
Por Raphael Guerra/JC
O avanço das facções criminosas já atinge os territórios onde vivem pelo menos 28,5 milhões de pessoas no País. A recente pesquisa Datafolha, encomendada pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, reforça a necessidade de ações integradas e efetivas para desarticular esses grupos e garantir a paz sobretudo de quem mora nas áreas de periferias, mais atingidas pelo crime organizado.
Em Pernambuco, a guerra entre grupos pelo domínio de territórios para o tráfico de drogas resulta em um verdadeiro banho de sangue diário. E estatísticas oficiais indicam que mais de 65% das vítimas de homicídios, entre janeiro e setembro deste ano, tinham ligação com atividades criminais. Mas essa intensa disputa também atinge inocentes.
Um levantamento do Instituto Fogo Cruzado identificou 56 pessoas que foram vítimas de bala perdida na Região Metropolitana do Recife (RMR) ao longo deste ano. Desse total, sete morreram.
O caso mais recente foi o de um motorista de ônibus de 24 anos atingido por um tiro de raspão no pescoço no terminal do Bongi, Zona Oeste do Recife, no dia 11 de outubro. Segundo a Polícia Militar, o motorista foi ferido após um suspeito efetuar disparos contra outro homem. Os dois envolvidos não foram localizados.
Na avaliação de Armando Nascimento, pesquisador, consultor e especialista em Governança, Estratégias e Sistemas de Segurança Pública da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), o avanço das facções criminosas no Estado representa um dos maiores desafios atuais para a segurança pública.
“Evidencia não apenas a fragilidade do controle territorial do Estado, mas também a ausência de uma governança integrada e inteligente capaz de antecipar e neutralizar essas dinâmicas criminais. O enfrentamento efetivo dessas organizações exige muito mais do que ações repressivas. Requer integração sistêmica entre os entes federados, fortalecimento da inteligência policial, uso estratégico da tecnologia e políticas sociais que desarticulem o poder simbólico e econômico dessas facções nas comunidades”, afirmou.
“A redução das mortes violentas passa, portanto, por uma gestão baseada em evidências, em consonância com os princípios do Sistema Único de Segurança Pública (SUSP), que busca justamente coordenar esforços e otimizar recursos na prevenção e no enfrentamento do crime organizado”, completou.
O delegado Ivaldo Pereira, gestor da Diretoria Integrada Especializada da Polícia Civil de Pernambuco, pontuou que as facções avançaram em todo o País a partir de 2016, após um rompimento entre o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV), consideradas as maiores do Brasil.
“O CV procurou a rota do Nordeste. Aqui (Pernambuco) chegou com o nome disfarçado. Chamavam de Trem Bala, depois Comando Litoral Sul (CLS). Agora querem a ‘grife’ deles”, disse o delegado.
Pereira citou, por exemplo, bairros do Recife como Nova Descoberta, Casa Amarela e Vasco da Gama, onde nos muros de imóveis estão aparecendo pinturas com as letras “CV”, indicando a presença de membros da facção carioca.
“Estamos atentos à chegada para impedir qualquer avanço. Tudo é muito bem monitorado para que esses grupos não dominem os territórios. O que acontece também é que muitas vezes um preso recebe a liberdade e quando chega nesses bairros diz que faz parte do Comando Vermelho para impor o medo”.
Segundo o delegado, houve aumento de investimentos no setor de inteligência, principalmente em tecnologia, além da maior integração entre as polícias Civil, Militar e Científica, resultando em reduções dos crimes contra a vida e contra o patrimônio no Estado. A queda atual de mortes é de 11,4% em comparação com janeiro a setembro de 2024.



