
Entre o fole das sanfonas, o tilintar dos triângulos e a dança das quadrilhas, o São João de 2026 em Pernambuco também foi marcado por cifras milionárias. De acordo com uma consulta feita nesta quarta-feira (1º), com base nos dados do Painel de Transparência dos Festejos Juninos do Ministério Público de Pernambuco (MPPE), os cinco municípios que mais investiram na festa desembolsaram, juntos, mais de R$ 168 milhões.
Os valores chamam atenção porque foram executados poucos meses após a Associação Municipalista de Pernambuco (Amupe), em conjunto com representantes do Ministério Público e prefeitos, recomendar um teto orientativo de R$ 350 mil para cachês artísticos.
Embora a medida não tenha caráter vinculante, ela buscava estimular maior equilíbrio entre os investimentos em cultura e a realidade fiscal dos municípios. Na prática, porém, diversos contratos ultrapassaram esse patamar, chegando a R$ 1,5 milhão. Abaixo, confira a lista dos municípios pernambucanos que mais gastaram dinheiro em artistas e bandas nacionais.
Somadas, as 145 cidades participantes investiram R$ 251 milhões na programação do São João, segundo o Painel de Transparência do MPPE.
Caruaru manteve liderança com maior investimento do Estado
Mais uma vez, Caruaru concentrou o maior orçamento do São João pernambucano. A Capital do Forró destinou R$ 55,48 milhões à festa, apostando em uma programação que mesclou artistas tradicionais do ciclo junino e nomes que dominam as plataformas de streaming.
O maior cachê pago continua sendo o do cantor cearense Wesley Safadão, contratado por R$ 1,5 milhão. Na sequência aparecem Luan Santana (R$ 1,3 milhão) e Henry Freitas (R$ 1,13 milhão), um dos artistas que mais cresceram no mercado de shows nos últimos anos.
Também figuram entre as maiores contratações o projeto À Vontade, formado por Raí Saia Rodada, Zezo Potiguar e Luan Estilizado, por R$ 990 mil, além de Nattan (R$ 900 mil), Alok (R$ 850 mil) e Xand Avião (R$ 800 mil).
Os valores, entretanto, passaram a ser questionados pelo Ministério Público. Em recomendação publicada no Diário Oficial da instituição no dia 04 de junho, a 2ª Promotoria de Justiça de Defesa da Cidadania de Caruaru orientou a Prefeitura e a Fundação de Cultura e Turismo a reverem as contratações artísticas, após auditoria identificar um excesso global superior a R$ 2 milhões em relação aos parâmetros definidos pelo órgão.
Segundo o MPPE, a análise dos contratos apontou aumentos considerados desproporcionais quando comparados aos cachês cobrados pelos próprios artistas em apresentações realizadas em anos anteriores, corrigidos pela inflação.
Apenas o contrato de Wesley Safadão teria ultrapassado em R$ 429,5 mil o teto calculado pela metodologia adotada pelo órgão. Também foram apontados valores acima da referência em contratações como Pablo, À Vontade, Zé Vaqueiro, Fala Mansa, Solange Almeida e Limão com Mel.
Petrolina repetiu aposta em atrações de alcance nacional
Na segunda colocação aparece Petrolina, que investiu cerca de R$ 45 milhões nos festejos.
A estratégia da prefeitura voltou a privilegiar artistas de grande apelo popular. Gusttavo Lima e Wesley Safadão receberam os maiores cachês, ambos de R$ 1,5 milhão. Logo depois aparecem Luan Santana (R$ 1,3 milhão) e Ivete Sangalo (R$ 1 milhão).
O município manteve o modelo que vem adotando nos últimos anos: concentrar investimentos em atrações de repercussão nacional como forma de ampliar o fluxo turístico durante o ciclo junino, estratégia que também costuma colocar Petrolina entre as cidades com maiores despesas do Estado nesse período.
