
Pernambuco reúne desafios persistentes na educação básica, segundo diagnóstico do Todos Pela Educação divulgado nesta terça-feira (28), com a iniciativa Educação Já Estados.
Os estados respondem por 36% das matrículas da rede pública e, além de gerir suas próprias redes, também apoiam os municípios, especialmente na Educação Infantil e na alfabetização.
Eles concentram grande parte das matrículas nos anos finais do ensino fundamental e, sobretudo, no ensino médio, etapa sob sua responsabilidade, onde se acumulam alguns dos principais desafios do país, como o aumento do abandono escolar e os baixos níveis de aprendizagem.
Segundo o panorama, Pernambuco enfrenta desafios como: ter apenas 28% dos alunos dos anos iniciais, 12% dos anos finais e 7% do ensino médio com nível adequado (2023); o acesso limitado à educação infantil, já que em 2025 apenas 29% das crianças de 0 a 3 anos estão em creches e 87% na pré-escola, abaixo das médias nacionais; e a baixa participação no ensino técnico, que representa só 12% das matrículas do ensino médio, aquém dos índices nacional e regional.
Para Bernardo Baião, coordenador de Políticas Educacionais do Todos Pela Educação, é fundamental observar duas variáveis. A primeira é o nível de aprendizagem adequada, ou seja, o percentual de estudantes que atingem um patamar considerado suficiente para avançar.
“Não é só progredir em disciplinas como Língua Portuguesa, Matemática e Geografia, mas fazer do aprendizado um vetor para o ingresso no ensino superior e para melhores oportunidades de emprego”, afirmou, em entrevista à coluna Enem e Educação.
A outra variável é o percentual de alunos abaixo do básico. “Esse é, talvez, o dado mais chocante: hoje, em Pernambuco, mais da metade conclui a etapa sem o mínimo de aprendizagem. Não consegue realizar operações básicas de matemática nem fazer uma leitura interpretativa qualificada. Quando debatemos isso, não estamos falando apenas do desempenho escolar, mas de todo o impacto na vida do estudante”, avaliou.
Avanço isolado não garante melhora real
O professor e doutor em Educação, Raphael Alves, destacou que a Educação é um sistema completo, em que tudo está interligado. Ou seja, um indicador isolado não irá, necessariamente, representar um avanço real, sem a articulação das diferentes dimensões do processo educativo. Prova disso, é o nível de aprendizagem adequada dos estudantes do Ensino Médio, de apenas 7%.
“Esse problema não surge de forma isolada no fim do percurso. Ele é resultado de lacunas que se acumulam desde as etapas iniciais, de fragilidades na consolidação de leitura, escrita e raciocínio, de desigualdades de acesso e permanência e de um modelo que, muitas vezes, prioriza o cumprimento de metas em detrimento da aprendizagem real”, afirmou.
“Quando o estudante chega ao Ensino Médio, essas defasagens já estão cristalizadas, o que torna muito mais difícil qualquer intervenção efetiva”, completou em entrevista à coluna Enem e Educação.
O docente também pontua que, muitas vezes, o foco excessivo em metas quantitativas leva à adoção de práticas que distorcem os resultados, sem enfrentar os problemas de fato. “Por isso, é fundamental que os dados sejam acompanhados de leitura crítica, monitoramento e instrumentos que considerem a dimensão qualitativa da educação”, disse.
O panorama apresentado pelo Todos Pela Educação também apontou alguns destaques para Pernambuco, ainda que com contrastes importantes.
O avanço recente na alfabetização, com 66% das crianças alfabetizadas até o 2º ano do ensino fundamental em 2025, alcançando a meta estabelecida e sinalizando melhora nos indicadores iniciais de aprendizagem.
No Ensino Médio, o estado possui o terceiro maior Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) do país (4,5), superando as médias nacional e do Nordeste. Outro ponto de destaque é a forte presença do ensino médio em tempo integral: em 2025, 60% das matrículas estão nessa modalidade, índice bem superior ao do Brasil (25%) e ao da região (43%), indicando a consolidação dessa política na rede estadual.
“Esses resultados são positivos, Pernambuco por exemplo é um dos poucos estados que bateu a meta do índice de alfabetização, mas é importante lembrar que o objetivo para 2030 é de 80% das crianças alfabetizadas na idade adequada. Então, 66% ainda é baixo, mas é sim de se comemorar”, afirmou Bernardo Baião.
Por outro lado, o coordenador de Políticas Educacionais destacou que o grande desafio do Brasil é garantir a continuidade dessa trajetória. Segundo ele, muitos estudantes começam a vida escolar com níveis melhores de aprendizagem, mas perdem esse desempenho ao longo do percurso.
“E o que explica isso? São as defasagens naturais do percurso escolar, uma dificuldade maior em Português e Matemática que não é sanada no momento. Você vai deixando esse aluno ser aprovado, mas não o acompanha de perto, com aulas de reforço”, afirmou.
Escola precisa fazer sentido para os estudantes
Também é importante inserir nesse contexto, sobretudo na perspectiva de quem vive o chão da sala de aula, que a escola precisa fazer sentido para o estudante, um desafio cada vez mais urgente.
“Não apenas como caminho profissional, mas como espaço de formação humana, social e crítica. Hoje, muitos jovens são atravessados por discursos que desvalorizam a experiência escolar em nome de uma lógica imediatista, centrada em consumo e status. O resultado é uma desconexão mais profunda, uma crise de sentido que afeta diretamente o vínculo com a aprendizagem e, consequentemente, o próprio trabalho docente”, destacou o professor Raphael Alves.
O docente afirmou ainda que, após a ampliação do acesso à escola, o principal desafio passou a ser a aprendizagem, cuja fragilidade ajuda a explicar o desinteresse dos alunos e a evasão.
“Quando falamos em qualidade da educação, estamos falando, antes de tudo, do papel que queremos que a escola cumpra. Qualidade não pode ser confundida com desempenho isolado, nem com eficiência medida apenas por números. Ela envolve a construção de sentidos, a formação de repertório, a capacidade de leitura crítica da realidade e a possibilidade concreta de intervenção no mundo. Se a escola se limita a treinar para exames, ela pode até melhorar indicadores, mas empobrece a formação”, declarou.



