39 – SEXTOU POÉTICO – Habeas Pinho – Ronaldo da Cunha Lima

Por Ademar Rafael Ferreira (Papa)

Ade Maleu Lapa-el –  Hoje brilha em nosso espaço Ronaldo da Cunha Lima.

Papa – Ronaldo José da Cunha Lima, nasceu em Guarabira (PB) em 18 de março de 1936, famoso advogado, escritor, poeta e político. Foi vereador e prefeito em Campina Grande (PB), deputado estadual e federal, senador e governador do Estado da Paraíba. Extremamente carismático, dotado de alta capacidade de utilizar a poesia como ferramenta de comunicação ao desempenhar as funções de advogado e em pronunciamentos ligados a política. Da sua vasta obra preferimos trazer a famosa petição em versos, um dos seus mais conhecidos trabalhos poéticos. “Habeas Pinho”, é um clássico alinhado com o propósito desta publicação semanal.

 

Exmo. Sr. Dr. Juiz de Direito da 2ª Vara desta Comarca

O instrumento do crime que se arrola

neste processo de contravenção

não é faca, revólver nem pistola,

é simplesmente, doutor, um violão.

 

Um violão, doutor, que na verdade

Não matou nem feriu um cidadão.

Feriu, sim, a sensibilidade

de quem o ouviu vibrar na solidão.

 

O violão é sempre uma ternura,

instrumento de amor e de saudade.

O crime a ele nunca se mistura.

Inexiste entre eles afinidade.

 

O violão é próprio dos cantores,

dos menestréis de alma enternecida

que cantam as mágoas que povoam a vida

e sufocam suas próprias dores.

 

O violão é música e é canção,

é sentimento vida e alegria,

é pureza é néctar que extasia,

é adorno espiritual do coração.

 

Seu viver como o nosso é transitório

mas seu destino, não, se perpetua

Ele nasceu para cantar na rua

e não para ser arquivo de cartório.

 

Mande soltá-lo pelo amor da noite

que se sente vazia em suas horas,

pra que volte a sentir o terno açoite

de suas cordas leves e sonoras.

 

Libere o violão, Dr. Juiz,

Em nome da Justiça e do Direito.

É crime, porventura, o infeliz,

cantar as mágoas que lhe enchem o peito?

 

Será crime, e afinal, será pecado,

será delito de tão vis horrores,

perambular na rua um desgraçado

derramando na rua as suas dores?

 

É o apelo que aqui lhe dirigimos,

na certeza do seu acolhimento.

Juntada desta aos autos nós pedimos

e pedimos também DEFERIMENTO.

 

Ronaldo Cunha Lima, advogado.

O juiz Arthur Moura deu sua sentença no mesmo tom:

Para que eu não carregue

remorso no coração,

determino que se entregue

ao seu dono o violão.