05 – SEXTOU POÉTICO – O REMORSO FALANDO AO AVARENTO – CANHOTINHO

Por Ademar Rafael Ferreira (Papa)

Ade Maleu Lapa-el – Hoje apresentamos o poema “O remorso falando ao avarento”, de Elísio Félix (Canhotinho).

Papa – Trata-se de uma das mais belas joias produzidas por um poeta ao longo dos tempos, as reflexões que podemos extrair dele são ilimitadas.

 

Será que Deus não esteja

Vendo teu íntimo de fera

Um coração que deseja

Devorar como pantera

E esta ironia crua

Nascida da boa tua

Lançada dos olhos teus

Onde miséria se espalha

Um coração sem ter alma

Humanidade sem Deus.

 

Desperta do leito injusto

Mal ganho e pecaminoso

Quando recebendo um susto

Pergunta o malicioso

Quem és tu? Quem são teus pais?

De onde vens? Pra onde vais?

Que voz é esta que ecoa?

Eu? Sou o remorso duro

Na sombra do teu futuro

Falando a tua pessoa.

 

Minha sombra causa medo

A todos os desumanos

Comigo não há segredo

Com seis ou sete mil anos.

Herodes, Calígula, Nero

Eu os vejo quando quero

Todas as noites que vou

Envolto à sobra do medo

Para o pé do arvoredo

Onde Judas se enforcou.

 

Pelo dia me desvelo

Só alimentando os bons

De noite não durmo, velo

Em todos os corações

Dou mil voltas num segundo

Em torno do velho mundo

Dando conta consciência

Depois que guardo o espelho

Fico tranquilo de joelho

Aos pés da santa inocência.

 

Sigo as pessoas adultas

Sou testemunha das dores

Vivo nas sombras ocultas

Da vida dos malfeitores.

Ninguém me ver, sou anônimo

Apenas sou um sinônimo

Que chamamos de medo

Vou do palácio á choupana

E a experiência humana

Não descore meu segredo.