26 – SEXTOU POÉTICO – Sonetos – Manoel Filó

Por Ademar Rafael Ferreira (Papa)

Ade Maleu Lapa-el –  Neste dia a destaque será para o genial Manoel Filó.

Papa – Manoel Filomeno de Menezes (Manoel Filó), um dos maiores poetas que tive o privilégio de conviver. Seus achados poéticos superam com folga a maior média das notas sobre o assunto. Do seu magistral livro “As Curvas do Meu Caminho”, retiro os sonetos “Do Outro Lado da Vida” e “Meu Testamento”, que representam uma gota minúscula do seu oceano de poesias.

 

Não morremos, acontece apenas

Nos prepararmos para o julgamento

Os filmes passam ficarão as cenas

Despercebidas pelo firmamento.

 

Quebram-se as base de ilusões terrenas

Sofre a matéria o desmoronamento

As almas voam regiões serenas

Bem muito acima donde passa o vento.

 

Lá não se erra, não se faz barulho

Ninguém se exalta, não se exibe orgulho

Tudo se porta como o Pai consente.

 

Os espíritos vagando aguardarão

Esperando alcançar a salvação

Quando Deus mandar Cristo novamente.

 

Pelo amor de Deus, quando eu morrer

Meu melhor terno que estiver guardado

Seja leva à praça pra vender

Doando o prêmio a um ser abandonado.

 

Quero um servo de Deus pra me benzer

Os pés descalços, o caixão furado

Um prédio ao céu, ninguém consegue erguer

Salvação não se compra, o reino é dado.

 

Vou doar, por escrito, algum pedaço,

Os rins, as vistas, coração e baço;

Outros órgãos também se for preciso;

 

Se Deus me der direito a salvação

Não é roupa bonita e nem caixão

Via de acesso para o paraíso.

25 – SEXTOU POÉTICO – ‘Em versos, Os sonhos’ – Maviael Melo

Por Ademar Rafael Ferreira (Papa)

Ade Maleu Lapa-el – Nesta data destacaremos o poeta Maviael Melo, filho do Pajeú.

Papa – O filho de Heleno Louro e Maria de Lourdes, irmão de Maciel Melo, nasceu em Iguaracy (PE), e tem brilho próprio. É para mim grande “tangerino de palavras rimadas, poesias puras pelas veredas do Sertão”. Do seu livro “Ciclos”, segunda edição de 2011 retiro o atemporal poema “Em versos, Os sonhos”, uma das lindas obras desse poeta fantástico pouco lido em sua terra.

 

Tinha alegria, era um conto de fadas

Havia conflitos de sonhos reais

Sem força de espada, conflito de paz

E era a palavra que em prosa trocadas

Mostrava que o tempo corria às passadas

Querendo mostrar que havia solução

Em cada palavra pegando na mão

Formavam-se ideias com democracia

E a todos iguais pelo que merecia

A força do traço era aquela união.

 

Ali se aprendi que um grande futuro

Em si dependia da educação

E cada ideia e qualquer cidadão

Era respeitado seu voto seguro

Andar lado a lado, respeitando muro

Levando a certeza do lado que for

Sabendo-se em mente que o bom criador

Semeia igualdade mostrando caminhos

Criando raízes, tecendo-se os linhos

Garantindo a luta do trabalhador.

 

Naquelas paragens reinava alegria

Não havia entre povos tantas diferenças

Em uma só raça! E todas suas crenças

Tinha seu mérito quando o merecia

A luta era igual no que se discutia

E se a cada mão dada criava outro laço

Em outra passada no mesmo compasso

Sorvia as distâncias pela igualdade

Ali cada um tinha a sua metade

Pra se completar na massa e no traço.

 

Que formam as escalas, que seguem seu canto

De punhos cerrados querendo direitos

Homens e mulheres não sendo perfeitos

Nem sempre a beleza é completa de encanto

E toda arrogância tem dias de pranto

O céu é pra todos, pois todos iguais

Teremos somente o que nos satisfaz

Sigamos lutando ao que merecemos

Assuma sua voz e junto marchemos

Pra logo adiante encontrar nossa paz.

24 – SEXTOU POÉTICO – Cantador e Ghandi – Oliveira de Panelas

Por Ademar Rafael Ferreira (Papa)

Ade Maleu Lapa-el –  Destacaremos nesta data o poeta Oliveira de Panelas.

