42 – SEXTOU POÉTICO – Poeminha do Contra – Mário Quintana

Por Ademar Rafael Ferreira (Papa)

Ade Maleu Lapa-el –  Nesta data nos visita o gaúcho Mário Quintana.

Papa – Mario de Miranda Quintana (Mário Quintana), nasceu em Alegrete (RS), em 30 de julho de 1906 e partiu para outra dimensão em 05 de maio de 1994 na cidade de Porto Alegre (RS). Poeta, tradutor e jornalista visto por muitos como uma das referências do modernismo do Brasil em sua segunda fase. Sua obra tem duas grandes características a linguagem simples e a abordagem de cenas e temas do cotidiano. Sua produção poética tem a leveza dos ventos brandos com mensagens contundentes como tempestades. Transcrevemos o seu famoso “O Poeminha do Contra”, “Deixa-me seguir para o Mar” e “O Espelho’.

 

“Todos esses que aí estão

Atravancando meu caminho,

Eles passarão…

Eu passarinho!”

 

Tenta esquecer-me… Ser lembrado é como

evocar-se um fantasma… Deixa-me ser

o que sou, o que sempre fui, um rio que vai fluindo…

Em vão, em minhas margens cantarão as horas,

me recamarei de estrelas como um manto real,

me bordarei de nuvens e de asas,

às vezes virão em mim as crianças banhar-se…

Um espelho não guarda as coisas refletidas!

E o meu destino é seguir… é seguir para o Mar, as imagens perdendo no caminho…

Deixa-me fluir, passar, cantar…

toda a tristeza dos rios é não poderem parar!

 

Por acaso, surpreendo-me no espelho:

Quem é esse que me olha e é tão mais velho que eu? (…)

Parece meu velho pai – que já morreu! (…)

Nosso olhar duro interroga:

“O que fizeste de mim?” Eu pai? Tu é que me invadiste.

Lentamente, ruga a ruga… Que importa!

Eu sou ainda aquele mesmo menino teimoso de sempre

E os teus planos enfim lá se foram por terra,

Mas sei que vi, um dia – a longa, a inútil guerra!

Vi sorrir nesses cansados olhos um orgulho triste…”.

41 – SEXTOU POÉTICO – O Monte e o Rio… – Pablo Neruda

Por Ademar Rafael Ferreira (Papa)

Ade Maleu Lapa-el –  Ingressa hoje em nosso universos o chileno Pablo Neruda.

Papa – Ricardo Eliécer Neftalí Reyes Basoalto, conhecido mundialmente como Pablo Neruda, nasceu em Parral – Chile, em 12 de julho de 1904, partiu deste mundo em 1973 dois anos após ser agraciado com o prêmio Nobel da Literatura. Renomado poeta e escritor, diplomata e político. Exerceu o cargo de Senador pelo Partido Comunista do Chile. Perseguido pelo regime imposto por Gabriel Gonzàlez Videla, deixou sua casa em Valparaíso e fugiu do pais. Conselheiro de Salvador Allende. Abaixo os poemas “O Monte e o Rio” e ”Integrações”.

 

Na minha pátria tem um monte.

Na minha pátria tem um rio.

Vem comigo.

A noite sobe ao monte.

A fome desce ao rio.

Vem comigo.

E quem são os que sofrem?

Não sei, porém são meus.

Vem comigo.

Não sei, porém me chamam

e nem dizem: “Sofremos”

Vem comigo

E me dizem:

“Teu povo,

teu povo abandonado

entre o monte e o rio,

com dores e com fome,

não quer lutar sozinho,

te está esperando, amigo”.

Ó tu, a quem eu amo,

pequena, grão vermelho

de trigo,

a luta será dura,

a vida será dura,

mas tu virás comigo.

 

Depois de tudo te amarei

como se fosse sempre antes

como se de tanto esperar

sem que te visse nem chegasses

estivesses eternamente

respirando perto de mim.

Perto de mim com teus hábitos,

teu colorido e tua guitarra

como estão juntos os países

nas lições escolares

e duas comarcas se confundem

e há um rio perto de um rio

e crescem juntos dois vulcões.

40 – SEXTOU POÉTICO – Poema – Ferreira Gullar

Por Ademar Rafael Ferreira (Papa)

Ade Maleu Lapa-el –  Espaço aberto nesta sexta-feira para Ferreira Gullar.

