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O relatório da Polícia Federal com detalhes da relação entre o ex-banqueiro Daniel Vorcaro e o ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes deu tração à grave crise de reputação enfrentada pelo STF e se tornou peça-chave na campanha presidencial deste ano.
Empatado com o presidente Lula (PT) nas simulações de segundo turno, o senador Flávio Bolsonaro (PL) aproveitou a divulgação do documento da PF para desviar o foco do fato de ele ter pedido 134 milhões de reais ao antigo dono do Banco Master, supostamente para financiar a cinebiografia de Jair Bolsonaro.
O Zero Um também passou a reforçar a associação que a oposição faz entre Moraes a Lula, numa tentativa de transferir a rejeição do magistrado para o petista. Recentemente, o ministro do STF intermediou a reunião que selou a reaproximação do presidente com o comandante do Senado, Davi Alcolumbre. “Quem vota em Lula está votando em Moraes”, declarou o senador em ato de campanha, no feriado da Independência, na Avenida Paulista, em São Paulo.
Blindagem e cálculo eleitoral
Por enquanto, a crise do Supremo deixa Flávio Bolsonaro no ataque e Lula na defensiva. Até aqui, o presidente reagiu como um equilibrista. Ele sabe que tem de condenar a degradação moral no tribunal. Ao mesmo tempo, foge de críticas diretas a Moraes e à própria Corte, com quem estabeleceu uma parceria estratégica em seu terceiro mandato, usada para tentar reverter dificuldades no Congresso.
Ciente da indignação popular com as suspeitas sobre magistrados, Lula disse que ninguém está acima da lei e que juízes não podem usar os cargos para enriquecer. Ele também defendeu uma reforma do Judiciário. Como Moraes se tornou o símbolo da crise e motor da propaganda eleitoral de Flávio Bolsonaro, o petista passou a argumentar que não foi ele o responsável pela indicação do magistrado, mas Michel Temer.
Ou seja: Lula ainda não largou a mão de Moraes. Ainda. O histórico do presidente mostra que, dependendo da necessidade, ele não tem pudor de sacrificar aliados. Quando o mensalão veio à tona, Lula disse que não sabia do esquema e afirmou ter sido traído. Pressionado, demitiu o companheiro José Dirceu da Casa Civil. Em 2026, Lula apoia a candidatura de Dirceu à Câmara, como forma de promover, segundo o presidente, uma reparação histórica.
Quando a Lava Jato ganhou as ruas, petistas estrelados passaram a ser investigados. Então líder do governo no Senado, Delcídio Amaral dizia que Lula e o partido não estavam defendendo de forma adequada os correligionários e aliados sob investigação. “O PT enterra os seus em cova rasa”, reclamava o senador, lembrando da possibilidade de retaliação daqueles que se sentiam abandonados.
O próprio Delcídio acabou preso pela Lava Jato e depois fechou um acordo de colaboração em que implicava Lula no petrolão. Suas informações foram consideradas inconsistentes pela Justiça e não complicaram a situação jurídica do presidente, que foi sentenciado à cadeia por supostamente receber favores pecuniários de empreiteiras.
Entre petistas predomina a avaliação de que a lealdade de Lula, mesmo com os mais próximos, tem limite: ela vale enquanto não atrapalhar o projeto político do presidente. Quando um governo ou uma eleição estão em risco, não há dificuldade para promover sacrifícios. Moraes será jogado aos leões caso Lula perceba que o ministro ameaçará ainda mais a sua reeleição.