Papa – Oliveira Francisco de Melo, que assumiu o nome Oliveira de Panelas em homenagem a cidade onde nasceu, é uma das grandes referências do mundo da cantoria de viola. Intérprete genial, dotado de alta sensibilidade, defensor da tese que a cantoria poderia ter mais cooperação do que competição, músico, etc. Do seu livro “Oliveira Panelas”, de 2001 retiro os trabalhos “O cantador” e “Ghandi”, sua obra é do tamanho do mundo.

 

Repentista, poeta, cantador,

Teu cantar livremente se levanta

É teu grito holocausto da garganta

Como quem quer matar a própria dor,

Há um toque de sonho e de amor

E um namoro da musa passageira,

Teu cantar rasga o peito a vida inteira,

No tangente de lira nordestina

Tua voz uma eterna clandestina

Musicando a grandeza brasileira.

 

Indomável titã do improviso

Quando cantas levita tua mente,

Na cadência veloz do teu repente

Solta fogo invisível, teu juízo,

Quando buscas cantando um paraíso

São fugazes demais as alegrias,

Tua verve vestida de poesias

Faz de ti condutor de emoções,

Pescador de fantásticas ilusões

E caçador das mais belas fantasias.

 

Lá na Índia distante nasceu Gandhi

Homem gênio, um apóstolo, um deus herói,

Um amante das obras de Tolstói

Co provou seu valor de alma grande,

Do seu lar fez viagem para Dandi.

Adorava a passiva resistência,

Foi convicto, contrário à violência,

Fez seu povo vencer sem fazer guerra

Boicotou o governo da Inglaterra

Pondo a Índia em total independência.

 

Defensor de plebeus e camponeses

Superou violência com a calma

Toda Índia chamou-o de grande alma

Libertando seu mundo dos ingleses.

Condenado à prisão por várias vezes

Por ser sempre a favor do infeliz

Foi à África e cortou pela raiz

Todo mal que seu povo padecia

Fez justiça à sofrida maioria

E tombou morto salvando seu país.

 

O decálogo de Gandhi é verdade

Nos ensina vencer sem violência

São os homens iguais por excelência

Nas crianças não há desigualdade

É virtude manter a castidade

Sê frugal, jejuando faz o bem

Ajudar o seu próximo que não tem

O supérfluo se faz desnecessário

Do suor sê honesto em seu salário

Não ter medo de nada e de ninguém.

23 – SEXTOU POÉTICO – SONETOS – JATOBÁ

Por Ademar Rafael Ferreira (Papa)

Ade Maleu Lapa-el –  O foco nesta data é o poeta paraibano Jatobá.

Papa – Apresentamos hoje o colega aposentado do Banco do Brasil, nascido em São José de Piranhas (PB) e batizado como Antônio Aldenir da Silva. É sem dúvida nenhuma um dos maiores poetas de bancada do Brasil. Suas produções além de uma métrica impecável trazem altos níveis de sensibilidade e oralidade. Os sonetos “Tributação Compulsória” feito na passagem dos setenta anos do poeta e “O Canhoto no Direito” dedicado ao filho Bertonio Feitosa da Silva, durante missa em ação de graças na festa de conclusão da graduação em Direito, merecem ser lidos e guardados na alma.

 

Eu não quis aceitar, quanta tolice!

A cobrança voraz e compulsória

Deste imposto brutal da trajetória

No boleto que chega na velhice.

 

Fui isento na minha meninice,

Mocidade sem nota promissória

No capítulo final da minha história

Eu sonhava que a taxa não subisse.

 

O carrasco do tempo vem cobrar:

Este débito difícil de pagar

Pelo prazo tão curto estipulado.

 

Ansioso eu estou na prateleira,

Parecido demais final de feira

O que tinha de bom já foi comprado.

 

Ao direito o canhoto bem se apega,

Mergulhado nos livros do saber

E na luz consciente do dever

Com o corpo e com alma ele se entrega.

 

Bom espírito do justo ele carrega,

Mais a força sublime do querer

Para nossa justiça poder ver

E mudar esse dito de que é cega.

 

O palácio da lei visto tão nobre

Igualmente julgando rico ou pobre

Para todos abrindo as suas portas.

 

Nessa busca Bertonio estará perto

Porque sabe que Deus escreve certo

O direito da vida em linhas tortas.

22 – SEXTOU POÉTICO – Agradecimento – Danizete Siqueira Lima

Por Ademar Rafael Ferreira (Papa)

Ade Maleu Lapa-el –  O destaque nesta sexta-feira é para o poeta Danizete Siqueira Lima.