No entanto, o badalado contrato milionário com Gusttavo Lima ocorreu sob a sombra de um desgaste recente na região, envolvendo cifras semelhantes e quebra de contrato. No fim de junho, o artista se envolveu em um grave imbróglio no município de Surubim, também no Agreste pernambucano, onde havia recebido um cachê de R$ 1,35 milhão antecipadamente, mas cancelou sua apresentação, marcando a segunda vez consecutiva que o cantor desmarcou um show na cidade.
Abaixo, confira os valores atualizados que cada artista recebeu em Petrolina:

Recife investiu menos em cachês milionários, mas entrou no debate político
Embora ocupe a terceira posição entre os maiores investimentos, com pouco mais de R$ 25 milhões, o Recife adotou uma política diferente das demais cidades do ranking.
Em vez de concentrar recursos em artistas de cachês milionários, a Prefeitura distribuiu a programação entre nomes ligados ao forró tradicional e à cultura popular. O maior contrato foi firmado com Santanna, O Cantador, por R$ 360 mil. Elba Ramalho (R$ 230 mil) e Alceu Valença (R$ 220 mil) aparecem na sequência, enquanto a maior parte das atrações ficou na faixa entre R$ 150 mil e R$ 200 mil.
Ainda assim, a programação da capital acabou sendo inserida em um debate político nacional envolvendo a publicidade de casas de apostas. Após a deputada federal Tabata Amaral (PSB-SP) cobrar que a CazéTV reduzisse a exposição de empresas do setor durante a Copa do Mundo, adversários passaram a apontar uma suposta contradição entre o discurso da parlamentar e o fato de a gestão do ex-prefeito João Campos (PSB), seu marido, ter contado com patrocínio de empresas de apostas em grandes eventos, como o Carnaval do Recife.
A Prefeitura sustenta que os contratos observaram a legislação vigente e que o patrocínio privado reduz custos para os cofres públicos, enquanto críticos questionam a coerência do discurso político em torno das bets.
Arcoverde ampliou investimentos mesmo em cenário de emergência por estiagem
A quarta posição do ranking é ocupada por Arcoverde, que investiu mais de R$ 23 milhões na programação junina. Dentre os maiores contratos, destacam-se Wesley Safadão (R$ 1,5 milhão), Nattan (R$ 1,2 milhão), Natanzinho Lima (R$ 850 mil), Xand Avião (R$ 800 mil) e João Gomes (R$ 750 mil), repetindo a fórmula de apostar em artistas de grande público.
Os gastos ganharam repercussão porque ocorreram praticamente ao mesmo tempo em que Arcoverde passou a integrar a lista dos 75 municípios pernambucanos em situação de emergência por estiagem, conforme decreto publicado pelo Governo do Estado.
A medida foi adotada em razão da redução dos níveis dos reservatórios, dos impactos no abastecimento de água e dos prejuízos causados à agropecuária em diversas cidades do Agreste e Sertão. Embora o decreto não impeça a realização de eventos culturais, o contraste entre o cenário de escassez hídrica e o investimento milionário reacendeu o debate sobre prioridades na aplicação dos recursos públicos.
Confira abaixo com mais detalhes os valores distribuídos aos artistas que se apresentaram no município:

Vitória de Santo Antão fecha o grupo das maiores despesas
Com investimento superior a R$ 20 milhões, Vitória de Santo Antão completa a lista dos cinco maiores gastos do São João pernambucano.
O principal contrato foi firmado com Luan Santana, por R$ 985 mil. Na sequência aparecem Natanzinho Lima (R$ 850 mil), Xand Avião (R$ 800 mil), Pablo, A Voz Romântica (R$ 765 mil), e João Gomes (R$ 750 mil).
Assim como os demais municípios do ranking, a prefeitura defende que os recursos empregados na programação retornam para a economia local por meio do aumento da ocupação hoteleira, do fortalecimento do comércio e da geração de empregos temporários.
Ao mesmo tempo, órgãos de controle têm reforçado a necessidade de planejamento, transparência e responsabilidade fiscal nas contratações, sobretudo em cidades que enfrentam dificuldades financeiras ou situações de emergência.