Papa – José Ribamar Ferreira (Ferreira Gullar), nasceu em São Luís do Maranhão em 10 de setembro de 1930, mesmo sabendo que os poetas não morrem ele nos deixou há dez anos. Destacado poeta, escritor, crítico de arte, tradutor, ensaísta, etc. Imortal da Academia Brasileira de Letras e festejado como um dos mais importantes intelectuais brasileiros. Da sua expressiva floresta de poesias extraímos o poema “Traduzir-se”, musicado magistralmente por Raimundo Fagner e o metapoema “A Poesia”. Duas pelas produções poéticas.

 

Uma parte de mim

é todo mundo:

outra parte é ninguém:

fundo sem fundo.

Uma parte de mim

é multidão:

outra parte estranheza

e solidão.

 

Uma parte de mim

pesa, pondera:

outra parte

delira.

Uma parte de mim

almoça e janta:

outra parte

se espanta.

 

Uma parte de mim

é permanente:

outra parte

se sabe de repente.

Uma parte de mim

é só vertigem:

outra parte,

linguagem.

Traduzir uma parte

na outra parte

— que é uma questão

de vida ou morte —

será arte?

 

Onde está a poesia? indaga-se

por toda parte. E a poesia

vai à esquina comprar jornal.

Cientistas esquartejam Puchkin e Baudelaire.

Exegetas desmontam a máquina da linguagem.

A poesia ri.

Baixa-se uma portaria: é proibido

misturar o poema com Ipanema.

O poeta depõe no inquérito:

meu poema é puro, flor

sem haste, juro!

Não tem passado nem futuro.

Não sabe a fel nem sabe a mel:

é de papel.

39 – SEXTOU POÉTICO – Habeas Pinho – Ronaldo da Cunha Lima

Por Ademar Rafael Ferreira (Papa)

Ade Maleu Lapa-el –  Hoje brilha em nosso espaço Ronaldo da Cunha Lima.

Papa – Ronaldo José da Cunha Lima, nasceu em Guarabira (PB) em 18 de março de 1936, famoso advogado, escritor, poeta e político. Foi vereador e prefeito em Campina Grande (PB), deputado estadual e federal, senador e governador do Estado da Paraíba. Extremamente carismático, dotado de alta capacidade de utilizar a poesia como ferramenta de comunicação ao desempenhar as funções de advogado e em pronunciamentos ligados a política. Da sua vasta obra preferimos trazer a famosa petição em versos, um dos seus mais conhecidos trabalhos poéticos. “Habeas Pinho”, é um clássico alinhado com o propósito desta publicação semanal.

 

Exmo. Sr. Dr. Juiz de Direito da 2ª Vara desta Comarca

O instrumento do crime que se arrola

neste processo de contravenção

não é faca, revólver nem pistola,

é simplesmente, doutor, um violão.

 

Um violão, doutor, que na verdade

Não matou nem feriu um cidadão.

Feriu, sim, a sensibilidade

de quem o ouviu vibrar na solidão.

 

O violão é sempre uma ternura,

instrumento de amor e de saudade.

O crime a ele nunca se mistura.

Inexiste entre eles afinidade.

 

O violão é próprio dos cantores,

dos menestréis de alma enternecida

que cantam as mágoas que povoam a vida

e sufocam suas próprias dores.

 

O violão é música e é canção,

é sentimento vida e alegria,

é pureza é néctar que extasia,

é adorno espiritual do coração.

 

Seu viver como o nosso é transitório

mas seu destino, não, se perpetua

Ele nasceu para cantar na rua

e não para ser arquivo de cartório.

 

Mande soltá-lo pelo amor da noite

que se sente vazia em suas horas,

pra que volte a sentir o terno açoite

de suas cordas leves e sonoras.

 

Libere o violão, Dr. Juiz,

Em nome da Justiça e do Direito.

É crime, porventura, o infeliz,

cantar as mágoas que lhe enchem o peito?

 

Será crime, e afinal, será pecado,

será delito de tão vis horrores,

perambular na rua um desgraçado

derramando na rua as suas dores?

 

É o apelo que aqui lhe dirigimos,

na certeza do seu acolhimento.

Juntada desta aos autos nós pedimos

e pedimos também DEFERIMENTO.

 

Ronaldo Cunha Lima, advogado.

O juiz Arthur Moura deu sua sentença no mesmo tom:

Para que eu não carregue

remorso no coração,

determino que se entregue

ao seu dono o violão.

