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Por Malu Gaspar/O Globo
A migração da governadora de Pernambuco, Raquel Lyra (PSDB) para o PSD, que será oficializada no dia 10, é fruto de um flerte antigo. Mas a tucana também manteve conversas com o MDB até o último momento. A opção pela sigla de Gilberto Kassab se deu em boa parte pelo interesse em ampliar parcerias com o governo Lula e embaralhar a disputa pela reeleição contra o prefeito de Recife, João Campos (PSB), além de fatores regionais.
A pernambucana trabalhava para se filiar a uma legenda maior do que o PSDB, que atualmente faz oposição a Lula. O partido, que governou o Brasil por dois mandatos, corre o risco de não atingir a cláusula de barreira no ano que vem e cogita se unir ao Podemos e ao Solidariedade.
Campos é o candidato natural do presidente da República para o governo do estado em 2026, mas a intenção de seus aliados é que a ida de Raquel para o PSD venha a forçar uma posição de neutralidade de Lula, em troca de apoio no cenário nacional.
Em 2022, o petista também contou com palanque duplo em Pernambuco na disputa contra Jair Bolsonaro. Na época, o PSB de seu vice, Geraldo Alckmin, controlava o governo do estado com Paulo Câmara, que lançou Danilo Cabral à sua sucessão. Mas a ex-petista Marília Arraes também disputou o voto lulista pelo Solidariedade.
Danilo acabou de fora do segundo turno, vencido por Raquel contra Marília. Apesar da polarização política e do favoritismo de Lula no estado, a então governadora eleita optou pela neutralidade na disputa nacional.
A mais de um ano e meio da eleição, Raquel aparece com apenas 28% das intenções de voto na pesquisa Quaest divulgada na última quinta-feira (27), bem atrás de João Campos (56%). O político do PSB foi reeleito no primeiro turno em outubro passado com 78% dos votos.
Nos bastidores, a aproximação de Raquel com o governo Lula é atribuída à boa relação que ela tem com o ministro da Casa Civil, Rui Costa, ligação vista com desconfiança no entorno de João Campos.
Ministro responsável pelo Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), Costa é parceiro histórico do PSD na Bahia, um dos estados do Nordeste que pressionam para o partido apoiar formalmente a reeleição de Lula.
Outro fator de ligação de Lyra com o governo é o fato de que o ministro da Pesca, André de Paula, comanda o PSD local. Na prática, a aproximação de Raquel Lyra com o PSD começou ainda em agosto de 2023, quando a governadora nomeou a filha de André, Cacau de Paula, como secretária de Cultura.
Cacau era secretária de Turismo de João Campos no Recife e pediu exoneração para embarcar na gestão tucana.
Isolamento na Assembleia
A opção pelo PSD em detrimento do MDB também se explica por fatores regionais, em especial o isolamento político da governadora no estado, refletido nos obstáculos enfrentados na Assembleia Legislativa. Os dois partidos não têm representantes na Casa.
Raquel só conseguiu emplacar aliados em duas das 17 comissões. Antes, a base da tucana tinha o controle de nove colegiados. Entre as perdas estão postos estratégicos como a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) e a de Finanças.
Raquel está rompida com o presidente da Casa, Álvaro Porto (PSDB), desde o ano passado. Mesmo estando no mesmo partido até agora, os dois colecionam divergências. Em fevereiro de 2024, vazou no microfone da Assembleia a voz de Porto comentando o discurso que ela havia acabado de fazer, dizendo que Raquel tinha falado “merda demais”.
Embora historicamente distante do PSB, o presidente da assembleia vem progressivamente se aproximando de João Campos, que emplacou aliados em comissões estratégicas da Assembleia como a de Constituição e Justiça, Finanças e Administração.
Desinteresse do MDB
Apesar das conversas mantidas com o presidente do MDB, Baleia Rossi, a regional do partido sinalizou que não tinha interesse de levar as tratativas adiante. Um dos principais nomes da sigla no estado, Raul Henry, ligado ao ex-senador Jarbas Vasconcelos (MDB), ocupa a Secretaria de Relações Institucionais da prefeitura de Campos e disse não ter interesse em deixar a gestão.
Na busca por uma legenda para se abrigar, Raquel também criou ruído com o líder do União Brasil no estado, o ex-prefeito de Petrolina Miguel Coelho, que foi candidato ao governo em 2022. Ele também é filho do ex-senador Fernando Bezerra Coelho, uma das lideranças do MDB pernambucano.



