34 – SEXTOU POÉTICO – Sonetos – Augusto dos Anjos

Por Ademar Rafael Ferreira (Papa)

Ade Maleu Lapa-el –  Hoje nosso foco é direcionado para o poeta paraibano Augusto dos Anjos.

Papa – Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos (Augusto dos Anjos), nasceu no Engenho Pau d’Arco, município de Sapé (PB), em 1884 e partiu para o outro lado trinta anos depois. Em sua breve passagem pela terra deixou um obra fantástica. O seu livro “Eu e Outra Poesia” é presença garantida em todas estantes dos amantes da poesia. Da sua original obra retiramos os sonetos  “Psicologia de um vencido” e “Versos Íntimos” para integrar essa galeria.

 

Eu, filho do carbono e do amoníaco,

Monstro de escuridão e rutilância,

Sofro, desde a epigênese da infância,

A influência má dos signos do zodíaco.

 

Profundissimamente hipocondríaco,

Este ambiente me causa repugnância…

Sobe-me à boca uma ânsia análoga à ânsia

Que se escapa da boca de um cardíaco.

 

Já o verme — este operário das ruínas —

Que o sangue podre das carnificinas

Come, e à vida em geral declara guerra,

 

Anda a espreitar meus olhos para roê-los,

E há de deixar-me apenas os cabelos,

Na frialdade inorgânica da terra!

 

Vês! Ninguém assistiu ao formidável

Enterro de tua última quimera.

Somente a Ingratidão – esta pantera –

Foi tua companheira inseparável!

 

Acostuma-te à lama que te espera!

O Homem, que, nesta terra miserável,

Mora entre feras, sente inevitável

Necessidade de também ser fera.

 

Toma um fósforo. Acende teu cigarro!

O beijo, amigo, é a véspera do escarro,

A mão que afaga é a mesma que apedreja.

 

Se a alguém causa inda pena a tua chaga,

Apedreja essa mão vil que te afaga,

Escarra nessa boca que te beija!