38 – SEXTOU POÉTICO – Décimas – Zé de Cazuza

Por Ademar Rafael Ferreira (Papa)

Ade Maleu Lapa-el –  Vem integrar essa rica galeria hoje, o poeta Zé de Cazuza.

Papa – José Nunes Filho (Zé de Cazuza), nasceu no dia de Santa Luzia de 1929 em Monteiro (PB), até hoje recebe os amigos em sua Fazenda São Francisco, na Prata (PB). Além de um poeta extraordinário é com plena certeza um dos maiores divulgadores da poesia popular em todo mundo. Você pode ficar ao seu lado durante dias ouvindo-o recitar estrofes inéditas de poetas diversos. Materializou sua privilegiada memória ao escrever o livro “Poetas Encantadores”, desta obra extraímos as estrofes abaixo feitas em parceria com seu amigo Manoel Filó, relatando assunto que ele conhece como poucos.

 

Na água mais afastada

Apita um barco a vapor

Vai um pobre pescador

Numa pequena jangada

Com o voz entrecortada

Faz prece à Virgem Maria

Quando em forte ventania

Perdida, a jangada ronda

O mar alevanta a onda

DEPOIS DA MORTE DO DIA.

 

Nesse momento, o roceiro

Sai do serviço suado

Num recanto do roçado

Do milho sentido o cheiro

A ema pisa maneiro

No meio da travessia

Ao longe a acauã pia

O tatu foge da toca

A cascavel sai da loca

DEPOIS DA MORTE DO DIA.

 

Nessa hora o peregrino

Muda a marcha do andar

Baixa um profundo pesar

Na alma do assassino

Na igreja um velho sino

Saúda a Virgem Maria

Uma mãe, na moradia

Beija um filha que preza

Num casebre um velho reza

DEPOIS DA MORTE DO DIA.

 

Do vaga-lume a lanterna

Brilha na mata esquisita

Uma coruja crocita

Nos escombros da caverna

Claudicando de uma perna

Vai um velho em romaria

Para numa travessia

Da  noite sentido medo

Na solidão do lajedo

DEPOIS DA MORTE DO DIA.

 

A galinha bate asa

Para subir no poleiro

Enquanto recende um cheiro

De café torrado em casa

Na várzea uma fonte vaza

Água quente, depois fria

Quando o verão principia

Num casebre do Sertão

Ressoa o voz do pilão

DEPOIS DA MORTE DO DIA.

36 – SEXTOU POÉTICO – Sonetos – Diniz Vitorino

Por Ademar Rafael Ferreira (Papa)

Ade Maleu Lapa-el –  Será destaque hoje o poeta Diniz Vitorino, do Cariri paraibano.

Papa – Diniz Vitorino Ferreira nasceu em 1940 na poética cidade de Monteiro (PB), filho do também cantador Joaquim Vitorino deixou magnífica obra como repentista e como poeta de bancada nos presenteou com poemas antológicos. Nesta sexta-feira que antecede a Semana da Pátria, época que festejamos uma independência fajuta, e num momento de campanha eleitoral, os sonetos escolhidos dizem muito e nos encaminham para reflexões profundas sobre as injustiças sociais e sobre nosso falido sistema político. “O Quadro Falso”, retirado do livro “Nós, Cantadores Poetas” e “Os Mascarados”, extraído de “Lírios do Canto” merecem leitura cuidadosa.

 

Esta é a zona da mata, o verde cana

Deixa a terra esmaltada de esperança,

Mas é falsa a pintura e nos engana,

Qual velho com máscara de criança.

 

Este tom de esmeralda que a engalana

Não é digno da mínima confiança.

O amor é de têmpora desumana,

A miséria usa o manto da bonança.

 

Estas cruzes, cinzentas e maciças,

São símbolos reais das injustiças

Contra aqueles que exaustos se revoltam.

 

Exigindo direitos sonegados…

Sem direito nenhum são fuzilados

Vão as férias forçadas, mas não voltam.

 

Novamente os palanques dos malditos

Estão erguidos com faixas coloridas.

E os dragões disfarçados de cabritos

Já estão soltos em plenas avenidas.

 

Com acenos de mãos, gestos bonitos,

Formam frases mil vezes repetidas,

Revivendo em discursos mal escritos,

Velhas mortas promessas esquecidas.

 

Com os punhos cerrados fazem gestos

Juram firmes que são bons e honestos

Salvadores da pátria e dos patrícios.

 

Quando todos não passam de tiranos

Leopardos sangrentos, desumanos,

Comandantes dos nossos sacrifícios.

