Da ‘Raquelzinha’ aos deepfakes: o avanço da IA em Pernambuco

Às portas do início da propaganda eleitoral, autorizada pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) a partir de 16 de agosto, a inteligência artificial (IA) se tornou um dos principais instrumentos de comunicação dos grupos políticos em Pernambuco. Entre personagens criados digitalmente, vídeos com referências familiares e críticas satíricas produzidas em poucos minutos, a tecnologia ampliou as possibilidades de engajamento, mas também acendeu o alerta sobre os limites éticos e legais da disputa.

Questões como a paridade de armas entre candidaturas e a circulação de conteúdos manipulados têm mobilizado juristas e especialistas. Com ferramentas capazes de criar imagens, vozes e até reproduzir pessoas reais, a IA passou a ocupar um espaço cada vez mais relevante nas estratégias eleitorais. Em Pernambuco, pré-candidatos têm explorado justamente aquilo que a tecnologia oferece de mais sedutor: baixo custo, rapidez e alta capacidade de alcance nas redes sociais.

Para entender como esses recursos se conectam com o eleitor e quais são os limites impostos pela legislação, especialistas em ciência política, marketing político e direito eleitoral explicam. Em comum, eles apontam que a inteligência artificial pode aproximar candidatos do público, mas também representa riscos à qualidade do debate democrático.

A inteligência artificial na disputa em Pernambuco

Mais do que uma ferramenta de produção de imagens, a IA passou a ser uma espécie de acelerador da comunicação política. Diferentemente de outras ferramentas disponíveis em épocas anteriores, ela permite a criação de personagens, vídeos, textos, artes e até monitoramento em tempo real das reações dos eleitores nas redes sociais.

Em Pernambuco, um dos exemplos mais visíveis é a ‘Raquelzinha’, avatar em desenho animado inspirado na governadora Raquel Lyra (PSD). A personagem tem sido utilizada pela gestora para divulgar lançamentos da administração, e também por pré-candidatos em vídeos no quais conversam com a réplica virtual da chefe do Executivo.

Já o ex-prefeito do Recife e pré-candidato ao Governo do Estado, João Campos (PSB), tem recorrido a referências familiares em conteúdos produzidos para as redes sociais. Em um dos vídeos gerados com auxílio de inteligência artificial, o ex-governador Eduardo Campos (PSB) aparece em uma cena simbólica cedendo o palanque ao filho. “Um futuro melhor pra nossa gente se escreve quando a gente olha pra trás e sabe de onde veio”, escreveu o ex-prefeito na publicação.

Para o cientista político da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Bhreno Vieira, esses elementos dialogam diretamente com a dimensão emocional da política.

“Na política, a comunicação não serve apenas para divulgar uma mensagem. Ela ajuda a construir imagem, identidade e vínculo emocional. Um personagem criado por inteligência artificial, como a ‘Raquelzinha’, pode funcionar como uma tentativa de tornar uma liderança mais próxima e mais reconhecível nas redes. Já o uso de imagens associadas ao pai e ao bisavô, no caso de João Campos, mobiliza memória, legado e pertencimento político“, avalia.

Segundo ele, o eleitor nem sempre decide apenas comparando propostas. “Muitas vezes, [o eleitor] utiliza atalhos cognitivos e afetivos para interpretar quem é aquele candidato, de onde ele vem e que tipo de liderança representa. Uma imagem, um personagem ou uma referência familiar ajudam a organizar a forma como ele enxerga a disputa“, acrescenta.

Do ponto de vista do marketing político, o professor Rafael Sampaio, do Departamento de Ciência Política da UFPE, observa que esse tipo de estratégia antecede a própria popularização da IA.

“Esses avatares e personagens já existem há muito tempo. O que a inteligência artificial fez foi diminuir o custo e facilitar o processo. Quando existe alguma referência mais interessante para usar, como é o caso de Eduardo Campos, é natural que isso aconteça. Mas é preciso cuidado. Um vídeo do próprio Eduardo falando, por exemplo, poderia causar estranhamento e gerar um efeito contrário ao desejado”, pondera.

Identificação com o eleitor e velocidade das campanhas

Humor, memes, nostalgia e emoção. Para Bhreno Vieira, são esses elementos que ajudam a explicar por que conteúdos produzidos com IA encontram espaço nas redes sociais. “Esses recursos podem gerar identificação porque falam uma linguagem muito próxima do cotidiano das redes. Em Pernambuco, onde a política tem uma dimensão muito forte de memória e pertencimento regional, esse tipo de recurso pode ter ainda mais força. Pode aproximar pré-candidatos de públicos que consomem política mais pelo Instagram, TikTok e WhatsApp do que pela propaganda tradicional“, explica.

Mas o cientista político faz uma ressalva: “O primeiro risco é transformar a disputa em uma guerra de personagens, e não de projetos. O segundo é aumentar a desigualdade entre campanhas com maior capacidade técnica. E o terceiro é quando a sátira ultrapassa o limite da crítica legítima e passa a ser desinformação”.

Contudo, apesar das objeções apresentadas pelo especialista, no ambiente digital a rivalidade já se manifesta com força. Conteúdos satíricos reproduzem João Campos dançando sob a chuva, em alusão às críticas relacionadas aos alagamentos no Recife, apelidando-o de “Jambo Campos”. Do outro lado, montagens envolvendo a governadora Raquel Lyra associam sua imagem ao descumprimento de promessas acompanhada de uma música que reforça a mensagem.

Embaladas pelo clima da Copa do Mundo 2026, outras lideranças políticas também aderiram aos conteúdos produzidos por inteligência artificial. Marília Arraes (PDT) e Miguel Coelho (União Brasil), pré-candidatos ao Senado, utilizaram peças inspiradas no universo do futebol para dialogar com seus seguidores.

Em uma análise abrangente das transformações provocadas pela IA, o professor Rafael Sampaio enfatiza que a velocidade é o seu aspecto mais determinante. “A tecnologia é muito boa para produzir conteúdo. Ela acelera a criação, a resposta e até o monitoramento das redes sociais. O problema é que, se não for bem direcionada, pode gerar conteúdos genéricos e pasteurizados. Você ganha tempo, mas não necessariamente qualidade“, afirma.