17 – SEXTOU POÉTICO – Manhã de Chuva – CANCÃO

Por Ademar Rafael Ferreira (Papa)

Ade Maleu Lapa-el Nesta data vamos destacar uma das obras de João Batista de Siqueira, o Cancão.

Papa – Mergulhar no oceano de obras primas de Cancão é dele trazer somente um peixe, é missão que não sugiro a ninguém, mas, como tenho que escolher optei pelo poema ‘Manhã de Chuva”, fez parte dos livros “Musa Sertaneja” e “Meu Lugarejo”, e vem logo no início de exuberante livro “Palavras ao Plenilúnio”, nele o maravilhoso poeta nos mostra porque é taxado como gênio.

 

As andorinhas no rio

Passam baixinho voando

Como crianças brincando

Num lago vasto e sóbrio

O mangueiral do baixio

Sente a chuva, estende a rama

No chão, a verdosa grama

Se serve do mesmo orvalho

Que o vento agitando o galho

A folha treme e derrama.

 

Do sopé da cordilheira

As pequeninas correntes

Se despenham diligentes

Em busca da cachoeira

O xexéu, na aroeira

Olha toda a redondeza

Diante tanta beleza

Se sente todo encantado

Pensa ser o namorado

Mais fiel da natureza.

 

Dentro do bosque cerrado

A vegetação cochila

Levanta a fronde tranquila

Sentindo o tronco lavado

Dentro do emaranhado

Que à tarde a sobra rodeia

A ema, lenta, passeia

Em um constante arrepio

Já enfadada do frio

Que a mão da brisa semeia.

 

Passa perto da palhoça

Um boi em lenta passadas

Fazendo as suas pisadas

No balanço da carroça

Vai a tabaroa à roça

Em um ar aborrecido

No caminho mais seguido

Buscar água no regato

Se defendendo do mato

Pra não molhar o vestido.

 

Caminha o rebanho lento

Do arvoredo vizinho

À procura do caminho

Do planalto lamacento

No campestre friorento

A planta alegre se agita

A flor sorri e palpita

Sentindo os ventos medonhos

Lá dos recantos tristonhos

Que o gênio da sombra habita.

 

O vento passa maneiro

Pelo campo rociado

Fingindo um céu esmaltado

Coberto de nevoeiro

Na baixada, um ingazeiro

Sente vigor, se renova

Como nos dando um prova

Se mostra todo florido

Entre o multicolorido

Dum mundo de rama nova.