03 – SEXTOU POÉTICO – O VELHINHO DO ROÇADO – 16.01.26

Por Ademar Rafael Ferreira (Papa)

Ade Maleu Lapa-el – Hoje nosso olhar alcança o poema “O VELHINHO DO ROÇADO”.

Papa – É sem dúvida alguma uma das mais perfeitas obras de um cantador de viola. Expedito Sobrinho mergulha nos “Mares do Sertão” para pescar esta obra prima que narra com extrema perfeição a vida do homem da roça.

 

Está vendo aquele velhinho

que anda todo envergado,

foi de trilhar no caminho

que o levava ao roçado,

todo dia bem cedinho,

tomava seu cafezinho,

com pão, bolacha ou cuscuz

saía bem satisfeito,

cantando dentro do peito,

os benditos de JESUS.

 

Lá na Pedreira Lavrada,

quando amanhecia o dia,

batia logo a enxada

e para o roçado seguia,

saía cedo e voltava

e da luta não se enfadava,

pois era robusto e forte,

hoje soluça dizendo,

meus olhos já estão vendo

os negros grilhões da morte.

 

Até a enxada sente

suas lembranças passadas,

não sente assim como a gente,

mas com as mãos calejadas,

o caminho do roçado

está com mato tapado,

e o velhinho lembrando

das pedrinhas que pisava,

onde passava e cantava,

hoje recorda chorando.

 

Se senta lá no batente,

acende o cachimbo e fuma,

o peito velho não sente,

quase alegria nenhuma,

mas não esquece o roçado,

vendo a enxada de lado

a ferrugem dando nela,

e o velho sem alegrias

lembra as centenas de dias,

que puxou no cabo dela.

 

Para acalentar seu choro,

tinha a velhinha coitada,

um velho chapéu de couro,

um cachimbo e a enxada,

e o cachorrinho veludo,

que acompanhava em tudo,

com o tempo, está além,

hoje passadas não faz

que o dono não pode mais

e nem ele pode também.

 

Lá o cachorro morreu

e a velha morreu também,

daí tudo enegreceu,

fica o velho sem ninguém,

ninguém lhe dava comer

e ele sem poder fazer,

vendo a companheira morta,

levantou-se da esteira

e sentou-se a vez derradeira

lá no batente da porta.

 

Lá o cachimbo acendeu,

respirando bem baixinho,

abriu a boca e morreu,

virado para o cantinho,

a mão direita estirada,

para o cabo da enxada,

companheira do passado,

pela ferrugem comida,

e assim terminou a vida

do VELHINHO DO ROÇADO.

 

Hoje quem por perto passa

vê na beira da estrada,

do cachorrinho, a carcaça,

vê do velhinho, a enxada.

Vê solitária a palhoça

e vê o caminho da roça,

parecendo algum deserto,

escuro como carbono,

somente porque seu dono

nunca mais passou por perto.