Papa – Da sua vasta obra poética extraímos o trabalho “Agradecimento”, escrito em 2023. Nele o poeta da Barra de Solidão expõe de forma clara um sentimento que traduz o seu jeito sertanejo de ser. Segue a linha de grandes poetas ao narrar o pedaço de chão chamado Sertão com competência extrema.

 

O Sertão é o meu berço

Lugar onde eu pinto e bordo

Por isso quando me acordo

A Deus pai já agradeço

Morar aqui não tem preço

Fujo da poluição,

Zoada de camburão

E acidente em rodovia

AGRADEÇO TODO DIA

PORQUE NASCI NO SERTÃO.

 

Junto com minha família

Numa morada singela

Sem a “geração Nutella”

Dos ricaços de Brasília

É pouca a minha mobília

Mas nos dá satisfação

Temos água, roupa e pão

Sem precisar correria

AGRADEÇO TODO DIA

PORQUE NASCI NO SERTÃO.

 

Aqui bebo água da fonte

Melhor do que mineral

Vacas leiteira em curral

As que tenho não há quem conte

Vejo o sol no horizonte

Dissipando a escuridão

Me recolho em oração

Na hora da Ave Maria

AGRADEÇO TODO DIA

PORQUE NASCI NO SERTÃO.

 

Não invejo o litoral

Nem as mansões luxuosas

Prefiro as tardes chuvosas

Que aguam meu milharal

O meu hobby principal

É festa de apartação

E os festejos de São João

Completam minha alegria

AGRADEÇO TODO DIA

PORQUE NASCI NO SERTÃO

 

Quem quiser vá pra cidade

Correr atrás de chamego

Mendigar algum emprego

Perto da civilidade

Nunca tive essa vontade

Nem morro de precisão

Pois aqui no meu torrão

O que faltar Deus envia

AGRADEÇO TODO DIA

PORQUE NASCI NO SERTÃO.

21 – SEXTOU POÉTICO – Catedrais do Ideal – Neném Patriota

Por Ademar Rafael Ferreira (Papa)

Ade Maleu Lapa-el –  Daremos destaque hoje para o poeta e educador Neném Patriota.

Papa – Do extraordinário livro “Casebres, castelos e catedrais” eu retiro o poema “CATEDRAIS DO IDEAL” pela sua abrangência quando olhado com a nossa percepção humana ao nos mostrar além do que está escrito. É uma aula de poesia, filosofia, sociologia e leitura ampliada do mundo ideal. Nele Chárliton Patriota Leite honra a tradição do seu berço poético e da sua luta em favor da cultura raiz e da justiça social.

 

Um gesto de amizade

A defesa da verdade

Apoio, fraternidade

Ideais, lutas, bandeiras

Identidades guerreiras

Que cumprem com seu papel

São o retrato fiel

De CATEDRAIS verdadeiras.

 

Um pai que orienta os filhos

Uma mãe nos mesmos trilhos

Um órfão seguindo os brilhos

Da criação recebida

Uma batalha vencida

Um abraço fraternal

São o retrato real

Das CATEDRAIS dessa vida.

 

Lavrador arando terra

O perdão para quem erra

A paz vencendo um guerra

As crianças bem tratadas

Pessoas humanizadas

Os anciões respeitados

São os retratos sagrados

Das CATEDRAIS consagradas.

 

Igualdade de direitos

Com os princípios e conceitos

Sem cultivar preconceitos

E sem a falsa moral

A defesa ambiental

O bem-estar coletivo

São o retrato mais vivo

Das CATEDRAIS DO IDEAL.

20 – SEXTOU POÉTICO – Sonetos – Dimas Batista

Por Ademar Rafael Ferreira (Papa)

Ade Maleu Lapa-el –  Hoje falaremos sobre Dimas Batista, grande poeta do Pajeú.

Papa – Este fenomenal cantador deixou o Pajeú para residir no Ceará, sobre ele o Vale do Jaguaribe conta histórias maravilhosas. Registramos abaixo dois dos seus inúmeros sonetos. “As Três Cruzes” e “Lázaro Redivivo”.

 

O Cordeiro de Deus Imaculado

Foi ao Monte Calvário conduzido,

Tendo, à esquerda, um ladrão obstinado

E, à direita, um ladrão arrependido.

 

Um persiste no mal, é condenado

Outro zomba do mal, é redimido

E, com o extremo da vida em cada lado,

Agoniza o Messias Prometido.

 

Na cruz do lado esquerdo o mal negreja

Na do lado direito o bem reluz

Na do centro há o amor que fez a Igreja.