35 – SEXTOU POÉTICO – Ode a Dois de Julho – Castro Alves

Por Ademar Rafael Ferreira (Papa)

Ade Maleu Lapa-el –  O registro desta data é o poeta condoreiro Castro Alves.

Papa – Antônio Frederico de Castro Alves (Castro Alves), um dos mais festejados nomes da literatura brasileira, poeta cuja obra tem ligação umbilical com  o seu compromisso com as causas políticas e socais do seu tempos, destaco a defesa da abolição da escravatura, para muitos o “Poeta dos Escravos”, para mim o poeta das causas justas e perfeitas. Pelo simbolismo heroico e histórico que a data representa para os baianos escolhi o poema “ODE A DOIS DE JULHO” para brilhar nessa passarela de belas criações poéticas.

 

Era no dois de julho. A pugna imensa

Travara-se nos cerros da Bahia…

O anjo da morte pálido cosia

Uma vasta mortalha em Pirajá.

“Neste lençol tão largo, tão extenso,

“Como um pedaço roto do infinito…

O mundo perguntava erguendo um grito:

“Qual dos gigantes morto rolará?!…”

 

Debruçados do céu… a noite e os astros

Seguiam da peleja o incerto fado…

Era a tocha — o fuzil avermelhado!

Era o Circo de Roma — o vasto chão!

Por palmas — o troar da artilharia

Por feras — os canhões negros rugiam!

Por atletas — dois povos se batiam!

Enorme anfiteatro — era a amplidão!

 

Não! Não eram dois povos, que abalavam

Naquele instante o solo ensanguentado…

Era o porvir — em frente do passado,

A Liberdade — em frente à Escravidão,

Era a luta das águias — e do abutre,

A revolta do pulso — contra os ferros,

O pugilato da razão — com os erros,

O duelo da treva — e do clarão!…

 

No entanto a luta recrescia indômita…

As bandeiras — como águias eriçadas —

Se abismavam com as asas desdobradas

Na selva escura da fumaça atroz…

Tonto de espanto, cego de metralha,

O arcanjo do triunfo vacilava…

E a glória desgrenhada acalentava

O cadáver sangrento dos heróis…

 

Mas quando a branca estrela matutina

Surgiu do espaço… e as brisas forasteiras

No verde leque das gentis palmeiras

Foram cantar os hinos do arrebol,

Lá do campo deserto da batalha

Uma voz se elevou clara e divina:

Eras tu — Liberdade peregrina!

Esposa do porvir — noiva do sol!…

 

Eras tu que, com os dedos ensopados

No sangue dos avós mortos na guerra,

Livre sagravas a Colúmbia terra,

Sagravas livre a nova geração!

Tu que erguias, subida na pirâmide,

Formada pelos mortos do Cabrito,

Um pedaço de gládio — no infinito…

Um trapo de bandeira — n’amplidão!…

34 – SEXTOU POÉTICO – Sonetos – Augusto dos Anjos

Por Ademar Rafael Ferreira (Papa)

Ade Maleu Lapa-el –  Hoje nosso foco é direcionado para o poeta paraibano Augusto dos Anjos.

Papa – Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos (Augusto dos Anjos), nasceu no Engenho Pau d’Arco, município de Sapé (PB), em 1884 e partiu para o outro lado trinta anos depois. Em sua breve passagem pela terra deixou um obra fantástica. O seu livro “Eu e Outra Poesia” é presença garantida em todas estantes dos amantes da poesia. Da sua original obra retiramos os sonetos  “Psicologia de um vencido” e “Versos Íntimos” para integrar essa galeria.

 

Eu, filho do carbono e do amoníaco,

Monstro de escuridão e rutilância,

Sofro, desde a epigênese da infância,

A influência má dos signos do zodíaco.

 

Profundissimamente hipocondríaco,

Este ambiente me causa repugnância…

Sobe-me à boca uma ânsia análoga à ânsia

Que se escapa da boca de um cardíaco.

 

Já o verme — este operário das ruínas —

Que o sangue podre das carnificinas

Come, e à vida em geral declara guerra,

 

Anda a espreitar meus olhos para roê-los,

E há de deixar-me apenas os cabelos,

Na frialdade inorgânica da terra!

 

Vês! Ninguém assistiu ao formidável

Enterro de tua última quimera.

Somente a Ingratidão – esta pantera –

Foi tua companheira inseparável!

 

Acostuma-te à lama que te espera!

