Enquanto o Brasil sofre com a escassez de motoristas de ônibus, Pernambuco dá exemplo e forma 100ª turma de condutores. E de graça

Por Roberta Soares/JC

O setor de transporte público brasileiro enfrenta uma escassez de mão de obra qualificada para a condução de veículos de grande porte. Dados da Pesquisa CNT Perfil Empresarial 2023 revelam um cenário preocupante de defasagem entre o número de profissionais e a necessidade das empresas.

Entre 2015 e 2025, o número de condutores habilitados na Categoria D (ônibus e vans) sofreu uma redução de 25,1%, caindo de 3,65 milhões para 2,73 milhões de profissionais. A pesquisa mostra que pouco mais da metade das empresas (50,6%) declarou ter vagas abertas para motoristas, muitas delas com volume relevante a 26,1% têm entre 10 e 20 vagas e 9,1% mais de 20 postos desocupados, enquanto a função aparece como uma das principais carências de mão de obra no setor (53,4% das empresas).

Na contramão desse cenário, Pernambuco tem se destacado. Diante da dificuldade de encontrar condutores prontos no mercado, a empresa pernambucana Itamaracá Transportes, que integra o Consórcio Conorte, operador do sistema de transporte público da Região Metropolitana do Recife, consolidou uma estratégia pioneira que chega a um marco histórico este mês: a formação de sua 100ª turma de motoristas.

O projeto, iniciado ainda em 1998 e sediado em Abreu e Lima, no Grande Recife, já graduou mais de 1.200 profissionais ao longo de sua trajetória, inserindo uma média anual de 46 novos condutores no mercado de trabalho urbano.

Originalmente criada para o desenvolvimento interno, a Escola de Formação de Motorista Urbano abriu suas portas para a comunidade justamente para suprir a escassez de mão de obra qualificada. O sucesso da iniciativa é refletido nos números da própria empresa: atualmente, 82% dos motoristas da Itamaracá Transportes são oriundos de sua própria escola.

A metodologia, que já recebeu reconhecimento nacional e internacional, é rigorosa e adaptada às necessidades do transporte de passageiros de forma humanizada. O curso possui uma carga horária de 608 horas/aula, divididas em quatro módulos que abrangem teoria, prática em pátio, prática em campo externo e estágio supervisionado. Além disso, o projeto tem avançado na inclusão, com a formação de turmas femininas para operação direta nos ônibus.

A celebração da centésima turma ocorrerá na próxima terça-feira (24), reafirmando o papel das empresas de transporte não apenas como prestadoras de serviço, mas como centros de qualificação técnica essenciais para superar a crise de mão de obra no setor.