09 – SEXTOU POÉTICO – Soneto da Fidelidade – Vinícius de Moraes

Por Ademar Rafael Ferreira (Papa)

Ade Maleu Lapa-el – O “Poetinha” em foco, nesta data, destacaremos Vinícius de Moraes.

Papa –  Como é gratificante visitarmos a obra do “Poetinha” e dela extrair essas duas belíssimas peças e dividir com os internautas. Viva o amor e sensibilidade do filho da “Gávea” e cidadão do mundo.

SONETO DE FIDELIDADE

De tudo ao meu amor serei atento

Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto

Que mesmo em face do maior encanto

Dele se encante mais meu pensamento.

 

Quero vivê-lo em cada vão momento

E em seu louvor hei de espalhar meu canto

E rir meu riso e derramar meu pranto

Ao seu pesar ou seu contentamento

 

E assim, quando mais tarde me procure

Quem sabe a morte, angústia de quem vive

Quem sabe a solidão, fim de quem ama

 

Eu possa me dizer do amor (que tive):

Que não seja imortal, posto que é chama

Mas que seja infinito enquanto dure.

 

A ROSA DE HIROSHIMA

Pensem nas crianças

Mudas telepáticas

Pensem nas meninas

Cegas inexatas

Pensem nas mulheres

Rotas alteradas

Pensem nas feridas

Como rosas cálidas

Mas oh não se esqueçam

Da rosa da rosa

Da rosa de Hiroshima

A rosa hereditária

A rosa radioativa

Estúpida e inválida.

A rosa com cirrose

A antirrosa atômica

Sem cor sem perfume

Sem rosa sem nada.