O Homem, que, nesta terra miserável,

Mora entre feras, sente inevitável

Necessidade de também ser fera.

 

Toma um fósforo. Acende teu cigarro!

O beijo, amigo, é a véspera do escarro,

A mão que afaga é a mesma que apedreja.

 

Se a alguém causa inda pena a tua chaga,

Apedreja essa mão vil que te afaga,

Escarra nessa boca que te beija!

33 – SEXTOU POÉTICO – A Deus Muito Obrigado – Luiz Gonzaga Maia

Por Ademar Rafael Ferreira (Papa)

Ade Maleu Lapa-el – Neste dia festivo em sua Jabitacá vamos falar sobre Luiz Gonzaga Maia.

Papa – Deixar o poeta Luiz Gonzaga Maia fora desta lista seria além de uma injustiça, uma traição a um defensor incansável da cultura raiz. Este poeta das barrancas do Rio Jaguaribe é por merecimento hexacampeão do concorrido festival “Vamos Fazer Poesia”, criado e realizado anualmente pelo produtor cultural e poeta Iranildo Marques, em Serra Talhada. Da sua vasta obra poética pinçamos o poema “A Deus Muito Obrigado”, inserido no livro “Nas Asas da Poesia”, de 2024.

 

Que seria de mim faltando a fé

Em Deus pai nosso mestre verdadeiro?

Eu sou pobre de brilho, mas Deus é

Da luz santa o divino mensageiro.

Com minha alma despida de grandeza

Eu tomado de um ato de fraqueza

Afirmando negar sua presença,

Tenho plena certeza que seria

Mais um ente sem luz que ficaria

No vazio obscuro da descrença.

 

Eu entendo ao contrário, a fé me ampara,

É na crença que está minha razão.

Deus é muito presente, a forma é clara,

Em meu mundo seguro de cristão.

Eu enxergo, caminho, escuto e falo

Mediante os tormentos não me abalo

Mesmo sendo um falível ser humano.

Minha paz, minha crença, meu amor

Seguem firmes comigo aonde eu for

São presentes das mãos do soberano.

 

As roseiras humanas do meu lar

Sem trabalho nenhum cresceram belas,

Eu só tive o cuidado de irrigar,

Deus botou o perfume em todas elas,

Seu olor comprovada na fragrância

Ninguém mede o tamanho da importância

E nem compra com uso do dinheiro.

Em silêncio diz muito, cheira tanto,

Muito além da ternura traz encanto

É motivo da paz do jardineiro.

 

Por viver com saúde, ter trabalho,

Onde passo transmito confiança.

Quando durmo Deus cuida do agasalho

Enviando sossego e segurança.

Entender quanto é nobre a  caridade,

Propagar a nobreza da Verdade

Por ter sempre sucesso em minhas metas,

Pelo dom divinal da poesia

Que me faz desfrutar tanta alegria

Do convívio feliz entre os poetas.

 

Pela minha família, cada amigo

Que tem muito valor por excelência,

O pão farto que tem em meu abrigo

Pelos anos que marcaram a existência.

A coragem que tenho pra lutar,

A maneira sincera de aceitar,

Quando a vida projeta um feito errado,

No registro de minha gratidão

Necessito dizer de coração:

Obrigado senhor, muito obrigado.

32 – SEXTOU POÉTICO – Possidônio Gomes – Quincas Rafael

Por Ademar Rafael Ferreira (Papa)

Ade Maleu Lapa-el –  Hoje, sem nepotismo, falaremos sobre Quincas Rafael.

Papa – Com a devida vênia, hoje a figura citada será meu saudoso pai Joaquim Rafael de Freitas (Quincas Rafael). Neste domingo, dia 09 de agosto, em frente a sua morada no sítio Quixaba, no distrito de Jabitacá, município de Iguaracy (PE), novo encontro de amigos para falar de poesias e amizades perenes. O poema escolhido foi “Possidônio Gomes”, uma dedicatória do poeta ao amigo. Para mim ‘Seu Possidônio’ foi uma das pessoas mais dignas que pisou na crosta terrestre. Por coincidência nasceu na Fazenda Caiçara, muito próxima do local do evento. Seu legado será lembrado por muitos anos.

 

A morte de Possidônio

Quase ninguém ver falar.

O mundo se encarrega

De dar e depois tomar.

Ele foi honesto e nobre

Nasceu rico, morreu pobre

Sem ninguém lhe prantear.

