
Estadão
O presidente Lula (PT) chega à reta final da eleição sem conseguir ampliar seu apoio entre os evangélicos, que no passado já votaram majoritariamente no PT. A dificuldade de se reaproximar desse numeroso e estratégico eleitorado persiste mesmo em um ambiente menos hostil do que o de 2022. Segundo pesquisadores ouvidos pelo Estadão, na eleição deste ano, há menos mobilização política nas igrejas, e o discurso de “pânico moral”, segundo o qual Lula fechará igrejas e adotará uma agenda contrária aos valores evangélicos, perdeu força.
A preferência por Flávio, no entanto, não parece decorrer de uma identificação forte dos evangélicos com o senador ou com seu projeto eleitoral, avalia Luciana Andrade, coordenadora de pesquisas qualitativas da Quaest. Nos grupos focais realizados pelo instituto, ela afirma que Flávio não é percebido como alguém próximo do meio evangélico. Sua candidatura tampouco desperta entusiasmo entre os fiéis, que demonstram cansaço com a política e resistência até mesmo a assistir ao horário eleitoral gratuito.
“O eleitor evangélico não tem apego ao Flávio. Ele não representa o perfil evangélico que esse público encontra, por exemplo, na ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, que tem um discurso religioso público muito mais forte e maior domínio da linguagem religiosa. O apoio ao Flávio passa pelo vínculo familiar, com a Michelle e o Jair, e por um desejo de renovação, diante do desgaste de Lula e da insatisfação desse eleitor com a situação econômica do País”, afirma.
A avaliação de que Flávio não construiu uma ligação própria com os evangélicos também é feita pelo cientista político e pesquisador do Cebrap, Vinicius do Valle, que realiza pesquisas com esse público há mais de dez anos. Para ele, o antipetismo é o que está por trás do bom desempenho do senador.
“A campanha nas igrejas não está a todo vapor como em outros momentos. Pelo contrário, há um sentimento crescente de estafa da discussão eleitoral nas igrejas. Além disso, o discurso de pânico moral que era feito para esse público, dizendo que Lula vai fechar igrejas e adotar políticas contra a família, não está sendo feito mais porque não tem aderência. Mesmo assim, Flávio está indo bem nesse segmento. E vamos destacar: ele não tem uma ligação forte com o segmento nem é visto como alguém próximo pelos evangélicos. O que tudo isso indica é que existe um sentimento antipetista muito forte entre os evangélicos”, diz ele.
Para Valle, a apatia ainda predomina nas igrejas, mas os recentes embates envolvendo os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça e Alexandre de Moraes, o primeiro, declaradamente evangélico, ajudaram a “acordar” uma fatia desse eleitorado para a disputa presidencial.
“Boa parte do segmento evangélico enxerga o Supremo Tribunal Federal como um antagonista muito forte e um espaço a ser conquistado. O Flávio é visto como um meio de os evangélicos acessarem esse ambiente e ganharem cartas nessa batalha”.
Nas pesquisas qualitativas da Quaest, os evangélicos descrevem o STF como uma instituição “corrupta”, que se tornou um “partido político” e um “atraso” para o País, segundo Luciana Andrade. Moraes, em especial, enfrenta forte rejeição nesse grupo e é associado por esses eleitores a Lula – um elemento que tende a dificultar ainda mais a tentativa do PT de reconstruir sua relação com os fiéis.
Evangélicos já estiveram com o PT
Os evangélicos já foram uma importante base eleitoral do Partido dos Trabalhadores no passado. Em quatro eleições presidenciais consecutivas, a maioria desse grupo votou em candidatos petistas no segundo turno. Em 2002, quando Lula foi eleito pela primeira vez presidente da República, ele recebeu 63% dos votos válidos entre os evangélicos na disputa contra José Serra (PSDB). O desempenho se repetiu nas eleições de 2006, 2010 e 2014, todas contra candidatos tucanos.
O ponto de inflexão veio em 2018, quando Jair Bolsonaro, embalado por um discurso de defesa de pautas morais e de costumes, alcançou 70% dos votos válidos entre os evangélicos, contra 30% de Fernando Haddad (PT). A aproximação com o campo conservador se manteve em 2022, quando Bolsonaro voltou a superar Lula entre esses eleitores.
Na mais recente simulação de segundo turno da pesquisa Quaest, Lula aparece com 31% dos votos válidos entre os evangélicos, contra 69% de Flávio, resultado semelhante ao registrado em 2018.
A série histórica foi organizada pela Quaest a partir de dados do Estudo Eleitoral Brasileiro (ESEB), uma pesquisa pós-eleitoral de cunho acadêmico realizada pelo Centro de Opinião Pública (Cesop/Unicamp), e de levantamento do próprio instituto feito neste ano. Os porcentuais apresentados foram convertidos em votos válidos.
Uma das principais lideranças evangélicas do PT, a deputada federal e candidata ao Senado pelo Rio de Janeiro Benedita da Silva atribui a mudança no comportamento eleitoral dos evangélicos à atuação de lideranças de algumas denominações que, segundo ela, transformaram “o altar em palanque” e passaram a ter projetos de poder político e partidário “muito claros”. Paralelamente, afirma a parlamentar, foi criada uma “indústria de fake news” para retratar o PT como “inimigo da família e da igreja”.
“Como é que a gente reconstrói essa ponte? Dialogando, ouvindo, levando informação. É sentar para ouvir as dores do povo, dialogar com respeito e mostrar que quem defende a família de verdade é quem dá aumento real de salário mínimo, quem ajuda o filho do trabalhador a virar doutor; quem baixou a inflação e inclui os pobres, todos eles, independentemente de religião, no Orçamento.”
Benedita lembra que foi Lula quem sancionou a lei que instituiu o Dia Nacional da Marcha para Jesus, em 2009, e o Dia Nacional do Evangélico, em 2010, iniciativas que são recorrentemente citadas pelo PT para reforçar sua aproximação histórica com o grupo.