 

Todos nós conduzimos uma cruz

Permiti…Oh Senhor! Que a minha seja

A do lado direito de Jesus.

 

No sepulcro, já Lázaro jazia

Há três dias. Mas Cristo com ternura,

Vendo o pranto de Marta e de Maria,

Fê-lo erguer-se feliz, da sepultura.

 

Quantas vezes relendo eu refletia

Nesse quadro sagrado da Escritura…

Ao sentir o Nordeste na agonia

Ante a lepra da seca que o tortura.

 

Há milhares de Lázaros na “cova”

Mas o céu veste a fonte que renova

Do milagre a dinâmica bendita…

 

Sempre assim, reproduz-me “grande cena”

O Nordeste este irmão de Madalena

Que morrendo mil vezes ressuscita.

19 – SEXTOU POÉTICO – Reconhecimento – Diomedes Mariano

Por Ademar Rafael Ferreira (Papa)

Ade Maleu Lapa-el –  Vamos neste dia, em homenagens às mães, falar sobre uma das obras do poeta Diomedes Mariano.

Papa – Detentor de um talento extraordinário o filho de Dona Zezinha, no poema hoje apresentado, expõe em estrofes perfeitas um dos maiores tributos às mães que li em minha vida: Reconhecimento.

 

Mamãe sempre na sua companhia,

Levei vida de rei, ganhei tesouro,

Toda vez que eu chorava você ia,

Perguntar o motivo do meu choro,

Chá caseiro, injeção, papa no dedo,

Fosse tarde da noite ou fosse cedo,

Você sempre trazia se eu pedisse,

Generosa, bondosa, meiga e mansa,

Até hoje eu conservo na lembrança,

As palavras de amor que você disse.

 

No seu colo macio eu me deitava,

No batente da porta do chalé,

Qual criança manhosa eu cochilava,

Nos impulsos das mãos no cafuné,

Dez minutos depois adormecia,

Seu cuidado era tanto que eu nem via,

Quando ia pra rede nos seus braços,

Registrava-se ali mais uma cena,

Numa rede de saco tão pequena,

Que somente a senhora achava espaços.

 

Aprendi a seguir todo conselho,

Atirado por sua boca mansa,

O seu gesto fraterno era um espelho,

Me mostrando perfeita segurança,

Numa noite invernosa de janeiro

Se eu estivesse brincando no terreiro,

Você ia correndo pra o oitão,

No calor dos seus braços me acolhia,

Com um trapo de saco me cobria,

Se molhava na chuva, mas eu não.

 

Quando muito criança me arrastei,

No cimento do lar lhe acompanhando,

As primeiras passadas que eu dei,

Foram todas você me auxiliando,

Aprendi a falar pouco depois,

Quase sempre a conversa entre nós dois,

Era em torno de mim, de meus irmãos,

De papai, da senhora e tudo enfim,

A colheita do bem que veio a mim,

Foi plantada mamãe, por vossas mãos.

 

Tinha quase certeza e sinto agora,

Que somente ao seu lado eu fui feliz,

Cada ruga do rosto da senhora,

Tem resquícios das raivas que lhe fiz,

Cada fio de prata do cabelo,

Contraria a imagem e o modelo,

Desta santa de carne toda minha,

Cujo tempo infeliz impôs estragos,

Sem roubar o calor dos seus afagos,

Nem lhe tomar o império de rainha.

 

De nós dois qual que mais se prejudica,

Quando o tempo disser que nos venceu?

Eu partindo primeiro você fica,

Você indo primeiro fico eu,

De uma forma ou de outra o quadro é triste,

Eu prefiro partir porque existe,

Quem precisa aliar-se ao seu partido,

Todo juro saudoso é alta a taxa,

Se eu me perder na ida Deus me acha,

Se eu ficar sem você estou perdido.

18 – SEXTOU POÉTICO – Sertanejo – Dudu Morais

Por Ademar Rafael Ferreira (Papa)

Ade Maleu Lapa-el – Neste dia dedicado ao trabalhador vamos falar sobre um poema de Dudu Morais dedicado ao homem do Sertão.

Papa – A contundência e a intensidade dos poemas de Duda Morais assinalavam uma mensagem que não conseguimos captar com a clareza necessária. O menino poeta de Tabira nos deixou muito cedo, sua obra atravessará décadas. Escolhemos o poema “SERTANEJO” por expressar o amor do jovem poeta e advogado por sua terra. Faz parte do  livro “Nas Rédeas da Poesia’, de 2010, ano que o autor tinha apenas vinte anos.