 

Com relação a herança

Foi um dos que mais herdou.

Duas vezes foi Prefeito

E muito bem governou.

De que serviu tanta lida,

Pra no fim da sua vida

Passar o que ele passou?

 

Na Fazenda Caiçara

Seu Possidônio nasceu.

Foi da família o caçula,

Como caçula morreu.

O seu Riacho do Mel

Tornou-se rio de fel

Pelo muito que sofreu.

 

Dizem que todo caçula

É estimado e tem sorte.

Isto de fato ele teve

Com a primeira consorte

No segundo casamento

Só encontrou sofrimento

Lhe trazendo até a morte.

 

No final da sua vida

Ele não viu se viveu.

Após a morte dos filhos

Toda alegria perdeu.

Perdeu o que mais queria

Quem dessa forma vivia

Não via o viver seu.

 

Na calçada da fazenda

Sentado passava o dia.

Tristonho ali meditando

Sem nenhuma companhia.

De todo mundo esquecido

Pelo presente detido

Pagando o que não devia.

 

Ditoso foi seu passado

Tristonho foi seu presente.

O político quando cai

Acabrunhado se sente

Viveu da recordação

Só naquele casarão

Onde morou tanta gente.

 

Naquela casa museu

De grande recordação.

Viveu Manoel Lopes

Um Coronel do Sertão

Foi ela uma linda prenda

Como prova da fazenda

Tem o ferro no oitão.

 

Estes versos que aqui fiz

Sei que a ninguém feriu.

Também a família dele

Isto a mim não pediu.

Mas aquele homem honrado

Foi por mim admirado.

Enquanto aqui existiu.

31 – SEXTOU POÉTICO – O Engano do Psicólogo – Jorge Macedo

Por Ademar Rafael Ferreira (Papa)

Ade Maleu Lapa-el –  Nesta data vamos tomar águas do Jaguaribe, poético rio do Ceará.

Papa – Sem dúvida vamos trazer o poema ‘O Engano do Psicólogo”, do Jorge Macedo, filho de Quixeré, onde o Rio Jaguaribe junta-se ao Rio Quixeré para formar uma ilha fluvial. Dele podemos extrair diversos aprendizados, é um trabalho que sempre descubro algo novo cada vez que escuto. Este poeta cearense é detentor de dois grandes valores: Sensibilidade e humildade que unidos fomentam um potencial poético ilimitado.

 

Certa vez um psicólogo

Atendeu um cidadão

Se dizendo acometido

De uma grande depressão

Cabisbaixo, pessimista

Conta ao especialista

A sua situação.

 

Doutor eu não tô prestando

Pra mais nada nesta vida

Tudo para mim é tristeza

A minha única saída

É o cigarro, eu assumo

Em poucas horas eu fumo

Não sei quantos em seguida

 

O psicólogo falou:

Seu stress  é violento

Você tome alguns remédios

Mas para ficar cem por cento

Eu não lhe engano porque

Depende mais de você

De que do medicamento

 

Onde tiver uma festa

Vá para ver se muda o clima

Quem sabe você por lá

Não se distrai, não se anima

E volta a ser o que era

Aí você recupera

Toda sua autoestima

 

Inclusive estou sabendo

Que está aqui na cidade

Um circo que o espetáculo

É de ótima qualidade

Você deveria ir

Que além de se divertir

Sair da ociosidade

 

Tem o palhaço BIRIBA

O melhor da companhia

Vá assisti-lo de perto

Veja quanta simpatia

Em cima do picadeiro

Transformando o circo inteiro

Num mundo de alegria

 

Vai lá com sua família

Convide os seus camaradas

Vá ver BIRIBA contando

Engraçadíssimas piadas

Que mesmo assim depressivo

Você vai achar motivo

Pra dar boas gargalhadas

 

Doutor o senhor não sabe

O que foi que aconteceu

Com todos esses conselhos

Que agora o senhor me deu

Aumentou minha tortura

Doutor meu mal não tem cura

Pois o palhaço sou.

SEXTOU POÉTICO – Terra Mãe – Zé Luiz

Por Ademar Rafael Ferreira (Papa)

Ade Maleu Lapa-el –  Nosso olhar hoje é em direção ao poeta Zé Luiz.

Papa – José Luiz Carlos de Lima (Zé Luiz), nasceu em Santo Antônio (RN), na metade da década de 1960 para ser um dos maiores nomes da poesia. Advogado brilhante e detentor de senso crítico de altíssimo nível, neste poema “Terra Mãe”  um fragmento do seu potencial.

