remansos

Nos faz em lentos balanços

Sobe e desce o corpo nu

De uma criança sem mágoas

Bela e pura como as águas

Do leito do Pajeú.

Quando o rio está de nado

Um caboclo da mão grossa

Quer passar pra o outro lado

Onde botou uma roça

Amarra em cipós de salsa

Uma pequenina balsa

De rolos de mulungu

E assim que o dia começa

Rema a balsa e atravessa

As águas do Pajeú.

Vez em quando da colina

desce alegre a camponesa

Que na água cristalina

vem expor sua beleza

Desnuda o corpo trigueiro

da roupa que solta o cheiro

De carimã e beiju

E aonde o banho ela toma

Deixa o gostinho de goma

Nas águas do Pajeú.

No verão os ceramistas

Trabalham todos os dias

São verdadeiros artistas

Dos lastros das olarias

Ali o barro amassado

É nas formas transformado

Em telha ou tijolo cru

E as chaminés das caieiras

Fumegam noites inteiras

Por cima do Pajeú.

Um carvoeiro suado

Com tisna até no pescoço

De tarde esconde o machado

E vai se banhar num poço

As suas mão estouradas

E pernas encalombadas

De ferrão do capuxu

Mas o seu cansaço estranho

Termina depois de um banho

Nas águas do Pajeú.

Escondidas nas juremas

aguardando o sol se pôr

Juritis e Seriemas

Gorjeiam notas de dor

Na vegetação rasteira

Lá no fim da capoeira

A corneta de um inhambu

Sonoriza a melodia

Da última canção do dia

Das matas do Pajeú.

Grande aorta sertaneja

De cavidades enormes

As chuvas que os céus despejam

Causam cheias desconformes

O São Francisco gigante

Lhe atalha mais adiante

Só ele quebra o tabu

Do mistério da grandeza

Da força da correnteza

Da cheia do Pajeú.

Nesse canteiro de flores

Que a natureza constrói

Seus gênios são cantadores

O vaqueiro é o seu herói

Sua memória completa

Com certeza algum poeta

Guardou no fim de um baú

Um livro com a história

A vida e a trajetória

Do povo do Pajeú.