 

Do meu belo Sertão não me separo

Quando ouço a cantiga do pardal,

Dois bois mansos deitados no curral

Esperando que o dia fique claro.

Da janela do quarto me deparo

Co’as galinhas descendo do poleiro,

Dois frangotes brigando no terreiro

E andar “avexado” de uma pata;

Mas na frente um cachorro vira lata

Amarrado num “pé de juazeiro”.

 

Meu café, quase sempre tomo puro,

Encostado na porta da cozinha.

Vejo a horta de coentro e batatinha

Que eu sozinho plantei detrás do muro.

Faço um suco de maracujá maduro,

Meio azedo sem ter muita doçura.

Uma carne de charque é a mistura,

Com um doce qualquer por sobre mesa

E encostado na quina de uma mesa

Eu almoço feijão com rapadura.

 

Vez por outra, ao açude me destino

Com um carro de boi e eu no meio.

O tambor foi seco volta cheio

E a boiada co’o peso bate o sino.

Mas na volta pra casa meu menino

Na carreira de jegue me alcança.

Nos fueiros do carro se balança,

Imitando eu falar com a boiada

E essa junta, de tão acostumada,

Obedece aos comandos da criança.

 

Logo após um trabalho tão forçado,

Reconheço o esforço dos meus bois,

Corto palma que dê pra todos dois,

Inda trago capim lá do roçado.

Num aboio, recolho todo gado

Que, ao me ouvir, de onde está logo regressa

Um bezerro mais novo anda com pressa,

Remoendo bagaços da campina

“Escramuça”, dar coice e se empina

Não tem cena mais linda do que essa.

17 – SEXTOU POÉTICO – Manhã de Chuva – CANCÃO

Por Ademar Rafael Ferreira (Papa)

Ade Maleu Lapa-el Nesta data vamos destacar uma das obras de João Batista de Siqueira, o Cancão.

Papa – Mergulhar no oceano de obras primas de Cancão é dele trazer somente um peixe, é missão que não sugiro a ninguém, mas, como tenho que escolher optei pelo poema ‘Manhã de Chuva”, fez parte dos livros “Musa Sertaneja” e “Meu Lugarejo”, e vem logo no início de exuberante livro “Palavras ao Plenilúnio”, nele o maravilhoso poeta nos mostra porque é taxado como gênio.

 

As andorinhas no rio

Passam baixinho voando

Como crianças brincando

Num lago vasto e sóbrio

O mangueiral do baixio

Sente a chuva, estende a rama

No chão, a verdosa grama

Se serve do mesmo orvalho

Que o vento agitando o galho

A folha treme e derrama.

 

Do sopé da cordilheira

As pequeninas correntes

Se despenham diligentes

Em busca da cachoeira

O xexéu, na aroeira

Olha toda a redondeza

Diante tanta beleza

Se sente todo encantado

Pensa ser o namorado

Mais fiel da natureza.

 

Dentro do bosque cerrado

A vegetação cochila

Levanta a fronde tranquila

Sentindo o tronco lavado

Dentro do emaranhado

Que à tarde a sobra rodeia

A ema, lenta, passeia

Em um constante arrepio

Já enfadada do frio

Que a mão da brisa semeia.

 

Passa perto da palhoça

Um boi em lenta passadas

Fazendo as suas pisadas

No balanço da carroça

Vai a tabaroa à roça

Em um ar aborrecido

No caminho mais seguido

Buscar água no regato

Se defendendo do mato

Pra não molhar o vestido.

 

Caminha o rebanho lento

Do arvoredo vizinho

À procura do caminho

Do planalto lamacento

No campestre friorento

A planta alegre se agita

A flor sorri e palpita

Sentindo os ventos medonhos

Lá dos recantos tristonhos

Que o gênio da sombra habita.

 

O vento passa maneiro

Pelo campo rociado

Fingindo um céu esmaltado

Coberto de nevoeiro

Na baixada, um ingazeiro

Sente vigor, se renova

Como nos dando um prova

Se mostra todo florido

Entre o multicolorido

Dum mundo de rama nova.

16 – SEXTOU POÉTICO – Vim vender-te do Meu Peixe – Vinícius Gregório

Por Ademar Rafael Ferreira (Papa)

Ade Maleu Lapa-el –  Vamos falar hoje sobre o jovem poeta Vinícius Gregório.