 

Por que é terra mãe que no teu colo,

A miséria produz tão feios partos?

Filhos morrem de fome, pais soluçam,

Por que isso acontece se três quartos,

Do total de alimentos que produzes,

Dá pra todos teus filhos serem fartos?

 

Tu não vês terra mãe mas o teu dorso,

Que Deus fez para os pães frutificarem,

Transformou-se num grande cemitério,

De esperanças e homens se enterrarem,

Avenida asfaltada de vergonha,

Dos soldados da fome desfilarem.

 

Quem ergueu sobre ti estranhas cercas,

Protegendo tais cercas, vis regimes,

Fez de te privilégio de alguns homens,

Irrigou-te no sangue de mil crimes,

Se apossou dos tesouros do teu corpo,

Deserdado os teus filhos mais sublimes.

 

É por tua escassez, por tua falta,

Que o nordeste está pobre de habitantes,

Que a sarjeta está gorda de mendigos,

Que a estrada está cheia de emigrantes,

Que o mercado está mísero de alimentos,

Que a favela está grávida de assaltantes.

 

Foste feita por Deus pra ser plantada,

Mas é crime plantar neste país,

Quem te quis dividida e produzindo,

Teve um fim vergonhoso e infeliz,

Acusado do crime de plantar,

Dorme em baixo de ti porque te quis.

29 – SEXTOU POÉTICO – Voltando a Minha Terra – Severino Feitosa

Por Ademar Rafael Ferreira (Papa)

Ade Maleu Lapa-el –  Nesta data o destaque vai para o poeta pernambucano Severino Feitosa.

Papa – O filho de Santa Terezinha (PE), é autor de uma das mais belas canções do nosso país, gravada por diversos artistas com melodias antológicas “Voltando a Minha Terra” ocupa, merecidamente, lugar de destaque no cancioneiro popular.

 

Peço a Deus todo momento

Pra um dia me levar

Onde foi meu nascimento

O que eu não posso tirar

Nunca da minha lembrança

É o pedaço de terra

Que vivi quando criança.

 

Eu fui um pássaro que viveu feliz

Cantando livre nesses matagais

Bebendo água nas cacimbas claras

Depois voando para os mangueirais

Eu fui menino que andou descalço

Pulando corda e jogando pião

Cortando lenha pra fazer o fogo

Batendo enxada pra cavar o chão

 

O que eu não posso tirar…

 

Fui tangerino das estradas longas

Do vale verde que me viu andar

Depois tornei-me num cigano errante

Que deixa a tropa pra poder voltar

Na grande ânsia de ver a beleza

Da minha terra

Meu rancho e meus pais

Tive alegria e tive tristeza

Como era antes, ninguém era mais

 

O que eu não posso tirar…

 

A casa antiga onde me criei

Não tem as mesmas portas e janelas

Até as moças com quem namorei

Estão casadas, não são mais aquelas

Os meus amigos e os meus parentes

Que cultivaram essa terra outrora

Os que ficaram estão diferentes

Uns já morreram e outros foram embora.

 

O que eu não posso tirar…

 

Deus me conceda que eu volte um dia

À terra amada do meu nascimento

Onde eu juntei dor e alegria

Misturei tudo no meu pensamento

Fui obrigado pelo meu destino

Tentar um meio de sobreviver

Mas nessa terra onde eu fui menino

Queria ainda morar e viver

Mas nessa terra onde eu fui menino

Queria ainda morar e viver!

 

O que eu não posso tirar…

28 – SEXTOU POÉTICO – Nordeste Independente – Ivanildo Vila Nova

Por Ademar Rafael Ferreira (Papa)

Ade Maleu Lapa-el – Nesta sexta-feira nossos holofotes são direcionados para Ivanildo Vila Nova.

Papa – Ivanildo Vila Nova, filho do poeta José Faustino, é uma das maiores referências quando o assunto é cantoria de viola. Além de um poeta extraordinário tem em seu currículo a marca de ter incentivado vários outros poetas para ingressar no universo do improviso. “Nordeste Independente”, letra em parceira com Bráulio Tavares, gravada por Elba Ramalho, não poderia ficar de fora dessa série que publicamos semanalmente. É um símbolo da valorização do nordestino e das suas raízes, um grito de resistência contra o preconceito.

