Democratas retomam Senado e Câmara e impõem duro revés a Trump

Homem branco de terno escuro e camisa branca acena para a multidão, que o aplaude e segura bandeiras dos EUA e do Texas. O público, diverso em etnia e idade, sorri e grita, com um cartaz branco à frente escrito LOVE THY NEIGHBOR

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Os democratas retomaram o controle do Senado e da Câmara dos Estados Unidos, segundo projeções da Associated Press. O resultado é um recado contundente dos eleitores ao comando republicano em Washington e abre uma nova fase de resistência do Congresso ao presidente Donald Trump. As eleições de meio de mandato canalizaram a frustração dos americanos com a alta dos preços, a guerra no Irã e as suspeitas de corrupção no governo. Os democratas venceram de ponta a ponta do mapa, inclusive em estados que Trump ganhou por dois dígitos há dois anos. Até a senadora republicana Susan Collins, do Maine, veterana de eleições difíceis, perdeu para o democrata Troy Jackson.

O caminho para a maioria no Senado passou por alguns dos estados mais conservadores do país. Josh Turek derrotou a deputada Ashley Hinson em Iowa, e Adam Hamilton tirou o senador Roger Marshall do cargo no Kansas, tornando-se o primeiro democrata eleito senador pelo estado desde 1932. No Texas, James Talarico venceu Ken Paxton. Na Carolina do Sul, Annie Andrews derrotou a senadora Darline Graham. Em Ohio, Sherrod Brown bateu o senador Jon Husted, e Roy Cooper conquistou a cadeira aberta da Carolina do Norte. Os democratas também seguraram a Geórgia, onde o senador Jon Ossoff foi reeleito contra o deputado Mike Collins, e New Hampshire, onde o deputado Chris Pappas venceu o ex-senador John Sununu.

Algumas disputas ainda estão abertas. No Alasca, o governo Trump entrou na Justiça para bloquear a certificação do resultado caso o senador republicano Dan Sullivan perca, alegando que havia na cédula um segundo candidato com o mesmo nome. Em Michigan, o republicano Mike Rogers tenta tomar a vaga dos democratas contra o progressista Abdul El-Sayed.

Na Câmara, os democratas derrotaram deputados republicanos em distritos-chave, como Tom Kean Jr., em Nova Jersey, e Ryan Mackenzie, Scott Perry e Rob Bresnahan, na Pensilvânia. Também viraram cadeiras na Carolina do Norte, com Jamie Ager, e em Iowa, com Lindsay James. A estratégia republicana de redesenhar distritos eleitorais na Flórida e no Texas, onde o partido esperava ganhar até nove cadeiras, ficou longe do esperado. O líder democrata na Câmara, Hakeem Jeffries, deve se tornar o primeiro negro a presidir a Casa.

O controle do Congresso deve mudar profundamente os dois últimos anos do mandato de Trump e dificultar a aprovação de sua agenda, inclusive a esperança de manter a guinada conservadora na Suprema Corte, já que cabe aos senadores aprovar as indicações de juízes. Líderes democratas já sinalizaram que vão abrir uma série de investigações contra integrantes do governo e examinar como o presidente enriqueceu a família. O secretário de Defesa, Pete Hegseth, e o bilionário Elon Musk, ex-assessor de Trump, estão entre os possíveis alvos. Um impeachment do presidente e de membros do gabinete não está descartado.

Trump tentou se eximir da derrota. Antes mesmo do fechamento das urnas na Costa Oeste, escreveu nas redes sociais que não estava na cédula, embora tenha passado semanas pedindo aos eleitores que fingissem que estava. Também prometeu vetar as leis aprovadas pelos democratas e publicou a imagem de um boné vermelho, no estilo dos acessórios de sua campanha “Make America Great Again”, com a palavra “veto”. Na véspera da eleição, já tinha dito que viraria o “Sr. Veto”. Em entrevista à Fox News, afirmou que não considerava o resultado uma derrota pessoal e que os eleitores “não gostaram dos candidatos”. Disse ainda que aceitará o resultado.

O líder democrata no Senado, Chuck Schumer, falou em uma “reconfiguração geracional do mapa do Senado”. Já o líder da maioria republicana, John Thune, afirmou que seu partido “não vai ficar parado” enquanto a ala “de extrema esquerda e socialista” dos democratas tenta desfazer o que os republicanos aprovaram.

Entre as poucas vitórias republicanas, a senadora Ashley Moody venceu na Flórida a eleição especial para cumprir o restante do mandato de Marco Rubio, hoje secretário de Estado. No Wyoming, a deputada Harriet Hageman foi eleita para a vaga da senadora Cynthia Lummis, que se aposentou.

Os senadores americanos têm mandato de seis anos, e a cada dois anos cerca de um terço da Casa é renovado. Por isso, das 100 cadeiras do Senado, apenas 35 estavam em jogo nesta eleição, 33 de mandatos regulares e duas em eleições especiais, na Flórida e em Ohio. Antes da votação, os republicanos ocupavam 22 dessas vagas, e os democratas, 13. Pela contagem da NBC, os democratas venceram 19 das disputas e os republicanos, 12. Outras quatro seguem indefinidas, no Alasca, em Michigan, no Mississippi e em Nebraska. Somados aos 34 senadores democratas e independentes aliados e aos 31 republicanos cujos mandatos não estavam em jogo, os democratas terão pelo menos 53 cadeiras, duas a mais que as 51 necessárias para a maioria. Os republicanos ficam com 43.