
Por Ademar Rafael Ferreira (Papa)
Ade Maleu Lapa-el – Nesta data vamos destacar uma das obras de João Batista de Siqueira, o Cancão.
Papa – Mergulhar no oceano de obras primas de Cancão é dele trazer somente um peixe, é missão que não sugiro a ninguém, mas, como tenho que escolher optei pelo poema ‘Manhã de Chuva”, fez parte dos livros “Musa Sertaneja” e “Meu Lugarejo”, e vem logo no início de exuberante livro “Palavras ao Plenilúnio”, nele o maravilhoso poeta nos mostra porque é taxado como gênio.
As andorinhas no rio
Passam baixinho voando
Como crianças brincando
Num lago vasto e sóbrio
O mangueiral do baixio
Sente a chuva, estende a rama
No chão, a verdosa grama
Se serve do mesmo orvalho
Que o vento agitando o galho
A folha treme e derrama.
Do sopé da cordilheira
As pequeninas correntes
Se despenham diligentes
Em busca da cachoeira
O xexéu, na aroeira
Olha toda a redondeza
Diante tanta beleza
Se sente todo encantado
Pensa ser o namorado
Mais fiel da natureza.
Dentro do bosque cerrado
A vegetação cochila
Levanta a fronde tranquila
Sentindo o tronco lavado
Dentro do emaranhado
Que à tarde a sobra rodeia
A ema, lenta, passeia
Em um constante arrepio
Já enfadada do frio
Que a mão da brisa semeia.
Passa perto da palhoça
Um boi em lenta passadas
Fazendo as suas pisadas
No balanço da carroça
Vai a tabaroa à roça
Em um ar aborrecido
No caminho mais seguido
Buscar água no regato
Se defendendo do mato
Pra não molhar o vestido.
Caminha o rebanho lento
Do arvoredo vizinho
À procura do caminho
Do planalto lamacento
No campestre friorento
A planta alegre se agita
A flor sorri e palpita
Sentindo os ventos medonhos
Lá dos recantos tristonhos
Que o gênio da sombra habita.
O vento passa maneiro
Pelo campo rociado
Fingindo um céu esmaltado
Coberto de nevoeiro
Na baixada, um ingazeiro
Sente vigor, se renova
Como nos dando um prova
Se mostra todo florido
Entre o multicolorido
Dum mundo de rama nova.





