
A Câmara dos Deputados aceitou perder R$ 334 milhões para salvar o que realmente importava: o cofre de R$ 37,8 bilhões das emendas impositivas. Na superfície, o primeiro relatório fiscal do ano deu à Fazenda a manchete da austeridade. O governo bloqueou uma fatia das emendas e vendeu ao mercado a imagem de que enquadrou o Congresso às vésperas do recesso. No bastidor, porém, a conta é outra.
Ao longo das últimas semanas, o comando da Câmara e as lideranças partidárias correram para dar conformidade técnica ao grosso das emendas. A ideia era carimbar o máximo possível do dinheiro antes de o governo puxar a caneta do bloqueio. O Orçamento de 2026 prevê cerca de R$ 61 bilhões em emendas parlamentares. Desse total, o núcleo duro, de execução obrigatória, soma R$ 37,8 bilhões, R$ 26,6 bilhões em emendas individuais e R$ 11,2 bilhões em emendas de bancada.
A jogada foi aceitar sem barulho um corte administrável para blindar o saldo bilionário que irrigará as bases eleitorais no segundo semestre. Pela nova regra de rastreabilidade das emendas, qualquer novo bloqueio sobre recursos parlamentares precisa guardar proporcionalidade com os cortes nas despesas discricionárias dos ministérios. Como o governo fixou o bloqueio das emendas em R$ 334 milhões, gastou seu cartucho sem encostar no coração do orçamento parlamentar.
Para cortar mais adiante, o Planalto teria de fazer bloqueios proporcionais e muito mais duros em áreas como Saúde, Educação e Transportes. Com a máquina pública já no osso, a conta poderia empurrar o Executivo para uma espécie de shutdown administrativo. Na prática, a Câmara entregou os anéis para preservar os dedos.
A Fazenda ganhou a manchete. Os deputados ficaram com o fluxo financeiro. Na volta do recesso, se o governo quiser aprovar novas medidas de arrecadação para fechar as contas do ano, terá de negociar com uma Câmara sentada sobre quase R$ 37,5 bilhões em emendas blindadas. O corte foi de milhões. A vitória, de bilhões.



