A infeliz entrevista do ex-juiz

Por Ivanildo Sampaio*

Logo após o primeiro turno das eleições, que deveriam escolher os governadores de Estado e novo Presidente da República, quando Flávio Bolsonaro, o Zero Um, chegou à frente de Luiz Inácio Lula da Silva, o senador Sérgio Moro, que se elegeu Governador do Paraná, contava como absolutamente certa a vitória, no segundo turno, do candidato de oposição. E numa infeliz entrevista para a Revista Veja, Moro comemorou antecipadamente a vitória que não viria, expôs mais uma vez o seu primarismo político, tentou desconstruir a biografia de Lula, um político que já tinha na sua história três mandatos presidenciais, e se prepara, agora, para cumprir o quarto, pela vontade e escolha do povo brasileiro. Já Sérgio Moro foi um medíocre ministro da Justiça de Jair Bolsonaro, de cujo governo saiu desacreditado e sem deixar saudade. Como ministro, Sérgio Moro foi algumas vezes desautorizado publicamente pelo chefe, mantinha conversas sigilosas com a então deputada federal Carla Zambelli, hoje condenada e foragida, à espera de uma decisão da justiça italiana, para ser entregue à Justiça brasileira.

A bem da verdade, eu nunca tive muita simpatia pelo juiz Sérgio Moro, que em busca de notoriedade transformou a chamada “Operação Java Jato” num espetáculo onde ele brilhou como “estrela”. E criticava Moro quanto a grande maioria o endeusava. Ávido por holofotes. No lugar de punir alguns empresários que carregavam culpa, Sérgio Moro puniu as empresas, que acabaram falindo – deixando mais de 20 mil trabalhadores desempregados e enterrando com elas uma experiência de décadas, no desenvolvimento de engenharia pesada, que ia desde a construção de usinas de grande porte, como Itaipu, Xingó, Cachoeira Dourada, Paredão, e tantas outras, além de rodovias, ferrovias, aeroportos, linhas de metrô, etc., no Brasil e No Exterior.

Pois bem, findo o primeiro turno, das eleições recentes, e reafirmando seu primarismo político, tentando comemorar a vitória antes do tempo, Sérgio Moro, recém-eleito governador do Paraná, quando foi questionado pelo repórter sobre a possibilidade de uma vitória de Lula, e da necessidade de uma relação entre os dois, ele respondeu: – “Primeiro, eu não acredito nessa hipótese trágica de Lula vencer. Vimos no primeiro turno uma vitória avassaladora da direita e um avanço de Flávio, que no Paraná teve uma votação maior que a de Jair (pai do candidato) em 2022. Tivemos a eleição de três governadores de oposição a Lula na Região Sul, além de vitórias em São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais. Aposentaremos definitivamente Lula no Segundo Turno. É um governo que nasceu velho e morrerá decrépito”, enfatizou Sérgio Moro. E agora? Ele vai tentar ser recebido por um Presidente “que já morreu”?

Pela fala do ex-juiz, dá pra ver que, assim como vários militantes de extrema-direita nos Estados do Sul, Sergio Moro simplesmente ignorou que existiam na divisão do País os Estados do Norte e do Nordeste, que votaram em Lula, “viraram o jogo”, e fizeram políticos como o ex-juiz e outros do mesmo quilate, engolirem a arrogância. Flávio Bolsonaro. candidato de Sérgio Moro e da extrema-direita, perdeu a eleição por mais de 4 milhões de votos, saiu do país derrotado e fugindo da Justiça, sob acusações de lavagem de dinheiro, indo abrigar-se nos Estados Unidos. Lá, seu ídolo e modelo, Donald Trump, também acaba de ser fragorosamente derrotado na renovação do Congresso norte-americano.

Do lado de cá, resta esperar o dia em que o governador Sérgio Moro, de crista baixa, vai solicitar uma audiência com o Presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

*Ivanildo Sampaio é jornalista.