Abandonada, praça na Torre, no Recife, vira “ringue” para lutas clandestinas

Por Jamerson Mendes/LeiaJá

Entre golpes que cortam o ar e um amontoado de espectadores que cercam um ringue improvisado, o bairro da Torre, no Recife, tem servido de palco para a realização de lutas clandestinas. Os combates são divulgados nas redes sociais e vêm atraindo um público expressivo de curiosos.

Os torneios ocorrem à noite, em diferentes pontos do bairro. Em um dos vídeos publicados, que já soma mais de 10 mil visualizações, a luta ocorre dentro da quadra da Praça Professor Barreto Campelo. As imagens mostram um espaço cercado por fita de isolamento e gradis, com piso emborrachado improvisando o ringue. Os lutadores usam luvas de boxe, enquanto o público se aglomera ao redor.

Quando o “juiz” dá início ao combate, a sequência de socos é acompanhada pela vibração dos espectadores. Não há, porém, qualquer estrutura médica visível, como ambulância ou equipe de socorro, ausência que reforça o caráter clandestino do evento.

A reportagem do LeiaJá esteve no local onde ocorrem os torneios. Segundo relatos de moradores que preferiram não se identificar, as lutas noturnas reúnem pessoas de outras regiões e também envolvem apostas em dinheiro.

“Isso ocorre uma vez na semana. Um tira o sangue do outro, todo mundo fica filmando e apostam valores altos, como R$ 1.000, R$ 1.500 para quem derrubar primeiro”, relatou uma das moradoras que optou por resguardar a identidade.

Segurança e riscos

Procurado pela reportagem, o presidente do Conselho Regional de Educação Física da 12ª Região (CREF12/PE), Lúcio Beltrão, afirmou que o órgão desconhecia a realização de lutas na Torre e não havia recebido denúncias formais. Segundo ele, qualquer evento do tipo precisa cumprir exigências legais e de segurança.

“É necessário cumprir a Lei Geral do Esporte, Estatuto do Torcedor e demais disposições legais, como ter médico responsável presente, ambulância no local, equipamentos de primeiros socorros, treinadores registrados no CREF, regras, arbitragem e equipamentos de proteção. São requisitos esportivos, administrativos, de segurança e profissionais”, explicou.

Ao longo dos anos, diversos acidentes em competições semelhantes ganharam repercussão nacional. Um dos casos que mais chocaram o país ocorreu em Teresina (PI), quando um lutador amador de 34 anos morreu após sofrer traumatismo craniano decorrente de um nocaute.

Situações como essa evidenciam os riscos de impactos repetidos na cabeça, comuns em combates sem a devida estrutura de segurança. Em entrevista à Folha de São Paulo, o neurologista e professor da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Mário L. Melo, alertou que esse tipo de trauma pode provocar desde concussões até lesões cerebrais graves.

“Impactos de golpes na cabeça podem gerar tonturas, perda de consciência e também traumas mais importantes, como fraturas do crânio, contusão cerebral e hematomas“, afirmou.

Em um dos vídeos que mostram o preparo de outros atletas antes de entrarem no ringue montado na quadra da Praça Professor Barreto Campelo, um dos lutadores utilizava protetor bucal, equipamento indispensável para a proteção dentária durante o combate. No entanto, como o adversário não fazia uso do item, a aclamação de uma parte do público foi para que não fosse utilizado por nenhum dos combatentes.

Na ocasião, embora o “árbitro” da disputa tenha apresentado instruções básicas, como a proibição de golpes na nuca e a possibilidade de perda de pontos, a inexistência de ambulância ou de equipe médica no local evidencia o risco a que os participantes estavam expostos, sobretudo diante do potencial de lesões inerentes às artes marciais.

Sobre os eventos na Torre, Lúcio Beltrão ressaltou que o órgão ainda não havia recebido denúncia formal. Contudo, após ter acesso a um dos vídeos, avaliou que não há possibilidade dos eventos serem regularizados, uma vez que esse tipo de combate precisa divulgar publicamente o número de registro no CREF dos profissionais envolvidos, informação que não aparece nas postagens sobre as lutas na Torre.

Ele acrescentou que, embora conselhos profissionais tenham limitações legais na fiscalização direta do exercício irregular da profissão, o órgão poderá realizar diligências no local, solicitar a apresentação de registros profissionais e identificar os responsáveis pelas atividades, caso haja formalização de denúncia.

Em frente à PM

As lutas acontecem a poucos metros de uma unidade móvel da Polícia Militar (PM) instalada na área, porém, moradores do bairro relatam que nada é feito pelos policiais para impedir a prática ou outros crimes na região.

A reportagem tentou ouvir a Secretaria de Defesa Social de Pernambuco (SDS) sobre o caso, mas não obteve retorno até o fechamento desta matéria. O espaço permanece aberto.

A Prefeitura do Recife, responsável pela gestão do espaço usado para as lutas, também foi procurada, mas não se manifestou. O espaço também está aberto para eventuais esclarecimentos, diz o site.