
Quando o assunto é priorizar o transporte público coletivo, a Prefeitura do Recife, em vez de avançar ou, pelo menos, ficar estagnada, resolveu andar para trás e ir de encontro a tudo que se defende no País e no mundo. Às vésperas do primeiro turno das Eleições 2026 e numa clara tentativa de angariar votos para o agora derrotado candidato ao governo de Pernambuco, o ex-prefeito João Campos (PSB), a gestão municipal decidiu desativar na semana passada a Faixa Azul da Rua Jean Emile Favre, no bairro do Ipsep, na Zona Sul da capital, implantada há pouco mais de um ano.
A gestão devolveu ao tráfego misto um espaço viário que havia sido reservado aos ônibus e que estava beneficiando sete linhas de ônibus e, pelo menos, 50 mil pessoas por dia. Passageiros que já são penalizados pela pouca oferta de transporte coletivo na região e que precisam atravessar grandes corredores viários, diariamente congestionados.
A mudança foi realizada pela Autarquia de Trânsito e Transporte Urbano do Recife (CTTU), sob coordenação da Secretaria de Ordem Pública e Segurança do Recife, e só foi informada oficialmente porque aliados da gestão municipal foram às redes sociais para faturar politicamente por terem atendido aos pedidos dos comerciantes do bairro, incomodados com a faixa exclusiva.
Em sua justificativa, inclusive, a CTTU deixa por último a informação de que desativou a Faixa Azul, equipamento que começou a ser implantado na capital ainda pelo ex-prefeito Geraldo Julio (PSB), mas que estagnou na capital desde a entrada de João Campos. Segundo a autarquia, após a implantação do binário formado pelas ruas Jean Emile Favre e Raimundo Diniz, entregue em junho de 2025, moradores, transeuntes e condutores relataram impactos negativos na dinâmica do local.
CTTU ignorou os benefícios aos passageiros
A Autarquia afirma que teria havido “escutas”, que com certeza não envolveram os passageiros dos ônibus, e avaliações técnicas, que levaram à redução drástica da operação do equipamento, que passou a funcionar apenas das 6h às 8h nos dias úteis. Depois, foi desativada, e a avenida voltou a ter duas faixas de tráfego misto por sentido. Na visão da CTTU, a medida melhorou a distribuição dos tráfegos, facilitou o acesso ao bairro e favoreceu a área comercial.
Na nota oficial, mais uma vez os passageiros dos ônibus não foram considerados. Assim como os benefícios proporcionados a eles. A CTTU argumentou que a Faixa Azul atendia sete linhas de ônibus e, por estar funcionando por duas horas na manhã, uma restrição promovida já por pressão política dos comerciantes do bairro, representava apenas 8% do tempo de operação da via. Ou seja, um espaço que já era usado de forma mínima, e que o município havia restringido, acabou retirado de vez. Se o problema era a convivência com o tráfego de veículos, a Prefeitura poderia ter ajustado horários, reforçado a sinalização ou fiscalizado. Preferiu extinguir a prioridade.
Retrocesso em relação ao país e ao mundo
O recuo contradiz a lógica que deveria orientar uma capital com dificuldades crônicas de circulação, a mais congestionada do País e uma das piores do mundo, vale destacar. Cidades que querem reduzir congestionamentos, emissões e desigualdade de acesso precisam estimular o transporte coletivo, que transporta mais gente por espaço ocupado, e não o individual motorizado.
O Sindicato das Empresas de Transporte de Passageiros de Pernambuco (Urbana-PE), que reúne as operadoras de ônibus, classificou a decisão como “anacrônica” e um “retrocesso”, alertando para a falta de comunicação prévia às empresas e aos passageiros e disse que tirar espaços do transporte coletivo incentiva o uso do carro e amplia desigualdades. E demonstrou esperança de que a gestão municipal reveja a decisão.
O gesto da Prefeitura do Recife não surgiu do nada. O secretário de Ordem Pública e Segurança do Recife, Alexandre Rebêlo, afirmou que os principais eixos da cidade já receberam Faixa Azul, que não há estudo de implantação a curto prazo e que a prioridade agora seria qualificar a fiscalização eletrônica.
Segundo ele, vias como a Avenida Abdias de Carvalho não teriam demanda de ônibus suficiente, e a Avenida Norte seria estreita demais. Para esses casos, sugeriu soluções de médio e longo prazo, como o Veículo Leve sobre Trilhos (VLT). Em outras palavras, a gestão já dizia que o Recife não comporta mais faixas exclusivas além das existentes. Agora, na prática, comporta menos.



