
Estadão
O plano para a renovação de frota de caminhões no Brasil ganhou um capítulo decisivo. Com a regulamentação da Medida Provisória (MP) 1328, o governo federal destravou R$ 10 bilhões em recursos do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).
Apesar da boa notícia, para o transportador que planeja comprar um caminhão novo em 2026, o custo do financiamento segue como grande obstáculo.
Após um 2025 de retração, com queda de 9% nas vendas de veículos pesados, a indústria automotiva esperava um fôlego extra. Mas as regras atuais trazem desafios reais tanto para o caminhoneiro autônomo quanto para os grandes frotistas.
O crédito está disponível, mas o preço é considerado salgado. Os juros anuais do programa devem variar entre 13,32% e 14,89%.
Na ponta do lápis, esse patamar é muito próximo da Taxa Selic (hoje em 15%), o que faz com que o incentivo perca força frente ao financiamento de varejo, feito direto nos bancos.
Para Roberto Leoncini, consultor independente e ex-VP da Mercedes-Benz, o custo afasta quem precisa trocar o caminhão antigo por um modelo Euro 6 (Proconve P8). “O acesso ao crédito para o autônomo ainda é uma trava”, alerta.
Se o juro preocupa o pequeno, o teto de recursos é o gargalo das grandes empresas de transporte. A MP 1328 estabeleceu um limite de R$ 50 milhões por financiamento.
Para um grande operador logístico, esse valor é insuficiente para renovações robustas. Considerando que um caminhão pesado moderno tem alto valor agregado, o teto impede as compras volumosas que costumam movimentar as linhas de produção.
A lógica do novo programa de renovação de frota é a sustentabilidade, com a retirada de circulação de veículos antigos, mais poluentes. Para acessar o crédito do BNDES, o comprador precisa seguir critérios rígidos:
- Baixa do veículo: É obrigatório entregar a certidão de baixa do registro do caminhão antigo.
- Tecnologia: Caminhões novos devem atender às normas Proconve P8 (Euro 6).
- Seminovos: Devem ser fabricados a partir de 2012 (Proconve P7/Euro 5).
“O programa precisa ser perene para movimentar toda a cadeia, inclusive as empresas de desmontagem e reciclagem”, afirma David Wong, consultor da Alvarez & Marsal.
Diferente da MP 1175 de 2023, que oferecia descontos diretos, a estratégia atual foca no crédito de longo prazo (60 meses). Para o transportador, a decisão em 2026 passará por calcular se o spread do BNDES compensa o investimento imediato ou se vale aguardar uma queda nas taxas de juros para expandir a frota.





