
Por Ademar Rafael Ferreira (Papa)
Ade Maleu Lapa-el – Hoje apresentamos o poema “O remorso falando ao avarento”, de Elísio Félix (Canhotinho).
Papa – Trata-se de uma das mais belas joias produzidas por um poeta ao longo dos tempos, as reflexões que podemos extrair dele são ilimitadas.
Será que Deus não esteja
Vendo teu íntimo de fera
Um coração que deseja
Devorar como pantera
E esta ironia crua
Nascida da boa tua
Lançada dos olhos teus
Onde miséria se espalha
Um coração sem ter alma
Humanidade sem Deus.
Desperta do leito injusto
Mal ganho e pecaminoso
Quando recebendo um susto
Pergunta o malicioso
Quem és tu? Quem são teus pais?
De onde vens? Pra onde vais?
Que voz é esta que ecoa?
Eu? Sou o remorso duro
Na sombra do teu futuro
Falando a tua pessoa.
Minha sombra causa medo
A todos os desumanos
Comigo não há segredo
Com seis ou sete mil anos.
Herodes, Calígula, Nero
Eu os vejo quando quero
Todas as noites que vou
Envolto à sobra do medo
Para o pé do arvoredo
Onde Judas se enforcou.
Pelo dia me desvelo
Só alimentando os bons
De noite não durmo, velo
Em todos os corações
Dou mil voltas num segundo
Em torno do velho mundo
Dando conta consciência
Depois que guardo o espelho
Fico tranquilo de joelho
Aos pés da santa inocência.
Sigo as pessoas adultas
Sou testemunha das dores
Vivo nas sombras ocultas
Da vida dos malfeitores.
Ninguém me ver, sou anônimo
Apenas sou um sinônimo
Que chamamos de medo
Vou do palácio á choupana
E a experiência humana
Não descore meu segredo.