 

Já que existe no sul esse conceito

Que o nordeste é ruim, seco e ingrato

Já que existe a separação de fato

É preciso torná-la de direito

Quando um dia qualquer isso for feito

Todos dois vão lucrar imensamente

Começando uma vida diferente

De que a gente até hoje tem vivido

Imagina o Brasil ser dividido

E o nordeste ficar independente

 

Dividindo a partir de Salvador

O nordeste seria outro país

Vigoroso, leal, rico e feliz

Sem dever a ninguém no exterior

Jangadeiro seria o senador

O cassaco de roça era o suplente

Cantador de viola, o presidente

O vaqueiro era o líder do partido

Imagina o Brasil ser dividido

E o nordeste ficar independente

 

Em Recife, o distrito industrial

O idioma ia ser nordestinense

A bandeira de renda cearense

“Asa Branca” era o hino nacional

O folheto era o símbolo oficial

A moeda, o tostão de antigamente

Conselheiro seria o inconfidente

Lampião, o herói inesquecido

Imagina o Brasil ser dividido

E o nordeste ficar independente

 

O Brasil ia ter de importar

Do nordeste algodão, cana, caju

Carnaúba, laranja, babaçu

Abacaxi e o sal de cozinhar

O arroz, o agave do lugar

O petróleo, a cebola, o aguardente

O nordeste é autossuficiente

O seu lucro seria garantido

Imagina o Brasil ser dividido

E o nordeste ficar independente

 

Se isso aí se tornar realidade

E alguém do Brasil nos visitar

Nesse nosso país vai encontrar

Confiança, respeito e amizade

Tem o pão repartido na metade

Temo prato na mesa, a cama quente

Brasileiro será irmão da gente

Vai pra lá que será bem recebido

Imagina o Brasil ser dividido

E o nordeste ficar independente

 

Eu não quero, com isso, que vocês

Imaginem que eu tento ser grosseiro

Pois se lembrem que o povo brasileiro

É amigo do povo português

Se um dia a separação se fez

Todos os dois se respeitam no presente

Se isso aí já deu certo antigamente

Nesse exemplo concreto e conhecido

Imagina o Brasil ser dividido

E o nordeste ficar independente

 

Povo do meu Brasil

Políticos brasileiros

Não pensem que vocês nos enganam

Porque nosso povo não é besta.

27 – SEXTOU POÉTICO – Mulher Nova… – Otacílio Batista

Por Ademar Rafael Ferreira (Papa)

Ade Maleu Lapa-el –  Dediquemos nesta data nossa atenção para Otacílio Batista.

Papa – Da vasta produção poética de Otacílio Guedes Patriota –  caçula da trindade dos Batista:  Louro, Dimas e Otacílio -, retiro esta letra que para mim representa o mesmo que  “Asa Branca e Romaria” significam para Luiz Gonzaga e Renato Teixeira. Gravada por Amelinha: “Mulher Nova Bonita e Carinhosa/Faz o Homem Gemer Sem Sentir Dor”, transformou-se em um clássico merecidamente.

 

Numa luta de gregos e troianos

Por Helena, a mulher de Menelau

Conta a história que um cavalo de pau

Terminava uma guerra de dez anos

Menelau, o maior dos espartanos

Venceu Páris, o grande sedutor

Humilhando a família de Heitor

Em defesa da honra caprichosa

Mulher nova, bonita e carinhosa

Faz o homem gemer sem sentir dor

Alexandre figura desumana

Fundador da famosa Alexandria

Conquistava na Grécia e destruía

Quase toda a população Tebana

A beleza atrativa de Roxana

Dominava o maior conquistador

E depois de vencê-la, o vencedor

Entregou-se à pagã mais que formosa

Mulher nova, bonita e carinhosa

Faz o homem gemer sem sentir dor

A mulher tem na face dois brilhantes

Condutores fiéis do seu destino

Quem não ama o sorriso feminino

Desconhece a poesia de Cervantes

A bravura dos grandes navegantes

Enfrentando a procela em seu furor

Se não fosse a mulher mimosa flor

A história seria mentirosa

Mulher nova, bonita e carinhosa

Faz o homem gemer sem sentir dor

Virgulino Ferreira, o Lampião

Bandoleiro das selvas nordestinas

Sem temer a perigo nem ruínas

Foi o rei do cangaço no sertão

Mas um dia sentiu no coração

O feitiço atrativo do amor

A mulata da terra do condor

Dominava uma fera perigosa

Mulher nova, bonita e carinhosa

Faz o homem gemer sem sentir dor.