Papa – Este jovem poeta egipciense agrada poetas veteranos, poetas da sua geração e serve de inspiração para poetas mais novos. O poema abaixo foi escolhido por representar uma intervenção em evento realizado em sua São José do Egito e por  sintetizar de forma esplêndida um sentimento poético. Faz parte do livro ‘Hereditariedade”, publicado em 2008 quando o poeta estava com vinte e um anos.

 

“Tô” feliz, minha terra da poesia

Por trazer os meus versos só pra ti!

Foi aqui nessa terra que nasci,

Que aprendi com teu povo dia-a-dia,

A gostar de repente e cantoria,

Ao sentir o teu sol queimando em feixe.

Quem não quer me escutar, favor, me deixe!

Mas quem queira me ouvir, puxe a cadeira

Que eu não “Tô” e nem vim pra brincadeira

Pois eu vim para vender-te do meu peixe.

 

E o meu peixe é meu verso, é minha vida…

É meu canto de paz e de esperança.

Ele canta a inocência da criança,

Faz a vida ficar mais bem vivida,

Canta a dor da saudade e da partida,

Fica meigo e verseja uma paixão,

Canta a fé, a tristeza e a solidão,

Canta até um galope a beira mar!

Mas quer ver o meu verso se inspirar?

Então peça que cante o meu Sertão.

 

E o meu peixe, eu já digo de antemão…

Não peixe graúdo, nem pesado,

Mas é peixe rebelde e abusado,

“Né” qualquer “anzolzim” que o pega não.

O meu peixe é nascido no Sertão,

Tem a cara qualquer de qualquer Zé

Tem o cheiro da manga “inda” no pé.

Ele é duro igual casco de Tatu.

Ele vive no rio Pajeú

E aprendeu a nadar em São José.

 

E o meu peixe nadou, desceu os rios…

Foi parar lá no mar da capital,

Mas meu verso, por lá, sentiu-se mal…

Deu a volta, enfrentou os desafios…

De subir esses rios tão bravios,

De enfrentar a corrente e cansaço,

E se for pra fazer de  novo, eu faço,

Só pra vir pra esse canto tão bonito.

Eu voltei, minha São José do Egito.

“A saudade me trouxe pelo braço”!

15 – SEXTOU POÉTICO – Criança Morta – Sebastião da Silva

Por Ademar Rafael Ferreira (Papa)

Ade Maleu Lapa-el –  Vamos visitar hoje a obra do paraibano Sebastião da Silva.

Papa – Nesta canção “Criança Morta” o poeta de Pilõezinhos (PB), narra uma fatalidade com carga emocional destacável sob vários ângulos. Umas das canções mais tocadas em todos os tempos nas emissoras de rádio do Nordeste.

 

“Criança Morta”

 

Dos poemas que escrevi

Por meio da inspiração

Este é o mais comovente

Porque tem a narração

De um dos casos mais tristes

Que já se viu no Sertão.

 

Trata-se de uma menina

De uma beleza extrema

De quatro anos de idade

Com quem se deu o problema

E tornou-se a central figura

Das emoções do poema.

 

Edinete era seu nome

Que lembramos com pesares

Filha de Rita Alzira

E Expedito Soares

Casal pobre, mas bem quisto

Por todos os familiares.

 

No município Riacho

dos Cavalos, terra amena

No Sertão paraibano

Aonde os pais da pequena

Moram e ainda hoje

E lamentam a triste cena.

 

Vinte e sete de novembro

Do ano setenta e seis

Pelas três horas da tarde

Ou pouco antes talvez

Os pais de Edinete

A viram viva pela última vez.

 

Pois a criança brincando

No pátio da moradia

Se entretendo com árvores

Ou com animais que a via

E pouco a pouco entrou no mato

Sem saber pra onde ia.

 

Quando a mamãe sentiu falta

Da sua filha querida

Chamou-a diversas vezes

Já bastante comovida

Aí notou que a criança

Já se achava perdida.

 

Alarmou pra vizinhança

E começou a chegar gente

Pra procurar a criança

Todos apressadamente

Anoiteceu e ninguém

Encontrou a inocente.

 

E assim passaram três dias

Procurando sem parar

De 80 a 100 pessoas

Podia se calcular

Todos a sua procura

Mas ninguém pode encontrar.

 

Na manhã do dia trinta

Já todos sem esperança

No lugar Serra dos Bois

Num talhado que se avança

Neste local esquisito

Acharam morta a criança.

 

Morreu de fome e de sede

Em situação singela

Mais ou menos 6 km

Do local pra casa dela

As folhas foram seu leito

E a Lua serviu de vela.

