
Estadão
Uma fraude envolvendo a invasão digital de uma conta no portal Gov.br, plataforma do governo federal que reúne serviços públicos, e a negociação de propriedades de luxo adquiridas de forma criminosa na praia de Jurerê Internacional, bairro nobre de Florianópolis, causou um prejuízo estimado pela Polícia Civil de Santa Catarina (PCSC) em R$ 12 milhões.
Segundo as investigações, o grupo de criminosos teve acesso ao login Gov.br da vítima e, por meio da ferramenta de assinatura digital, incluiu o proprietário do terreno como sócio de uma empresa transportadora sediada no Ceará (CE). Depois disso, o terreno foi integralizado ao capital social da companhia e vendido rapidamente a terceiros por valores abaixo do preço de mercado. Os investigadores identificaram que o grupo negociou, ao todo, cinco propriedades de luxo.
A PCSC desarticulou a associação criminosa após cumprir 18 mandados de busca e apreensão domiciliar e dez de prisão temporária em sete municípios.
Procurada pelo Estadão, a PCSC não comunicou como os criminosos conseguiram entrar no Gov.br da vítima, mas, segundo especialistas, o caminho mais provável é o comprometimento de credenciais. Em nota, o Ministério da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos (MGI) afirmou que não há registros de invasões ou de vazamentos na plataforma Gov.br.
De acordo com Carlos Tatara, diretor de tecnologia da empresa de autenticação digital e criptografia Bry, não houve hackeamento da plataforma. “As credenciais foram obtidas de forma fraudulenta”, afirma o executivo.
“Existem vários mecanismos de comprometimento, desde o phishing, em que a vítima recebe um link fraudulento, até engenharia social, em que o criminoso se relaciona com a vítima para convencê-la a compartilhar informações confidenciais”, comenta Tatara.
A outra estratégia do grupo criminoso para ter acesso ao imóvel consistia em usar procurações falsificadas, supostamente emitidas por cartórios do Ceará, para lavrar escrituras públicas e concretizar as vendas. Tudo isso sem conhecimento das vítimas.
“O grupo atuava de forma estruturada, utilizando invasões digitais com uso indevido de assinaturas eletrônicas e falsificação de documentos para transferir e vender imóveis sem o conhecimento dos proprietários”, explicou Osmar Carraro, delegado da PCSC, em nota no portal de notícias do governo federal.
Segundo a polícia, após a venda, o dinheiro era dividido em diversas contas bancárias. “As investigações seguem em andamento para identificação de outros envolvidos e recuperação de ativos”, diz.
Os mandados foram cumpridos em Boa Vista (RR), Brejo de Areia (MA), Caucaia (CE), Fortaleza (CE), Manaus (AM), Goiânia (GO) e Trindade (GO). Os investigados responderão pelos crimes de estelionato, associação criminosa e lavagem de dinheiro, cujas penas, quando somadas, podem atingir até 21 anos de reclusão e multa.
Além da PCSC, a Operação Real State contou com a colaboração da Coordenação-Geral de Repressão a Crimes Cibernéticos (Ciberlab), da Diretoria de Inteligência e Operações (Diopi), da Secretaria Nacional de Segurança Pública (Senasp), além da colaboração operacional das Polícias Civis dos estados do Amazonas (AM), do Maranhão (MA), de Goiás (GO) e de Roraima (RR).



