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Situada no coração do bairro da Boa Vista, área central do Recife, a Praça Maciel Pinheiro resiste como um símbolo da história pernambucana. De acordo com arquivos da biblioteca do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o equipamento público foi inaugurado no dia 7 de setembro de 1876, em comemoração à vitória das tropas brasileiras na Guerra do Paraguai.
Passados quase 150 anos, a tradição que atravessou séculos hoje convive com uma realidade marcada pela insegurança, pela presença constante de pessoas em situação de rua e pelo acúmulo de lixo espalhado no entorno do espaço público. O cenário tem impactado diretamente a rotina de moradores, comerciantes e trabalhadores do entorno.
Tomando conhecimento desses fatores, a reportagem do LeiaJá visitou o local e ouviu comerciantes, trabalhadores e moradores da região, que relataram medo constante, assaltos frequentes e queda no movimento comercial.
Estrategicamente posicionada, a Praça Maciel Pinheiro conecta vias importantes como a Avenida Manoel Borba e as ruas da Imperatriz, Hospício e adjacentes. O entorno ainda mantém um fluxo considerável de pessoas durante o dia, mas a movimentação diminui drasticamente no fim da tarde.
Segundo relatos de moradores e trabalhadores da região, circular pelo local após o entardecer se tornou arriscado. “A partir das 17h, 18h é inviável andar por aqui. Alguns usuários que ficam lotados na praça se utilizam de peixeiras para realizar assaltos“, relatou José (*), morador veterano da Boa Vista.
Na primeira visita ao local, a reportagem presenciou a forte presença de pessoas em situação de rua utilizando o espaço como dormitório improvisado. Em outro momento, um grupo de sete pessoas foi visto inalando cola de sapateiro, usada como droga devido ao seu baixo custo e fácil acesso, enquanto estavam dialogando ao redor de uma praça marcada por resíduos espalhados ao redor.
Uma aposentada que passava pelo local se aproximou da equipe por medo de ter os pertences roubados e relatou um assalto que presenciou. “Certa vez foi um casal [de pessoas em situação de rua] portando uma faca que abordou uma pessoa e levou o celular. Eu fico receosa, tenho muito medo“, contou Maria (*), na ocasião.
Outros relatos de assaltos, ameaças e violência
Funcionários e comerciantes que trabalham na região relatam que a insegurança faz parte da rotina. Um trabalhador que atua em um dos prédios no entorno da praça há mais de três anos relatou que existem grupos fixos e rotativos de pessoas em situação de rua vivendo no local.
“Primeiro existe um grupo fixo daqueles que estão há mais anos. E o segundo grupo é rotativo, de pessoas que saem do presídio, ainda com tornozeleira eletrônica, passam alguns dias e depois vão embora, chegando outros”, afirmou Sebastião (*).
Ele também relatou ter sido vítima de assalto nas proximidades da Igreja Matriz da Boa Vista. “O rapaz chegou com uma faca bem grande e abordou nós dois. Meu amigo teve que entregar o celular”, contou.
Quando questionados sobre a presença da Polícia Militar de Pernambuco (PMPE) no entorno, moradores e comerciantes relatam que o policiamento é considerado insuficiente e que as ações são pontuais, sem solução permanente para o problema.
Lixo e abandono contrastam com revitalização recente
A última revitalização da Praça Maciel Pinheiro ocorreu em maio de 2024, por meio da Prefeitura do Recife, com investimento de quase R$ 500 mil. A requalificação incluiu recuperação do piso, bancos, postes, monumentos históricos e paisagismo.
Apesar das estruturas físicas estarem conservadas, o acúmulo de lixo ao redor da praça tem chamado a atenção de quem passa pelo local e reforça a sensação de abandono. Nas duas visitas realizadas pela reportagem, foi possível observar resíduos espalhados pelos canteiros, calçadas e áreas de circulação.
“Essa praça aqui é histórica. Mas com o passar dos anos vemos que abandonaram o espaço. Do jeito que está, o próprio comércio ao redor que já está fraco vai acabar”, relatou Eduardo (*), que trabalha há mais de duas décadas na região.
Comerciantes das ruas do Hospício, Imperatriz e Aragão afirmam que o fluxo de clientes caiu significativamente nos últimos anos, principalmente por causa da insegurança. Segundo relatos, o movimento teria caído cerca de 60%.
“Muitos clientes deixaram de vir para cá e preferem ir para shopping ou lugares mais seguros”, relatou uma Ivonete (*), da Rua da Imperatriz.
Outro comerciante afirmou que precisou contratar segurança particular para evitar arrombamentos durante a madrugada. “A gente tem que pagar segurança durante o dia e durante a noite. Quando acontece alguma coisa, é ligar para o 190. Fora isso, a situação é difícil”, disse Fábio (*), que atua há mais de 40 anos na Rua do Aragão.
Quando a reportagem visitou o local, foi nítido o baixíssimo fluxo de pessoas transitando pelas ruas que, tempos atrás, ficavam lotadas de turistas e consumidores. Os questionamentos dos comerciantes pareciam encontrar resposta no próprio cenário refletido nas vitrines: uma rua praticamente vazia, com estabelecimentos fechados e outros exibindo placas de “vende-se”.
Sintetizando um sentimento amplamente compartilhado entre os vendedores ambulantes, Sandra (*) desabafou: “Infelizmente essa é a situação do Centro do Recife. Somos roubados e ninguém faz nada, nem resolve nada”.
Resposta das autoridades
Procurada, a Prefeitura do Recife, por meio da Autarquia de Manutenção e Limpeza Urbana do Recife (Emlurb), informou que mantém equipes fixas e volantes realizando ações de limpeza na Praça Maciel Pinheiro, no bairro da Boa Vista, além de programar serviços de manutenção e reparos no espaço. O problema é que ninguém ver uma só equipe no local, o dia todo, alguém falta com a verdade.
Segundo a gestão municipal, “equipes fixas e volantes realizam ações de limpeza na praça, e a autarquia programa a manutenção e os reparos nesses espaços”. A Prefeitura também destacou que “o descarte correto do lixo deve ser realizado pela população para preservar o ambiente e colaborar com a saúde pública”.
A administração municipal informou ainda que atua no território por meio da Secretaria de Assistência Social e Combate à Fome, que realiza abordagens sociais diárias através do Serviço Especializado em Abordagem Social (SEAS). “Durante as ações, são ofertados acolhimento institucional, encaminhamentos para a rede de saúde, apoio para emissão de documentos e inclusão em programas sociais, cuja adesão não é obrigatória”, informou a Prefeitura.
A gestão também ressaltou a ampliação da rede de atendimento com a inauguração da Casa de Acolhida Irmã Dulce, no bairro de São José, voltada ao acolhimento da população em situação de rua.
A reportagem também procurou a Secretaria de Defesa Social de Pernambuco (SDS) para comentar sobre o policiamento e a segurança na região, mas não obteve resposta até o fechamento desta matéria. O espaço segue aberto para manifestação.
(*) Os nomes são fictícios para preservar a identidade dos entrevistados.