 

Quando espalhou-se a notícia

Que a menina faleceu

Foi muita gente foi ao local

Aonde a morte a venceu

Vão fazer uma igrejinha

No canto que ela morreu.

 

Todos seus irmãos lamentam

Os pais lamentam também

Chorou toda vizinhança

Porque lhe queria bem

E Deus aumentou a conta

Dos muitos anjos que tem

E Deus aumentou a conta

Dos muitos anjos que tem.

14 – SEXTOU POÉTICO – Maria das Graças – Jansen Filho

Por Ademar Rafael Ferreira (Papa)

Ade Maleu Lapa-el –  Hoje nosso foco é direcionado para Jansen Filho, poeta de Monteiro (PB).

Papa – Este poema “Maria das Graças” foi musicado e gravado por muita gente, trata-se de uma das obras primas desse poeta paraibano que poucos conhecem.

 

Lá vem Maria das Graças

Por onde Maria passa

Provoca uma confusão

Para tudo e de repente

Para bonde e lotação

Para ônibus, para trem

No meio da população

Somente escutando a graça

E Maria das Graças passa

Sem fazer graça a ninguém

 

Maria das Graças mora

No fim da rua da aurora

No bairro da liberdade

E habita um tosco mocambo

Sem a menor bela idade

E todo mundo já sabe

Que a noite a Lua sutil

Atira beijos de prata

Sobre o mocambo de lata

Da mulata mais mulata

Das mulatas do Brasil

 

Faz tempo que ninguém ver

Maria não sei porque

O mocambo está fechado

E povo todo interroga

Por onde ela tem andado?

Enquanto a pergunta cresce

A Lua desaparece

E só tristeza floresce

No mocambo abandonado.

 

Mas sabe o que fez Maria?

Juntou o que possuía

E partiu para estação

Entrou no trem apressada

Debruçou-se num vagão

Soltou um suspiro imenso

Sonhou com outra cidade

Depois chorou de verdade

Encarcerando a saudade

Na gaiola do seu lenço.

 

O trem apitou partiu

Maria sentou-se e riu

Olhos tristes corpo bambo

E acenava comovida

Em direção ao mocambo

Entre apitos infernais

O trem corria corria

Pressuroso parecia

Que enciumado dizia

Maria não volta mais

A Maria, não vem mais

Maria não volta mais.

 

O bairro o povo o mocambo

Tudo ficou para trás

A Maria não vem mais

Maria não volta mais

A Maria não vem mais

Maria não volta mais.

13 – SEXTOU POÉTICO – NORDESTINAÇÃO – DAUDETH BANDEIRA

Por Ademar Rafael Ferreira (Papa)

Ade Maleu Lapa-el –  Vamos falar hoje sobre Daudeth Bandeira.

Papa – O poema que hoje transcrevo é, sob meu ponto de vista o mais completo passeio que um poeta popular fez no Nordeste. Vale muito a pena ler atentamente ‘NORDESTINAÇÃO”.

 

Maranhão, no nordeste do país,

É estado de credibilidade!

Deve ter representatividade

Que enaltece o valor de São Luís!

Sua grande cidade, Imperatriz,

Se mantém numa ótima posição,

Bacabal, Capinzal formosas são,

Grajaú, Dona Inês, Codó, Caxias

A cidade que deu Gonçalves Dias,

O maior menestrel do Maranhão!

 

E o Nordeste é meu,

O Nordeste é teu!

E o Nordeste é meu,

O Nordeste é teu!

 

Teresina cresceu, eu percebi,

E é de puro mister que ela exiba

O valor que existe em Parnaíba

Picos, Campo Maior, Piripiri,

O romântico Sertão do Piauí,

De Baixio, Chapadas e Alcantis,

Fez Domingos Fonseca ser feliz,

Palmilhando as estradas do destino.

O maior repentista nordestino

E um dos grandes poetas do pais!

 

E o Nordeste é meu…

 

Fortaleza do herói Dragão do Mar,

Tens o brilho dos olhos de Iracema,

Teu passado se envolve no poema

De Rachel de Queiroz e de Alencar.

Teu presente te deixa singular,

Com a modernidade que te veste:

Desde as Praias do Sol, a Leste-Oeste,

Teus verões, teus invernos, teus luares,

Fazem em ti Capital dos Verdes Mares,

O cartão de visitas do Nordeste!

 

E o Nordeste é meu…

 

Em Natal tem turismo e Carnatal,

E vai ter, como peça de estudo,

Uma estátua de Câmara Cascudo,

Bem no meio daquela capital!

Já possui uma Base Espacial,

Que é chamada Barreiras do Inferno,

Mas, por meio de método moderno

Se constrói outro novo equipamento,

Bota asas no nosso pensamento

E se alcança a Mansão do Pai Eterno!

 

E o Nordeste é meu…

 

Esmerada cidade, João Pessoa,

De Américo, de Alcides, de Zé Lins!

Entre as árvores frondosas dos jardins,

Um poema de Augusto ainda ecoa!

As robustas palmeiras da Lagoa

Dão a ti elegância tropical.

O teu busto, na orla litoral

Se arrepia de amor, ouvindo o cântico

Entoado nas ondas do Atlântico,

Sua grande paixão oriental!

 

E o Nordeste é meu…

 

E Recife, metrópole nordestina,

Na cadência do seu Capibaribe,

Adormece escutando o Beberibe,

E se acorda com gritos de usina.

Frevo, Maracatu e Colombina

Aparecem nos novos carnavais.

Está vivo, nas páginas dos Anais

Quem cantou o Torrão Pernambucano,

Igualmente Olegário Mariano

Um Ascenso Ferreira e outros mais!

 

E o Nordeste é meu…

Maceió, capital alagoana,

Sua Chã de Jaqueira é joia rara,

Bebedouro, Farol e Pajuçara,

Revelando a visão meridiana!

Rodeada de praia, coco e cana,

É um prato, no meio da fartura!

E essa grande riqueza se mistura

Com as coisas que mais admiramos:

Só o nome Graciliano Ramos

Encabeça um capítulo de cultura!

 

E o Nordeste é meu…

 

Vem Sergipe, com sua Aracaju,

E cada uma cidade sergipana,

São Cristóvão, Lagarto, Itabaiana,

Que é o chão do Nelore e do Zebu!

Mandioca, feijão, milho e caju,

E laranjas do chão fertilizante

O Sergipe, pra mim, é importante

Que, apesar de estado pequenino

É um gigante com cara de menino

E um menino com forças de gigante!

 

E o Nordeste é meu…

 

Salvador é o berço maternal

De Caymmi, Caetano, Gal e Gil,

Não conheço outro povo no Brasil

Com o mesmo talento musical!

Rui Barbosa foi nosso pedestal,

Castro Alves, Poeta Condoreiro,

Jorge Amado é o grande noveleiro

Sua fama não para de crescer!

E tem que ser nordestino pra saber

O valor do Nordeste Brasileiro!!!

 

E o Nordeste é meu…

12 – SEXTOU POÉTICO – PALHAÇO QUE RI E CHORA – LOURIVAL BATISTA

Por Ademar Rafael Ferreira (Papa)

Ade Maleu Lapa-el –  Nosso olhar hoje será direcionado para Lourival Batista.

Papa – Jogar a bateia na mina poética do “Rei do Trocadilho” e dela extrair a melhor pepita é missão impossível, o poema abaixo transcrito do livro “Lourival Batista Patriota”, de Ivo Mascena Veras, é uma das belas joias facilmente encontradas.

 

PALHAÇO QUE RI E CHORA

 

Pinta o rosto, arruma palma

Dentre os néscios e sábios

O riso aflora-lhe os lábios

A dor tortura lhe a alma.

Suporta com toda calma

Desgostos a qualquer hora

Quando quer bem vai embora

Vive num eterno drama

Pensa, sonha, sofre e ama

Palhaço que ri e chora.

 

Se ama alguém com desvelo

Deixá-lo é martírio enorme

Se vai deitar-se não dorme

Se dorme tem pesadelo.

Sentindo um bloco de gelo

Lhe esfriando dentro e fora

Desperta, medita e chora.

Sente a fortuna distante

Julga-se um judeu errante

Palhaço que ri e chora.

 

Pelo destino grosseiro

A vida jamais lhe agrada

Se sente a alma picada

Tem que ir ao picadeiro.

Não pode ser altaneiro

Não tem repouso uma hora

Chagas dentro, rosas fora

Guarda espinho, mostra flor

Misto de alegria e dor

Palhaço que ri e chora.

 

Palhaço, tem paciência!

Da planície ao pináculo

O mundo é um espetáculo

Todos nós a assistência.

Por falta de consciência

Gargalhamos qualquer hora

Choramos sem ter demora

Sem ânimo, coragem e fé

Porque todo homem é

Palhaço que ri e chora